MARCIO FERNANDES/AE
MARCIO FERNANDES/AE

Desafio diário do profissional que tem que cuidar da própria saúde

Conheça os profissionais da área da saúde que têm ou já tiveram problemas parecidos com os de seus pacientes

Mariana Lenharo, Jornal da Tarde

16 Agosto 2011 | 10h28

SÃO PAULO - O fato de não enxergar ajuda o fisioterapeuta Tomas Yoshio Makiyama, de 40 anos, a perceber os desvios mais sutis no alinhamento corporal de seus clientes. "Não ter a visão me capacita para o que faço porque tenho uma precisão e uma sensibilidade maior."

 

Makiyama é um dos poucos brasileiros especializados no método Rolfing, que prevê o realinhamento do corpo por meio de uma espécie de massagem nos tecidos que envolvem os músculos e os tendões. É também um profissional que atua na área da saúde com limitações, mas sem dificuldades.

 

Além dele, o JT acompanhou um pouco do trabalho da portadora de hidrocefalia Jocastra Hanna Jesus Oliveira, que trabalha no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp); conheceu a assistente social Célia Roseli Duarte Redo, do Hospital das Clínicas, que se decidiu pela profissão após ficar 40 dias internada no local (leia mais abaixo); e ouviu também o relato de Neide Bratan (depoimento nesta página), instrumentadora cirúrgica do Hospital São Luiz que já teve leucemia.

 

Nenhum deles se conhece, mas têm em comum o desafio diário de lidar com problemas direta ou indiretamente relacionados à própria saúde. E isso não atrapalha. Pelo contrário: as limitações transformam-se em habilidades especiais e em vontade de fazer o melhor pelos pacientes.

 

Desde os três meses de idade, Makiyama sofre de glaucoma congênito (o líquido presente no interior do olho é impedido de ser drenado adequadamente). Depois de passar por várias cirurgias, ele perdeu parte da visão aos 14 anos. Cinco anos mais tarde, quando estudava para o vestibular de fisioterapia, já não conseguia mais enxergar. Quando começou o curso, na Universidade de São Paulo (USP), ouviu de alguns professores que, por ele ser cego, aquela não era a profissão para ele.

 

"Andando ao lado de uma pessoa, consigo identificar seu padrão de marcha, saber se ela está usando mais a musculatura da direita ou da esquerda, se ela tem algum mecanismo de compensação", diz ele, acrescentando que sua sensibilidade apurada já lhe rendeu o apelido de ‘bruxo’.

 

Seus pacientes, muitos também profissionais da saúde, relatam que o tratamento que ele oferece promove um aumento da consciência corporal, uma melhora nas dores e até uma alteração na conduta emocional. "Tenho uma paciente que vivia em uma ansiedade tremenda. Depois do tratamento, ficou mais organizada não só corporalmente, mas também no trabalho", conta.

 

Ponto a favor

 

A jovem Jocastra, de 21 anos, descobriu que tinha hidrocefalia aos 15. Diferentemente da maioria dos casos, ela não nasceu com a doença, mas a adquiriu depois de um acidente em que sofreu uma pancada na cabeça. A condição caracteriza-se pelo acúmulo de líquido na cavidade craniana. "Tinha muita dor de cabeça, vômito e desmaios. Ia sempre em pronto socorros e eles sempre falavam que era virose. Fiquei até com problema nas veias de tanto que aplicavam soro", relata.

 

Quando, finalmente, foi diagnosticada, ela precisou receber uma válvula na cabeça que tem a função de direcionar o excesso de líquido para a cavidade abdominal. Decidida, voltou a estudar um mês depois de passar pela segunda cirurgia.

 

Há dois anos ela trabalha como auxiliar administrativa no Icesp. "Quando participei da seleção, perguntei se a doença seria um empecilho. O gerente disse que isso era um ponto a mais a meu favor, que eu saberia atender melhor um paciente justamente por ter essa experiência."

 

Jocastra cursa administração hospitalar e nem pensa em deixar a área da saúde. "Sinto que faço um bom trabalho. Consigo saber o que o outro está sentindo porque já vivi situações parecidas. Quero devolver o bom atendimento que recebi.

 

‘A doença não pode me derrubar’

 

 
A assistente social Célia Roseli Duarte Redo, do Hospital das Clínicas, tem uma doença rara e sem cura. "Como dizia um querido médico que me atendeu, Crohn não mata, mas judia muito", relembra, bem-humorada, apesar de ter diarreias constantes e dores.

 

O problema de saúde de Célia, hoje com 53 anos, provoca inflamações crônicas no intestino desde que ela tinha 22 anos. Na época, cursava Direito e morava no Rio de Janeiro. Como a doença era rara, os médicos recomendaram que ela fizesse o tratamento no Hospital das Clínicas de São Paulo. Durante sua longa internação em que recebeu os primeiros cuidados, percebeu que muitos pacientes ficavam perdidos e cheios de dúvidas não esclarecidas. "Comecei a orientar as senhorinhas sobre os exames que elas precisavam fazer. Decidi que queria largar a faculdade de Direito e fazer Serviço Social."

 

Além de tomar medicamentos, ela já passou por cirurgias, mas o problema persiste. "Tenho diarreia direto, a gente acaba se sujando em público. Isso já aconteceu comigo no shopping, no trabalho... Mas nada me derruba. Volto para casa, troco de roupa e volto a trabalhar", diz, sorridente.

 

É sempre com simpatia que Célia atende os pacientes do setor de hematologia do Hospital das Clínicas. "Acabo passando minha experiência pessoal para o familiar ou para o próprio paciente. Saio realizada do trabalho por poder ensinar as pessoas a abrir seus próprios caminhos."

 

DEPOIMENTO: "A doença mudou minha vida. Hoje prezo pela qualidade de vida e aprendi a valorizar as pessoas"

 

Em 2007, fui até o pronto-socorro do hospital em que trabalho, o São Luiz. Sentia muita dor de cabeça e suspeitava que sofria de enxaqueca. Mas como a dor não passava, o plantonista que me atendeu resolveu fazer um exame de sangue. Dias depois, os médicos pediram para eu refazê-lo.

 

 
Eu descobri que tinha leucemia assim, por acaso, de surpresa. No mesmo dia em que fui internada, resisti à ideia de estar doente. Não me sentia doente. Queria uma comprovação. Só me conformei e acreditei que estava com leucemia quando vi o resultado do segundo exame.

 

Logo após o diagnóstico, comecei as sessões de quimioterapia. Em três dias perdi todo o meu cabelo. Mas isso não foi o pior. Difícil mesmo foi aceitar que naquele momento eu era a paciente e estava lá para ser ajudada e não ajudar. Tinha medo, por exemplo, de ser contaminada por um cateter. Quando você não tem a consciência do que uma contaminação pode trazer, fica mais sossegado. Mas, sabendo dos riscos, é muito mais difícil.

 

As pessoas me davam banho, escovavam meus dentes. É uma invasão total de privacidade. Passei seis meses internada, sendo 28 dias na UTI com um quadro de septicemia. Entrava em pânico quando pensava estatisticamente em quantas pessoas saíam daquela situação. Mesmo assim, consegui administrar o medo e consegui resistir. Estou há três anos em remissão e ainda faço acompanhamento periódico.

 

A doença mudou minha vida. Hoje prezo pela qualidade de vida e, no meu trabalho, aprendi a ver tudo de forma diferente. Evito fazer os atendimentos aos pacientes de maneira mecânica. Também procuro ver o lado humano dos meus colegas. Além disso, faço palestras em ONGs de pacientes com leucemia. Aprendi a valorizar as pessoas.

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