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Maioria das infecções pela covid-19 é causada por uma minoria de superespalhadores

A maioria das pessoas não passa a doença e uma porcentagem pequena das pessoas é responsável pela maior porcentagem dos casos

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2020 | 05h00

Já reparou como as pessoas que a gente segue nas redes sociais costumam ter muito mais seguidores do que nós mesmos? Dê uma olhada – parece que nossos amigos sempre têm mais amigos do que nós. De certa maneira, é isso mesmo. No começo dos anos 1990, o sociólogo americano Scott Feld descreveu o que ficou conhecido como o paradoxo das amizades – e que vai bem além das redes sociais. Essa dinâmica se aplica a diversos fenômenos organizados em rede, desde relações afetivas e sexuais até a propagação de fake news. Pensando bem, faz sentido: é tão improvável que você seja amigo de uma pessoa que tenha poucos amigos como que siga alguém que quase ninguém segue. As notícias falsas chegarão até nós por meio das poucas pessoas que as espalham muito, não pela maioria que as lê e não se dá ao trabalho de propagá-las.

Essas pessoas têm um papel de centralidade: se desenharmos no papel as ligações mútuas entre os indivíduos, veremos que alguns são muito mais conectados que outros, estabelecendo um número desproporcional de relações e assim exercendo mais influência naquela rede.

Quando pensamos em doenças infectocontagiosas, dá para perceber a importância dessa dinâmica. A propagação da gripe, por exemplo, segue essa lógica: é muito mais provável você ser infectado por uma das poucas pessoas chamadas de superespalhadoras do que por alguém que, como a maioria, pega e não passa para ninguém.

Juntando as duas coisas – o fato de que nossos amigos são mais conectados do que nós e que, por isso, podem ser os transmissores de doenças –, dois cientistas de Harvard acompanharam durante a temporada de gripe de 2009 nos EUA centenas de estudantes aleatoriamente escolhidos e também aqueles que eram seus amigos. Descobriram que os primeiros sinais da gripe apareciam entre os amigos quase duas semanas antes do que nos estudantes escolhidos ao acaso.

Não deveria surpreender ninguém, portanto, a notícia de que a maioria das infecções por covid-19 é causada por uma minoria de superespalhadores. A maioria das pessoas não passa para ninguém e uma porcentagem pequena das pessoas é responsável pela maior porcentagem dos casos. Isso inverte totalmente a lógica do teste e rastreio que vem sendo feita em muitos lugares. Quando se identifica alguém contaminado, mais importante do que ir atrás das pessoas para quem ele possa ter passado o vírus seria rastrear de quem ela poderia ter pego. Há grande chance de se encontrar ali um ponto central dessa rede.

Tais análises são também fundamentais para se reorganizar a vida enquanto não conseguimos controlar melhor essa doença, seja por meio de vacinas ou tratamentos. Escrevi semana passada no caderno Na Quarentena sobre a redução de danos – aquele momento em que admitimos ser impossível impedir as pessoas de se expor completamente aos riscos e passamos a centrar esforços para ensiná-las a minimizá-los.

Apesar do nome de vilões de quadrinhos os superespalhadores não saem pelas ruas tossindo na cara dos outros de propósito. As pessoas que contaminam muitas outras praticamente só o fazem em ambientes fechados, pouco ventilados, onde há aglomeração levando a contato próximo – e frequentemente prolongado. Acrescente a ausência de máscara e a presença de gente gritando, cantando ou falando alto e temos a fórmula para um desastre.

Por outro lado, ambientes ventilados, com número reduzido de pessoas que permita o distanciamento, têm bem poucas chances de ganhar centralidade na rede de contágio. Sobretudo se as pessoas estiverem usando máscaras e não precisarem falar alto ou próximas para se fazerem ouvir.

Como já ficou claro que as pessoas não vão respeitar uma quarentena que na prática nem sequer existiu de fato, em vez de tentarmos fazê-las sentirem-se irresponsáveis pecadoras, poderíamos nos focar em lembrá-las de ventilar os lugares, de não chegarem muito perto, de limitar o número de pessoas.

São recomendações que, se não protegem totalmente (mas o que o faz?), minam o caráter de superespalhamento da covid-19. E que por serem mais factíveis e realistas me parecem mais eficazes do que o rígido e utópico fique em casa.

* É PROFESSOR COLABORADOR DO DEPARTAMENTO DE PSIQUIATRIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP, BACHAREL EM FILOSOFIA E ESCRITOR

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