Descoberta de gene mostra que neandertais podem ter falado

Mutação envolvida na capacidade humana para a linguagem estava presente nesse primo extinto do homem

Michael Kahn, da Reuters,

18 de outubro de 2007 | 19h24

Os neandertais, freqüentemente mostrados como brutos incivilizados que só davam uns grunhidos, podem ter sido capazes de falar de forma sofisticada, disseram pesquisadores na quinta-feira.   Uma análise de DNA mostrou que os homens de neandertal têm em comum com os seres humanos duas mudanças essenciais no gene FOXP2, envolvido na fala, o que suscita a possibilidade de que a espécie tivesse alguns dos pré-requisitos para a linguagem, afirmaram os pesquisadores.   "Do ponto de vista desse gene, pelo menos, os neandertais podem ter tido linguagem como nós", disse Johannes Krause, bioquímico do Instituto Max Planck, em Leipzig, que comandou o estudo. Mas muitos genes ainda desconhecidos podem estar por trás da habilidade para a linguagem, acrescentaram os cientistas.   O FOXP2 produz uma proteína que liga e desliga outros genes, e as pessoas que possuem uma cópia defeituosa do gene apresentam problemas de fala e de linguagem. Vários animais, de camundongos a orangotangos, possuem o gene, e os cientistas acreditavam que uma mudança relativamente pequena no FOXP2 tenha acontecido junto com o surgimento dos seres humanos, menos de 200 mil anos atrás.   A descoberta publicada na Current Biology sugere que a variação genética tenha ocorrido muito antes, talvez até 400 mil anos atrás.   "Ficamos surpresos de encontrar a mesma variante do gene FOXP2 que os humanos possuem", disse Krause. "Isso sugere que o último ancestral comum entre os neandertais e os seres humanos tivesse esse gene."   Os neandertais são uma ramificação da linhagem humana que acabou extinta. Eles habitavam a Europa e partes da Ásia ocidental e central. As pesquisas indicam que eram bons fabricantes de ferramentas, usavam peles animais para se manter aquecidos e cuidavam uns dos outros.   A maioria dos pesquisadores acredita que os neandertais sobreviveram na Europa até a chegada dos seres humanos modernos, há cerca de 30 mil anos, embora descobertas polêmicas no ano passado tenham sugerido que eles possam ter sobrevivido até 24 mil anos atrás.   No estudo atual, os pesquisadores extraíram DNA de uma amostra de restos mortais de homens de neandertal recentemente escavados no norte da Espanha.   Como os ossos estavam muito bem preservados, os cientistas conseguiram também obter DNA nuclear das amostras, abrindo caminho para uma compreensão mais completa da evolução humana e neandertal, disse Krause. "Agora podemos estudar todos os genes neandertais em que estivermos interessados."

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