Depois de doença grave, bióloga diz adeus aos agrotóxicos e vira produtora de orgânicos

'Quando estamos muito doentes, a vida nos ensina a ser melhor', afirma feirante

Estêvão Azevedo, O Estado de S. Paulo

07 Novembro 2016 | 06h00

Manejando saquinhos repletos de tomates frescos, cenouras e pepinos, em meio ao burburinho comum a qualquer feira livre, uma voz calma oferece produtos de trás do balcão da última barraca do galpão ensolarado. "Esse cinco, amiga, mas, como já estamos encerrando, dá pra negociar", diz, sorrindo, a negociante, feliz pela oportunidade de presentear o freguês que visita sua banca na Feira do Produtor Orgânico, no Parque da Água Branca, no final da manhã de um sábado de outubro. A dona dos modos gentis e legumes apetitosos é Rita Maronesi, paulista de 60 anos, que guarda por trás do avental de trabalho uma relação especial com os produtos orgânicos, que vai além do plantar, colher e comercializar.

O que a maioria dos expositores chama de profissão, Rita nomeia de filosofia de vida. Casada há 36 anos e moradora da pacata Cordeirópolis, cidade no interior do estado de São Paulo com pouco mais de 20 mil habitantes, a bióloga de formação conta que encontrou nos alimentos sem agrotóxicos a grande mudança de sua vida. Não só porque é por meio deles que ela hoje tira o sustento seu e de sua família, mas, também, porque foi ao restringir sua alimentação a eles que ela se recuperou de uma grave doença, que, por pouco, não deixou seus três filhos - à época com quatro, três e um ano de idade - órfãos.

Rita foi diagnosticada, em 1986, com plaquetopenia, problema causado quando há uma redução da contagem de plaquetas para abaixo dos valores de referência - algo em torno de 150 mil/mm. As plaquetas são responsáveis por reconhecer lesões da parede dos vasos sanguíneos e estancar os vazamentos de sangue, segundo explica o hematologista Alexandre Mello de Azevedo, da Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro.

Quando acontecem estas lesões, as plaquetas rapidamente aderem ao local e entre si, formando um tampão. "Posteriormente, elas iniciam no local o processo de coagulação, visando à formação de um coágulo no local. Isso permite que a parede do vaso cicatrize e, quando isso tiver ocorrido, o coágulo será dissolvido por proteínas especializadas presentes no sangue, num processo chamado fibrinólise. Pode-se dizer que as plaquetas são responsáveis por manter a integridade dos vasos sanguíneos", completa Azevedo.

No caso de Rita, a suspeita de que alguma coisa não ia bem surgiu quando seu corpo começou a apresentar algumas manchas vermelhas. Ao fazer exames de sangue, ela descobriu que suas plaquetas estavam em 40 mil, o que já seria algo preocupante. No intervalo de uma semana, o número despencou para 9 mil, e foi identificado que seu baço as estava destruindo vertiginosamente. "Ninguém podia me apertar, eu tinha que evitar cair, e mesmo ao dormir, às vezes, se eu batesse em qualquer lugar, já ficava com manchas enormes, toda roxa", relembra Rita.

O hematologista explica que, quando os níveis das plaquetas estão entre 20 mil e 50 mil, já podem ocorrer sangramentos espontâneos ou após pequenos traumas como, por exemplo, os simples atos de se barbear, usar o fio dental ou ir à manicure - algo que, em condições normais, não traria maiores consequências. 

"Abaixo de 20 mil plaquetas, o risco de sangramentos espontâneos é considerável, e recomenda-se repouso relativo. Podem surgir manchas roxas em áreas de pressão e apoio, ou sangramentos de mucosas como a do nariz, gengivas ou trato genital feminino, como a menstruação exagerada", complementa Azevedo. "Já abaixo de 10 mil, recomendam-se transfusões de plaquetas profiláticas, pois o risco de hemorragias é alto, principalmente quando elas ocorrem em órgãos nobres ou de difícil acesso, como o cérebro, a retina ou os pulmões".

O que se seguiu foi uma avalanche de problemas que, rapidamente, minaram a saúde de Rita. O primeiro deles foi uma inflamação no fígado causada pelo uso excessivo de analgésicos, anti-térmios e anti-inflamatórios chamada de hepatite medicamentosa, e que é a causa mais comum de insuficiência hepática aguda nos Estados Unidos, de acordo com Alexandre Mello de Azevedo.

"Minha resistência baixou e, com isso, tive outras coisas. Hepatite medicamentosa, gastrite, um nódulo no seio. Fiquei internada com pneumonia por quase um mês, e quase morri", descreve Rita. "Senti que tinha que ser forte porque meus filhos eram pequenos e eu queria muito viver. Senti medo de morrer, sim, mas, quando estamos muito doentes, a vida nos ensina a ser melhor, a querer ajudar o próximo, muda nossa vida por completo. Nosso lado espiritual fica mais forte e tudo muda". 

Foi quando, por sugestão de um médico ligado à Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiros (ESALQ), Rita decidiu rever sua alimentação - a ideia era acrescentar fitoterápicos ao tratamento e eliminar completamente do cardápio alimentos que recebessem agrotóxicos em qualquer etapa de seu cultivo. Ela conta que, neste momento, seu organismo começou, finalmente, a reagir. A princípio, ela e a família plantavam arroz, feijão, milho e outros legumes e frutas apenas para consumo próprio. "Daí caiu minha ficha. Eu disse ao meu marido: ou nós plantamos para todo mundo de uma maneira saudável, ou não plantaremos mais nada. Porque se aquilo estava me matando, podia estar matando outras pessoas também".

Depois de conquistarem todos os certificados necessários, Rita e o marido passaram a usar o selo de orgânicos aprovados em seus produtos, e passaram a comercializá-los. Os filhos cresceram e seguiram seus próprios caminhos, mas, na mesa da família Maronesi, só há espaço para alimentos completamente naturais e saudáveis - exceções são permitidas apenas em situações sociais, como uma festa de vez em quando, uma viagem, por exemplo. "Não sou radical. Bebo socialmente, gosto de um bom vinho, um chope, mas tudo em pequenas quantidades."

Além da reforma na alimentação, Rita também passou a praticar caminhada e pilates. Às terças-feiras, sábados e domingos, ela viaja de Cordeirópolis para a capital para expor seus produtos em uma banca na feira do Parque da Água Branca, onde, de sua maneira suave e gentil, troca receitas, conselhos e histórias de vida com os clientes. "Acho difícil que eu seja um exemplo para alguém, porque cada um tem sua história de vida. Só fico triste, por exemplo, ao ver pais dando tantas porcarias para os filhos comerem", avalia. "Acredito que tudo que fazemos com todo nosso amor, por mais difícil que pareça no momento, sempre gera retorno para melhor. Meu marido é um homem maravilhoso, meus filhos, pais, irmãos, todos sempre estiveram ao meu lado. Sou uma pessoa feliz". 

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