Alex Silva / Estadão
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Covid desacelerada em SP reduz 'pânico' em hospitais, mas médicos já lidam com nova demanda

Pacientes de outras doenças, muitos após adiar tratamentos e cirurgias, começam a voltar aos hospitais; médicos falam em cansaço e exaustão

João Prata, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2020 | 20h40

Passadas a incerteza e a falta de informação iniciais da pandemia, médicos relatam que o momento na cidade de São Paulo é de maior segurança para tratar infectados, mas também de cansaço e exaustão por estarem há cinco meses no combate de um surto que não se sabe exatamente quando irá acabar. Além disso, agora eles têm de lidar com uma nova demanda: de pacientes de outras doenças, muitos após adiar tratamentos e cirurgias, que começam a voltar aos hospitais. 

“No começo, a sensação era de pânico mesmo. Agora é desgaste físico, emocional”, diz o infectologista Pedro Campana, que trabalha na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Emílio Ribas e na enfermaria do Hospital Santa Casa de Misericórdia. “Em março e abril, foi muito trabalho para montar o fluxo de atendimento. Era muito estresse por ter de enfrentar uma doença que não se conhecia muito. Faltavam profissionais. Foi muito desgastante.”

Nos meses seguintes, houve a contratação de profissionais de saúde em muitos centros de atendimento, a capital paulista montou quatro hospitais de campanha (Pacaembu, Anhembi, Ibirapuera e Heliópolis) e o medo inicial de que poderia faltar leitos e ventiladores não se concretizou. As redes pública e particular de saúde foram pressionadas, mas não entraram em colapso. Ontem, a taxa de ocupação dos leitos de UTI na capital chegou à média geral de 57,8%, enquanto todas as regiões do Estado estão abaixo dos 80%, os menores índices desde o começo da pandemia. 

Reflexo da queda desses números é que a tenda montada na Santa Casa para fazer o atendimento inicial de pacientes sintomáticos respiratórios foi desmontada há duas semanas. “O fluxo diminuiu claramente. Antes, tinha 30 a 40 pacientes na enfermaria. Agora está entre 10 e 20”, conta Campana. O Hospital do Pacaembu foi fechado e a Prefeitura já desativou parte dos leitos no Anhembi. 

Isso não significa que os problemas acabaram. “Nosso desafio agora é não entrar em burnout (esgotamento físico e mental ligado à vida profissional)”, diz o médico. Pesquisa com 1.257 profissionais de saúde da China, de março, mostrou que 71,5% relataram angústia e metade disse ter sintomas de depressão. No Brasil, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) vai estudar esse fenômeno. 

Após adiarem cirurgias, pacientes chegam com quadro mais crítico

O infectologista Natanael Adiwardana atende em dois hospitais privados e em um público da capital. A rotina segue corrida, com poucas mudanças de março para agora. Ele contou que a diminuição dos casos de covid-19 tem sido substituída pelo aumento da demanda que havia sido reprimida nos primeiros meses de pandemia.

“Cirurgias eletivas que foram desmarcadas, por exemplo. Coisas que não eram urgentes estão voltando. E de forma mais agravada”, afirma. “Demandas que sumiram no auge da pandemia, como diabete e pressão alta, aparecem um pouco mais descompensadas”, ressalta. 

Os hospitais estão tendo de se readaptar às mudanças. Os protocolos de controle da pandemia continuam existindo, mas o gerenciamento tem sido alterado. “Se antes em um hospital a proporção era de oito alas de UTI de covid para um para outros pacientes. Agora já é de sete para dois, seis para três”, diz Adiwardana. 

Segundo Campana, a recomendação de evitar a ida aos hospitais durante a quarentena teve reflexo para alguns grupos – como os pacientes de HIV, uma vez que os serviços hospitalares voltados para eles foram usados por pacientes de covid – e elevar casos de outras doenças, como tuberculose. 

A melhor compreensão sobre o coronavírus também traz alertas. A capital ter chegado a um platô no número de casos é óbitos não é sinal de que a pandemia está próxima do fim. “É cruel, porque agora existe um determinante social bem definido. A doença vai ficar mais concentrada em quem utiliza o transporte público, nos bairros periféricos. A tendência é que o SUS fique mais cheio do que os hospitais particulares. Para quem é mais abastado, tem aquela parte descolada que acha que acabou, que quer consumir, ir a restaurante, frequentar o bar. Mas ignoram quem é que trabalha nesses lugares. O problema ainda é complexo”, diz Campana.


 

Obstetra não vê redução de procura, mas já consegue acalmar mães

Obstetra no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), Sckarlet Ernandes Biancolin ainda não percebeu diminuição no caso de mães com o novo coronavírus. A principal mudança na sua rotina está relacionada ao conhecimento sobre a doença. Ela conta que, especialmente no início da pandemia, as mães chegavam preocupadíssimas, queriam saber se o filho iria nascer com a covid-19 e também se a criança poderia ficar com alguma sequela.

As perguntas continuam, mas agora é possível tranquilizá-las. "Ficamos contentes porque não saiu nenhum estudo até agora que associe a covid com má formação (em fetos). Existe o risco de transmissão, mas já há estudos que provam que se os protocolos de higiene forem adotados, o filho não pegará". 

Pesquisa publicada na revista médica The Lancet em julho mostrou que as mães podem compartilhar os quartos com seus recém-nascidos e amamentar normalmente. Por precaução, os berços precisam estar a 1,8 metro de distância das mulheres. Elas também precisam estar de máscara e higienizar os seios e as mãos antes de amamentar.

Por outro lado, o elevado número de grávidas que morreram por causa da covid-19 no Brasil preocupa. Das 160 mortes de gestantes com o coronavírus registradas entre o início da epidemia e 18 de junho, 124 ocorreram no Brasil, de acordo com estudo publicado no International Journal of Gynecology and Obstetrics, assinado por cientistas de cinco universidades brasileiras.

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