Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Depois de tanto se esconder, modelo Carolina Clarkson exibe vitiligo com orgulho

Quando decidiu testar a liberdade de ser quem ela é, nunca mais se acobertou com as maquiagem e roupas compridas

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2022 | 05h00

Diagnosticada com vitiligo aos 9 anos, Carolina Clarkson não aceitou logo de cara a sua condição. A infância e adolescência foram marcadas por bullying, opiniões de estranhos sobre sua pele e vergonha. Para sair de casa, ela fazia questão de esconder suas manchinhas com muita maquiagem e roupas compridas. “A princípio, eu escondia porque as pessoas me abordavam e era bem desconfortável, mas com o tempo eu percebi que não escondia o vitiligo das pessoas, somente, mas também de mim mesmo. Eu não queria enfrentar e olhar para as mudanças no meu corpo”, divide ela. Foi preciso paciência e muito amor para que o processo de aceitação acontecesse e Carol finalmente se amasse. Hoje, ela exibe sua beleza e faz sucesso em revistas, catálogos e passarelas, sempre com muito orgulho.

Demorou um pouco até Carol e seus pais escutarem as palavras: “Você tem vitiligo”. Depois de uma professora do ensino fundamental perceber uma mancha em seu pescoço, em 2007, a menina e os pais visitaram três dermatologistas diferentes para encontrar a resposta. “O primeiro diagnóstico foi alergia, que eu até cheguei a fazer tratamento”, conta.

A característica mais marcante do vitiligo é a despigmentação da pele na forma de manchinhas brancas, que começaram a se espalhar pelo corpo de Carol aos 12 anos. A solução encontrada por ela foi se esconder e nunca sair de casa sem maquiagem, roupas fechadas ou cabelo solto. “Eu sempre tive um monte de problemas com a minha pele, nunca aceitei muito bem. Lembro que, nas poucas vezes em que eu tirava a maquiagem, mal conseguia me olhar no espelho. Foi um processo muito difícil.”

Durante uma viagem aos Estados Unidos, ela decidiu se libertar. “Como não conhecia ninguém, eu me desgrudei da maquiagem. E, no primeiro dia em que estava de cara limpa depois de anos e anos sem sair assim, um moço me entregou um buquê de flores dizendo que ‘mulheres bonitas merecem flores bonitas’. E eu aceitei isso como uma mensagem do universo de que estava no caminho certo”, lembra. 

A partir disso, Carol começou a mostrar mais sua pele, decisão que foi muito apoiada pelos colegas, em especial pela amiga e fotógrafa Yasmin Oliveira. “Foi com ela que eu realmente comecei a gostar do meu vitiligo. Tinha 17 anos na época”, revela.

As fotos eram publicadas no Instagram, despretensiosamente. Mas, por intermédio delas, alguns fotógrafos passaram a chamar Carol para trabalhos.

“Eu nunca tive essa pretensão. Talvez lá no fundo essa vontade tenha batido, mas a gente, que é fora do padrão, nunca acha que terá a oportunidade, realmente eu pensava que não era para mim. Mas, aconteceu”, celebra ela que, hoje coleciona diversos trabalhos em revistas nacionais e internacionais e até desfiles nas passarelas do São Paulo Fashion Week

Representatividade e autoestima

Mulher gorda, preta e com vitiligo, como ela mesma se descreve, Carol passou a servir de inspiração, depois de tanto tempo tendo de lidar com os seus problemas com a autoestima e amor-próprio. “Vai além de mim, sabe? A minha vivência não é só a minha. É realmente um movimento em conjunto e é muito forte, muito bonito”, divide.

Uma de suas fãs é a sua mãe, que passou a olhar para si mesma de maneira diferente por influência da filha. “Só de ver minha mãe se aceitando com mais amor, de ela se vendo bonita sem alisar o cabelo, sem emagrecer. Isso é muito significante para mim”, afirma. 

Agora, Carol vive outro processo de aceitação com as novas mudanças do corpo, afinal, as manchinhas podem, em alguns casos, variar de tamanho ou até desaparecer/aparecer pelo corpo em situações de estresse e exposição ao sol excessiva. Acontece que ela tem vitiligo simétrico, indicando que sempre que aparece uma mancha de um lado, aparecerá no outro também. “Fico ansiosa esperando do outro lado. O negócio é quando elas estão desaparecendo”, diz. 

Entre se esconder e se exibir, Carol entendeu que conviver com o vitiligo mudou sua vida nos mínimos detalhes, incluindo a própria personalidade. “Quando olho para mim, para minha trajetória, eu me olho com muito carinho. Queria poder abraçar aquela menina de 9 anos que se escondia, ela fez o que pôde e eu tenho muito orgulho dela. Se no começo eu entendesse e aceitasse, minha vida talvez tivesse sido mais fácil, sim, mas pode ser que eu não tivesse aprendido tanta coisa que aprendi e que vai muito além disso”, conclui ela apontando para a pele.

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