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Dexametasona: descoberta a cura da covid-19?

O que está anunciado não é uma cura, e sim um medicamento que, junto aos cuidados, auxilia o tratamento da doença; não é uma vacina que impede de ter a doença e não é um remédio que ataca o vírus

Gonzalo Vecina Neto, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2020 | 19h07

Calma, ainda não.  A tradicional Universidade de Oxford, da Inglaterra, veio a público nesta terça-feira, 16, anunciar as descobertas realizadas por seus pesquisadores referentes a um importante estudo randomizado, duplo-cego. Este tipo de estudo é o padrão ouro para construir uma evidência científica.  Além disso, utilizou uma amostra – número de casos, bem grande.

Estudos randomizados são caracterizados pelo uso de um grupo que recebe o medicamento que se quer testar e um grupo que recebe o placebo, porém a decisão de quem recebe o que é por sorteio e o duplo cego significa que nem os profissionais que conduzem a pesquisa nem os pacientes sabem quem recebe o que. 

Tudo é meticulosamente planejado de tal forma a reduzir a probabilidade de ocorrerem desvios durante a pesquisa. Somente se sabe que há os grupos para que, durante a pesquisa, se algum grupo for muito beneficiado ou começar a sofrer muitos eventos inesperados, o pesquisador paralise o experimento e abra os dados de forma a que todos possam ser beneficiados pelos efeitos positivos. Ou, ao contrário, suspenda o recebimento da droga que está provocando efeitos indesejáveis.

Neste caso, cerca de 11.500 pacientes participaram em 175 hospitais do Serviço Nacional de Saúde, o SUS dos ingleses. Desse total, 2.104 pacientes da covid-19 receberam dexametasona por dez dias, ante 4321 que não receberam esse medicamento. Os demais pacientes receberam outras drogas que terão seus resultados publicizados depois.

Os resultados comprovados por meio de provas estatísticas informam que os pacientes graves reduziram a sua probabilidade de morrer em 35% e os menos graves, mas internados e que necessitavam de oxigenioterapia, reduziram a chance de morrer em 20%. Nos casos menos severos, os resultados não foram considerados significativos.

O importante é que finalmente aparece uma droga, um auxiliar comprovado, para ajudar no controle dessa doença. A primeira. E é um remédio bastante barato e fácil de produzir.

Porém, - sempre tem um porém, - o que está anunciado não é uma cura, e sim um medicamento que junto aos cuidados, auxilia o tratamento da doença. Não é uma vacina que impede de ter a doença e não é um remédio que ataca o vírus. 

Embora importante, é muito menos que isso. É bastante conhecido pelos médicos a importância do quadro inflamatório que a doença provoca e em decorrência desse processo inflamatório as lesões pulmonares, cardíacas, renais, neurológicas. 

É uma doença com reflexos em todo o corpo e do qual os pacientes que conseguem se salvar saem com bastante sequelas, em particular os mais graves, quando a dexametazona foi mais importante.

A supra renal é uma glândula que fica sobre o rim e produz importantes hormônios que nos ajudam a regular um conjunto importante de fenômenos biológicos – o cortisol ou hidrocortisona é o principal desses hormônios. Há sessenta anos, começamos a produzir cópias desse hormônio e temos à venda um conjunto deles,  chamados de antiinflamatorios hormonais – os glicocorticoides. São imunossupressores e anti-inflamatórios potentes. 

Mas têm de ser usados com muito cuidado e por prazo limitado. O médico deve sempre escolher o uso e os efeitos colaterais possíveis de serem provocados por seu uso. É um balanço entre efeitos desejáveis e indesejáveis, sempre levando em conta a vida do paciente. 

Quando tomados, esses produtos tendem a diminuir a produção do nosso próprio hormônio, além de induzir uma queda de nossas defesas, de imunidade. Por isso, o risco.

Potencialmente, essas drogas são mais problemáticas do que a cloroquina, mas são muito potentes, como anti-inflamatórios e já vinham sendo usadas desde o começo da pandemia. Agora veio a confirmação de seus efeitos positivos.

Não corra a farmácia comprar a sua dose – somente deve ser usada em pacientes internados e seu uso sem controle médico é muito perigoso.

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