Desafio para nativos digitais

O que jovens chineses frequentando clínicas de recuperação, garotos japoneses “trancados” em casa há anos e universitários americanos que pioraram seu desempenho acadêmico têm em comum?

Jairo Bouer, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2015 | 03h00

A resposta: dificuldade em lidar com as novas tecnologias e limitar seu uso. O fenômeno é mundial, e os mais novos (conhecidos como “nativos digitais”, que já nasceram na era da internet) são os que mais sofrem.

Artigo do jornal The New York Times da última semana mostra que adolescentes chineses que não conseguem desgrudar dos jogos online estão frequentando, cada vez mais, clínicas de recuperação para “dependentes digitais”, nas quais ficam afastados do contato com qualquer mídia eletrônica por alguns meses. 

Ainda segundo a reportagem, dados da Academia Americana de Pediatria mostram que as crianças têm passado oito horas por dia na frente de telas de TV, computadores, tablets e celulares. Os pais estão adotando desde cedo a estratégia de usar mídias para tentar distrair e relaxar as crianças. Quando elas crescem, os resultados podem ser preocupantes. Uma quase “epidemia” de mensagens de texto faz com que metade dos adolescentes americanos mande hoje, em média, 50 mensagens por dia. Na faixa entre 13 e 17 anos, esse número salta para 112 mensagens por dia. Haja o que “falar”!

Já o jornal Daily Mail noticiou um fenômeno recente, conhecido como Hikikomori, que atinge quase um milhão de homens jovens no Japão. 

Os jovens se isolam em seu quarto e passam o dia acessando a internet e lendo mangás, evitando contato com outras pessoas. A condição é mais comum em jovens de classe média, e o isolamento seria uma resposta à pressão que esse jovem enfrenta para entrar nas melhores universidades. 

Dificuldade nas relações interpessoais e abuso de games, internet e redes sociais também estão na natureza do problema. Apesar de características próprias da cultura japonesa, que podem aumentar o risco de Hikikomori, não é difícil imaginar algum grau de retração social em uma parte crescente dos jovens do hemisfério ocidental, em parte em função do excesso de uso das tecnologias disponíveis. 

O Daily Mail traz outro estudo curioso, que mostra que universitários americanos que ganharam um smartphone como ferramenta adicional para melhorar seu desempenho acadêmico acabaram usando o acessório muito mais para participar de redes sociais e ouvir música. Como resultado, tiveram piora nas notas. 

A hipótese de que eles usariam a tecnologia para buscar informações, participar de grupos de discussão e procurar tutoriais para seus cursos não se provou verdadeira. O trabalho foi feito pela Universidade Rice, nos EUA, e publicado no periódico British Journal of Educational Psychology.

No Brasil, a situação não é distinta. As pesquisas mais recentes mostram uso crescente de tecnologias pelos mais jovens. O celular passou a ser um grande aglutinador de redes sociais, checagem de informações, visualização de vídeos e busca de músicas, entre outros fins. É a mídia “da hora”.

O uso pesado de tecnologia está tendo impacto na saúde, no comportamento, no desempenho escolar e nas interações sociais e afetivas dos jovens. Já que boa parte de nossas escolas vive de estratégias de aprendizagem usadas há décadas, com dificuldade crescente da retenção da atenção dos alunos, que tal incorporar mais as novas tecnologias ao ensino, para que o jovem perceba a função educativa que elas podem ter? E mais, que tal discutir impactos e importância de limites de uso dessas mídias para que se reduzam os riscos e problemas que temos visto?

* É PSIQUIATRA

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