Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Desafio desconectado: 4 adolescentes ficam um dia usando o celular o mínimo possível

Proposta gerou reflexões sobre uso do aparelho em todos os participantes

Igor Macário e Julia Correa, O Estado de S. Paulo

13 de outubro de 2019 | 20h35

SÃO PAULO - Convidamos quatro adolescentes, com idades entre 13 e 17 anos, para um desafio. Tentar passar um dia inteiro sem usar o telefone celular é uma tarefa e tanto para quem praticamente nasceu com um aparelho nas mãos. Ainda assim, o desafio foi bem aceito e gerou reflexões em todos os participantes.

Em todos os casos, as escolas controlam o uso do telefone durante as aulas, o que ajuda a manter os adolescentes longe das distrações tecnológicas por algumas horas no dia. Unânime foi o uso do tempo livre para atividades "desconectadas", como leitura, cuidados com a casa e até uma aproximação maior com a família. 

Tempo livre

João, de 15 anos, alega ter colegas da mesma idade muito mais conectados do que ele, mas, ao avaliar o seu próprio comportamento, admite sofrer, de algum modo, com o vício. Contudo, considera a tecnologia uma verdadeira aliada. "Eu moro longe de um grupo de amigos, então conversamos quase todo dia pelo Discord", referindo-se ao aplicativo de games pelo qual os usuários podem conversar enquanto jogam. "O problema é que, quando conseguimos nos encontrar, muitas vezes fico mais no celular trocando memes do que, de fato, conversando".

Quando desafiado a passar um dia sem acessar nenhuma ferramenta, ele comentou que seria bom para se concentrar melhor, uma vez que teria de concluir muitos trabalhos para o dia seguinte. Ao mesmo tempo, o desafio o atrapalharia por impossibilitar a consulta de certos conteúdos. Por fim, ainda perguntou, preocupado, se o desafio incluía instrumentos musicais. Afinal, não queria ficar sem o seu baixo, que foi "liberado" pela reportagem.

Sua irmã, Maria Eduarda, de 13 anos, relata usar o celular cerca de cinco horas por dia. Quando está com o aparelho na mão, acessa aplicativos como WhatsApp, YouTube, Netflix, além de algumas opções de jogos. Mas também alega usar o dispositivo para tratar de assuntos relacionados à escola. 

Controle parental

A jovem conta já ter tentado usar o celular escondido da mãe, mas, rindo, desabafa: "ela sempre descobre". É que os pais estabeleceram horários fixos durante os quais o aparelho é permitido. Maria Eduarda pode navegar por seus sites e aplicativos favoritos no fim da manhã — durante o intervalo entre a saída da escola e o almoço — e após as 18h30. Isso porque o turno da tarde fica reservado às lições de casa e a atividades complementares, como o balé, a aula de música e o inglês. 

Os próprios pais parecem reconhecer o fato que a tecnologia se tornou ferramenta indispensável. Quando a reportagem entrou em contato com Flavia, mãe de Maria Eduarda e João, para saber se autorizaria os filhos a participar do desafio, ela logo brincou: "Até eu teria de experimentar ser mãe sem apoio tecnológico". No dia a dia, os aplicativos de mensagem são aliados no controle da rotina e para avisos em geral. 

Ao ser desafiada, Maria Eduarda logo aceitou, mas avisou que, antes de dispensar o celular por um dia, teria de falar com as colegas de inglês: "eu precisei faltar na terça-feira passada, então tenho de pedir que elas me passem a lição de casa". 

Quando, finalmente, as 24 horas sem tecnologia passaram, João contou ter "sobrevivido" bem. "Foi mais fácil do que eu imaginava", avalia ele, sem deixar de relatar as dificuldades, que se deram, principalmente, nos momentos de ócio. "Quando cheguei em casa, à noite, não pude ligar a TV ou ver qualquer vídeo no YouTube; fiquei um pouco perdido, paralisado". Na falta de uma distração, pediu que a mãe lhe fizesse companhia durante o jantar. A ausência de tecnologia também o fez recorrer a uma prática quase ultrapassada em sua rotina de estudos: a consulta de um dicionário, no lugar da pesquisa imediata dos buscadores virtuais. 

Família unida

"Confesso que foi uma experiência curiosa para todos nós. Até recado para os avós eu tive que passar, para avisar que os netos não responderam mensagens, mas que não era por falta de amor ou consideração", relatou Flavia. A mãe conta que também precisou conferir a previsão do tempo para que os filhos separassem a roupa da escola. Além disso, se divertiu ao vê-los checar os relógios analógicos da casa, normalmente ignorados. Na falta do despertador do celular, os irmãos precisaram contar com a ajuda da mãe para acordá-los. 

Assim como o irmão, Maria Eduarda conta ter percebido sua dependência em relação à tecnologia, principalmente nos momentos em que não tinha nenhuma obrigação para cumprir. "Eu já tinha terminado todas as lições da semana, então senti falta de pode usar o celular ou ver TV". A vantagem, segundo ela, foi que o sono chegou mais rápido do que o usual. "Às 19h30, eu costumo ter muito mais energia, mas, sem poder usar nada, logo tive vontade de dormir, e ainda acordei bem descansada". Ela relata ainda que suas colegas ficaram curiosas, querendo participar também do desafio. De fato, ficar sem tecnologia é uma experiência cada vez mais curiosa. Com o celular novamente por perto, Maria Eduarda, aliviada, ficou feliz por finalmente poder consultar os passos de uma coreografia nova que tem para treinar.

Notícias importantes

O adolescente Guilherme Ponciano, de 17 anos, também topou o desafio de tentar se desconectar do telefone ao longo do dia. O jovem assumiu ser difícil se desligar do telefone celular por muito tempo. "Fico achando que tem alguma notícia ou mensagem importante", conta Guilherme. 

Segundo o adolescente, o máximo de tempo possível sem lembrar do celular são cerca de 40 minutos. "Tenho que fazer alguma outra coisa para me distrair e não ficar pensando no telefone toda hora". Guilherme relata que recorre aos estudos e à leitura para evitar excessos na frente do celular. "Aproveito para ler alguma coisa, principalmente relacionada à escola", explica o jovem. "Também arrumo algumas coisas minhas, que acabam ficando jogadas pela casa".

Durante o horário das aulas, a escola de Guilherme proíbe que os alunos usem o telefone, o que já ajuda a desconectar um pouco. "Só podemos usá-lo quando os professores pedem para pesquisarmos alguma coisa específica", explica o jovem.

Ainda assim, o tempo longe do telefone tem limite. Após cerca de uma hora e meia longe do aparelho, Guilherme acabou buscando-o para verificar mensagens e redes sociais. Instagram e WhatsApp foram os aplicativos que mais fizeram falta nos períodos longe do aparelho.

Já a estudante Isabela Cipriano, de 14 anos, reduziu bastante o uso do aparelho durante o desafio. "O controle de uso marcou apenas três horas ao longo do dia todo, metade do que uso normalmente", afirmou a jovem. Segundo Isabela, a tarefa de se distanciar do aparelho não foi das mais difíceis. 

Como a de Guilherme, a escola de Isabela também controla o uso do celular durante as aulas. "Como também faço cursinho a tarde, ficou mais fácil ficar mais longe do telefone do que o normal", conta. Para Isabela, a falta mais sentida foi do WhatsApp.

Em casa, a família controla o uso do aparelho conforme a intensidade. "Se meus pais acharem que está me atrapalhando de alguma forma, controlam o tempo", explica a menina.

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