Tiago Queiroz/Estadão - 29/12/21
Pacientes esperam para serem atendidos na Assistência Médica Ambulatorial de Especialidades (Amae) Santa Cecília Tiago Queiroz/Estadão - 29/12/21

Desfalque de médicos leva a ameaça de greve em SP e adiamento de cirurgia no Rio

Profissionais da saúde paulistana alegam sobrecarga com afastamento de colegas pela covid; Prefeitura diz já ter autorizado contratações para repor

Roberta Jansen, Ítalo Lo Re e Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2022 | 05h00

Embora a variante Ômicron cause um número menor de casos graves da covid-19, a velocidade de contágio tem lotado postos de saúde e hospitais pelo Brasil. São mais pacientes e menos médicos – estes, afastados pela doença. Sob o argumento de desfalques nas equipes e sobrecarga de trabalho, médicos da rede municipal de São Paulo aprovaram na sexta-feira paralisação, marcada para o dia 19. Em outros Estados, como Rio e Ceará, os efeitos no sistema de saúde já levam à suspensão de cirurgias eletivas (não urgentes).

Os médicos da rede paulistana deram até segunda para a Prefeitura apresentar plano de reposição dos funcionários, com a possibilidade de reavaliar se cruzam mesmo os braços. Eles ainda reivindicam o fim da obrigação de trabalhar em fins de semana e feriados.

“Não adianta pegar uma unidade que devia ter dez médicos e fazer dois médicos atenderem continuamente. Precisa, para além dos dois médicos, contratar a equipe completa”, diz Victor Dourado, presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp). Segundo a entidade, equipes de ao menos 50 unidades básicas de saúde (UBSs) visitadas relataram desfalques nas últimas semanas.

Segundo ele, a cobrança por mais profissionais é feita desde 2021, mas aumentou nas últimas semanas. Dos cerca de 94,7 mil profissionais da rede de saúde da cidade, 3.193 (3%) estavam afastados na quinta-feira por sintomas gripais. Conforme o Simesp, quase 150 profissionais participaram da assembleia que aprovou a paralisação.

Secretário-adjunto de Saúde da Prefeitura de São Paulo, Luiz Carlos Zamarco disse ao Estadão que considera uma “irresponsabilidade” fazer “greve no meio da pandemia”. O município, segundo ele, avalia acionar o Ministério Público contra a paralisação.

A pasta diz ter contratado 280 novos profissionais e autorizado as Organizações Sociais de Saúde (OSSs) a contratarem mais médicos e enfermeiros. Ainda de acordo com a secretaria, houve “pagamento de 50% do banco de horas extras”, além das horas extras na folha mensal.

O Sindicato das Santas Casas de Misericórdia e Hospitais Filantrópicos do Estado informou ter enviado três contrapropostas à categoria, mas sem acordo. O Sindicato dos Enfermeiros do Estado diz ser “solidário” ao movimento e prevê assembleia dia 19.

PRESSÃO

Diante da alta de casos, o Estado do Rio suspendeu, por 30 dias, cirurgias não urgentes a partir da próxima semana. Segundo o governo, 20% dos profissionais da saúde estão afastados. A medida visa também a proteger pacientes de possível infecção.

Em Fortaleza, unidades de saúde já superaram a média diária de atendimentos do pico da 2.ª onda, com 2,7 mil pacientes diários. Guarujá e São Vicente, na Baixada Santista de São Paulo, também cancelaram procedimentos.

“Se o sistema hospitalar entrar em colapso, tanto na rede privada quanto na pública, óbitos evitáveis poderão ocorrer pela não garantia de acesso à internação”, alertou o Conselho de Secretários Estaduais de Saúde (Conass) em documento ao Ministério da Saúde nesta semana.

Cancelamento de férias e remanejamento de equipes estão entre outras das medidas adotadas. “Felizmente, não temos funcionário de saúde em estado grave, estão todos vacinados com 3.ª dose. Mas um afastamento de sete dias impacta muito no nosso funcionamento”, diz o secretário municipal de Saúde do Rio, Daniel Soranz.

Na rede privada, a Ômicron também pressiona. “As pessoas ficam três, quatro horas na fila para pegar pedido de exame, porque precisam de atestado. Se tivéssemos campanha de orientação, um sistema de testagem, estaríamos evitando muito sofrimento”, conta uma médica de um hospital privado carioca, que pediu anonimato.

