Nilton Fukuda/Estadão
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Teremos segunda onda?

Medir é parte importante da ciência. É essencial para se compreender a realidade

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2020 | 22h33

Depois de sete meses, 135 mil mortes e 4,5 milhões de infecções diagnosticadas, finalmente parece que o número de novas mortes e novos casos de covid-19 está caindo. Se essa queda continuar, começaremos 2021 com poucos novos casos e novas mortes a cada dia. A questão agora é saber se teremos uma segunda onda no Brasil, como está ocorrendo em muitos países da Europa

Isso depende de dois fatores relacionados: a intensidade das medidas de distanciamento social e o número total de pessoas já infectadas no País. Quanto maior o número de infectados, menor será o distanciamento social necessário para evitar a volta da pandemia. Na Europa, o número de infectados na primeira onda foi pequeno e o relaxamento levou ao aparecimento da segunda onda.

E no Brasil, que fração da população já foi infectada? Seguramente esse número é muitas vezes maior que os 4,5 milhões de pessoas com diagnóstico confirmado, pois muitos não procuram o sistema de saúde e outros tantos são casos assintomáticos. É nesse contexto que devemos lamentar o fracasso do estudo Epicovid19, que pretendia determinar esse número. Esta semana foi revelado que a metodologia usada no estudo nacional de soroprevalência (Epicovid19) não é útil para determinar o número total de infectados. É importante entender o que se passou com esse estudo.

O Epicovid19 é um estudo executado por epidemiologistas da Universidade Federal de Pelotas, para determinar o total de pessoas já infectadas em todo o Brasil, a cada 15 dias. Para isso foi utilizado um teste sorológico capaz de detectar anticorpos contra o SARS-CoV-2 no sangue. A premissa desse estudo é que o teste sorológico utilizado seja capaz de detectar anticorpos na maioria das pessoas já infectadas (poucos falso negativos), não detecte pessoas que não foram infectadas (poucos falso positivos) e, mais importante, que os anticorpos detectados não desapareçam do sangue das pessoas infectadas ou tenham seus níveis reduzidos abaixo do limite de detecção do teste durante toda a duração da pesquisa (6 a 12 meses). O teste utilizado foi um teste sorológico do tipo rápido, da marca Wondfo.

Em cada uma das quatro rodadas já executadas, mais de 2 mil pesquisadores percorreram o Brasil em dois dias testando 250 habitantes de cada uma de 133 cidades brasileiras. Um total de 33.250 pessoas foram testadas em cada rodada. O problema ficou claro esta semana quando foram divulgados os resultados da quarta rodada. O total de pessoas com anticorpos contra o vírus no Brasil caiu de 3,8% para 1,4% ao longo de dois meses, exatamente durante o período em que o número de novos casos estava mais alto. Essa queda, que já havia sido detectada na fase anterior em muitas cidades, foi interpretada pelos cientistas de Pelotas como uma evidência de que os anticorpos detectados pelo método escolhido tinham uma vida muito curta no sangue das pessoas, surgindo após a infecção e desaparecendo em questão de semanas. Entretanto, os números obtidos na pesquisa não somente diminuíram, mas foram muito baixos (em capitais como Curitiba, Goiânia, Recife, Natal e Campo Grande a fração de infectados foi zero).

No caso de São Paulo, os dados do grupo de Pelotas podem ser comparados com outros estudos com o mesmo objetivo, feitos no município. A porcentagem de soropositivos detectados pelo grupo de Pelotas foi de 0,8%. Esse número pode ser comparado com estudo semelhante feito pela Prefeitura paulistana, que na última rodada, indicou que 13,9% da população já havia sido infectada (uma diferença de 17 vezes). 

O terceiro grupo que está tentando medir o número de pessoas já infectadas na cidade (do qual participo) utilizou na última rodada dois testes sorológicos de alta sensibilidade e estimou a porcentagem de pessoas já infectadas dois meses atrás em 11,5% com um dos testes, 14,8% com o outro teste e 17,9% quando os dois testes foram combinados. Os dados da Prefeitura de São Paulo e do nosso grupo parecem ser compatíveis, sendo que o valor maior obtido por nosso grupo pode ser explicado pela diferença entre os testes utilizados. A diferença de 17 vezes entre dois estudos que usam o mesmo teste da Wondfo ainda precisa ser explicada.

Medir é uma parte importante da ciência. Medir corretamente muitas vezes é essencial para se compreender a realidade. O que podemos afirmar com certeza é que o número de pessoas já infectadas no Brasil é muito maior que os 4,5 milhões de casos reportados pelo governo federal, e também muito maior que os 1,4% da população estimados pelo projeto de Pelotas. Mas dificilmente saberemos esse número para o Brasil. Para saber quantas pessoas já foram infectadas no Brasil seria necessário extrapolar dados de capitais, como São Paulo. Isso, se ao longo do tempo, os estudos feitos pela Prefeitura e por nosso grupo não enfrentarem percalços como os do grupo de Pelotas. Sem saber esse número é difícil saber se teremos uma segunda onda no Brasil. 

*BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE 'A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL'; 'FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO'; E 'A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS'

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