Tiago Queiroz/Estadão
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Sergio Cimerman
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Deus será brasileiro?

Países como Espanha, França e Israel tiveram de fazer um novo fechamento

Sergio Cimerman*, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2020 | 05h00

E no último feriado nacional, mais precisamente na data comemorativa da Independência do País, ficamos todos perplexos com a quantidade de veículos rumando às praias de várias localidades, sobretudo nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Quando atentei que a maioria das redes de televisão mostrava as estradas apinhadas, fiquei apreensivo e preocupado. Explico, claro. Todo trabalho de conscientização da população desde o início da pandemia, em março, poderia ruir e assim conhecermos novos casos e óbitos relacionados à covid-19 por total relaxamento da população. Estamos vivendo um momento relativamente muito bom no Brasil, com queda de casos e óbitos em quase todos os Estados da federação - aquela fase de platô, agora com as curvas em queda -, e nos preparando para as vacinas, que devem ter informações valiosas nos próximos dois meses acerca de sua eficácia e segurança para a população. 

Naquele feriado se observou uma massa de pessoas nas praias sem manter distanciamento nenhum e, claro, por razões óbvias, sem uso de máscara. Calor excessivo, suor, umidade - todos pontos de necessidade de troca periódica. Após uns goles de cerveja e caipirinha, a lembrança desse novo acessório ficou em segundo plano. Eu espero (e quero estar errado) que não tenhamos, em dez dias, uma corrida de pacientes aos nossos hospitais, levando à superlotação nos atendimentos, sobretudo em UTIs. Eu sei que Deus é brasileiro, que nos olha a todo momento, mas não podemos banalizar as medidas preventivas ainda mais neste momento de descenso de casos e novos aprendizados frente à doença.

Somos sabedores de que a população está cansada de ficar reclusa após tanto tempo do famoso “fique em casa”, ainda que seja necessário, sobretudo àquelas pessoas que podem fazer seu trabalho em sistema de home office. O que não se pode é frequentar bares e calçadas amontoadas de pessoas sem máscara, ocasionando um maior risco de transmissibilidade. O indivíduo ingere bebida alcoólica, acaba por esquecer as medidas preventivas e toca outras pessoas sem nem pensar direito. Precisamos repensar atitudes e não criticar a flexibilização.

Advogo a ideia que os bares, por exemplo, devem existir como os restaurantes, mas com todo o protocolo de segurança. Se não for assim, incorremos em descuido e aumento de transmissão da doença.

Vamos fazer uma reflexão sobre as salas de cinema: vale a pena abrir ou não? Se abriu shoppings, restaurantes e bares, o que seria de bom tom? Se for permitido apenas assistir ao filme, sem ingestão das famosas guloseimas, e mantendo distanciamento entre as poltronas, creio que seria palatável no momento atual. Agora, se for liberada a alimentação, raramente o espectador estará com a máscara e, assim, existirá risco na transmissão. Veja que temos de analisar como um todo. Analisar todas as situações possíveis para poder tomar decisões seguras.

Outro ponto que merece uma discussão ampla é a volta do torcedor aos estádios de futebol. Se realizada com protocolos rígidos, creio ser possível - e sou favorável. A questão é se adaptar às normas de distanciamento, ao uso de máscara em tempo integral, à disponibilidade de dispositivos de álcool em gel a 70% nos principais pontos e, o mais importante, não criar aglomeração na entrada e na saída dos estádios.

Deveríamos iniciar um projeto piloto com uma ocupação de não mais de 35% da capacidade do estádio e avaliar gradativamente o comportamento em cada localidade. Precisamos retomar a vida, mas nunca esquecendo a segurança.

Sempre fica uma dúvida e um medo, porém temos de saber retroceder também. Quando comento isso, remeto à situação de que já se fala na Europa e no Oriente Médio, de uma segunda onda de doença. Países como Espanha, França e Israel vivem um aumento do número de casos e tiveram de fazer um novo fechamento ou adotar medidas mais drásticas. É um risco da abertura, causado pela não assimilação por parte da população da segurança adequada. Neste momento não vejo nosso País vivendo ou tendo possibilidade de uma provável segunda onda.

Creio realmente e estou cada vez mais certo de que a vacina, independentemente de qual laboratório, chegará antes dessa nova onda de desgraça à população. Penso que teremos sucesso mesmo se não tivermos uma eficácia acima de 75%, que seria o ideal. Na verdade, precisamos que a vacina promova pelo menos uma redução de casos graves/críticos a fim de evitar óbitos. Esse grande objetivo resultaria em uma retomada mais rápida e renderia conforto a todos nós para um novo normal pós-covid-19.

Vamos nos unir e manter as medidas preventivas. É um apelo sincero que faço à população: não vamos chegar ao próximo feriado e esquecer tudo. Que as pessoas tomem atitudes certas. Vamos nos policiar e cuidar uns dos outros. Xô, covid-19!!!!

*É COORDENADOR CIENTÍFICO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA E MÉDICO DO INSTITUTO DE INFECTOLOGIA EMÍLIO RIBAS

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