Diretor executivo da Associação Nacional dos Hospitais Privados (Anahp), Antonio Britto pede que só quem tiver sintomas mais graves vá ao hospital, para não sobrecarregar as emergências. “O problema agora é a capacidade de atendimento dos hospitais, diante da demanda que está crescendo de forma absurda nos últimos dias”, afirma ele. / COLABORARAM MARCIO DOLZAN E JOSÉ MARIA TOMAZELA

Depoimento da médica T.J.M. à repórter Roberta Jansen

 “A grande diferença em relação às outras variantes é o impacto nas internações. Desta vez, temos menos internações. Mas temos um número nunca visto antes de pessoas com poucos sintomas procurando a emergência. Muita fila, muita gente. A esmagadora maioria das pessoas vem à procura do teste e de orientação. A impressão que eu tenho é que a população está procurando a emergência porque não consegue informação, não consegue fazer exames, não há orientação sobre como se comportar. A rede pública não dá vazão para o volume de pessoas e nunca houve uma política pública de testagem em massa.

“Nenhuma dessas pessoas na fila da emergência está sendo testada para covid. Elas ficam três, quatro horas na fila para pegar um pedido de exame, porque precisam de um atestado. Se tivéssemos uma campanha de informação, de orientação, se tivéssemos um sistema de testagem, estaríamos evitando muito sofrimento. Mas como não tem nada disso, elas vêm para a emergência, que não é feita pra isso.

“A falta de teste diagnóstico é um risco real. Tanto que, aqui no hospital, estamos reservando os testes para os pacientes que vão internar. No caso de uma internação, é muito importante saber se o paciente é positivo ou não para saber se ele precisa ficar em uma ala de isolamento. Isso é fundamental para mitigar o impacto da infecção e postergar a abertura de novas alas covid. Essa política de testagem se estende também para pacientes de alto risco, que vão ficar mais de 24 horas no hospital ou vão passar por cirurgias extensas.

 “Não estamos conseguindo remanejar profissionais de saúde para a emergência porque o hospital continua cheio. O centro cirúrgico está funcionando, estamos com os andares cheios de pacientes não covid. Então não dá pra remanejar. Ainda não estamos adiando as eletivas, mas isso pode ocorrer em algum momento. Já se falou também em suspender as férias dos funcionários, mas esse seria um último recurso. Estamos há três anos nesse ritmo intenso de trabalho.

“Para piorar, estamos com muitos profissionais afastados por covid, de 15% a 20% do total. Nossa força de trabalho está bem reduzida. Os que estão aqui já estão trabalhando muito mais.

“Outra coisa diferente desta vez é que as pessoas já estão muito cansadas do rigor no isolamento, houve um relaxamento. Estamos vivendo um momento de alta transmissibilidade, e as pessoas demoraram a entender que era preciso voltar à política de distanciamento, de restrição de circulação. A mesma dificuldade que estamos vendo na sociedade em geral, estamos vendo dentro do hospital.”

T.J.M. é médica da emergência de um importante hospital privado do Rio de Janeiro

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'O vírus da covid-19 não é bobo', diz especialista

Apesar de considerar que há mais preparo para enfrentar a Ômicron, médica adverte que novas variantes poderão surgir enquanto houver continentes inteiros sem cobertura vacinal

Entrevista com

Ana Maria Malik

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2022 | 05h00

RIO - Médica e especialista em gestão de saúde, Ana Maria Malik, coordenadora do FGV-Saúde, está otimista. Ela reconhece a gravidade da onda de Ômicron e o impacto que ela provoca no sistema de saúde. Acredita, porém, que, além de vacinados, estamos mais bem preparados para enfrentar a nova variante do coronavírus.

"Estamos vivendo essa onda com pelo menos algum know-how prévio sobre como enfrentar uma crise sanitária dessas proporções", afirmou, em entrevista ao Estadão.

Ana Maria acha que é momento de revermos algumas estratégias para a redução da disseminação do vírus. "Escola para criança é importante; jogo de futebol, não", exemplificou. A especialista alerta ainda que a chance do surgimento de novas variantes seguirá alta enquanto a vacinação não estiver disponível em todos os países. "O vírus não é bobo", diz.

Quais são as principais diferenças entre as ondas de variantes anteriores e a atual, de Ômicron?

São duas grandes diferenças. Agora, a população está vacinada. Não toda, mas muita gente. E agora os médicos já sabem o que fazer com os pacientes de covid-19.

No ano passado vimos o colapso do sistema de saúde em vários lugares. A senhora acha que isso pode se repetir?

O colapso, o caos que vimos em ondas anteriores, foi decorrente do fato de que houve muita necessidade de terapia intensiva. Dessa vez, embora haja mais casos, e a convivência com a influenza, a necessidade de terapia intensiva é menor. Aprendemos a tratar os pacientes. Estamos vivendo essa onda da Ômicron com pelo menos algum know-how prévio sobre como enfrentar uma crise sanitária dessas proporções.

Há menos internações, mas as emergências estão lotadas. Qual o impacto disso? Essas pessoas todas precisavam ir ao hospital?

As pessoas se sentem seguras indo para os serviços de emergência porque estão no hospital, acham que ali há toda a infraestrutura necessária para atendê-las. Quando discutimos planejamento de unidades de emergência, nós, que trabalhamos com gestão de saúde, levamos sempre em conta que existe a urgência do ponto de vista da saúde e a urgência do ponto de vista do cidadão.

Falta orientação?

A questão da orientação é que existem dois lados: o que dá e o que aceita. Precisaríamos saber até que ponto as pessoas se sentiriam seguras com essas orientações. Essa questão das emergências lotadas não é um fenômeno da pandemia, da covid. Em muitos países, e o Brasil é um deles, as pessoas acham a atenção primária boa, gostam do médico da família, mas se sentem mais seguras no serviço de emergência. Nem sei se elas têm razão, mas é como se sentem.

Muitos profissionais de saúde estão com covid-19, afastados de seus trabalhos. Em algumas unidades temos baixas de até 20%. Qual o impacto

Sim, esse número é muito alto, sobretudo em janeiro, quando boa parte das equipes está de férias. Todos os profissionais que estão nos serviços de saúde ou em contato com a população correm risco de contágio. O que mais chama atenção no caso dos profissionais de saúde é que eles sabem direitinho como se proteger, as precauções que têm que tomar. E ainda assim estão se infectando. Isso mostra que a exposição está bem pesada. Além disso, há o fator estresse e o fator cansaço. Em janeiro de 2021, eu falei que estávamos no décimo-terceiro mês de 2020. Agora, só não digo que estamos no 25º mês de 2020 porque temos a vacina.

A Ômicron é, disparado, a mais transmissível das variantes. Estamos com uma taxa altíssima de disseminação do vírus. Não era hora de adotarmos de novo algumas medidas de restrição?

As pessoas não aguentam mais. Alguns países voltaram, se não ao lockdown, a algumas medidas restritivas. No réveillon, a única capital que manteve a festa sem restrições foi Madrid. Todas as outras tiveram restrições, como Nova York, Paris. E no Rio também. Até teve fogos, mas nada comparável aos anos anteriores.

Mas o que estamos vivendo hoje não é, em parte, decorrente dos encontros do fim do ano? Isso não foi previsto?

Sim, o que estamos vendo hoje ainda é a ressaca de Natal e Ano Novo. E também das férias de fim de ano. Com certeza foi previsto. Todo mundo sabe que nos encontros familiares o risco é maior. Algumas foram mais cautelosas, se testaram antes. Mas muitas acabaram se contaminando.

Não seria o momento de adotarmos novas medidas restritivas?

Acho que é o momento de rever o que vamos fazer. Por exemplo, jogo de futebol não é necessário. Escola para criança é necessário. Hoje em dia, entendemos melhor o que está acontecendo, temos mais controle da situação, então podemos tomar decisões mais consequentes. Possivelmente teremos alguma restrição para o Carnaval. Até porque não é só Ômicron. É Ômicron e influenza.

Sim, e ainda temos a questão da falta de testes...

Não entendo bem porque as pessoas querem saber se é Ômicron ou influenza. Se está sintomático, fica em casa. Isto é, se você puder ficar em casa. Na nossa realidade, o difícil é poder ficar em casa. Ou ter uma casa para ficar.

Alguns especialistas acham que a Ômicron pode ser a derradeira variante, apontando para o fim da pandemia, por conta de sua alta transmissibilidade. A senhora concorda?

Acho que é uma análise otimista, apropriada para o momento. Mas só queria lembrar que influenza tem todo ano. Então, provavelmente, teremos algum corona todos os anos também, mas com consequências menos graves do que em 2020 e 2021. Mas enquanto não houver disponibilidade real de vacina para o mundo todo, enquanto houver países, continentes inteiros, sem cobertura vacinal, o risco do surgimento de novas variantes não é pequeno. O vírus não é bobo.

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