Tony Winston/MS
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Dez dias após ser anunciada por Queiroga, médica desiste de comandar secretaria de combate à covid

Luana Araújo poderá ser chamada para explicar motivos do recuo à CPI da Covid

Vinicius Valfré, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2021 | 17h38

BRASÍLIA – A recém-criada Secretaria Extraordinária de Enfrentamento à Covid-19 está sem comando. O Ministério da Saúde informou neste sábado, 22, que a médica infectologista Luana Araújo, anunciada para o cargo de secretária há apenas dez dias, não ocupará mais a função.

"A pasta busca por outro nome com perfil profissional semelhante: técnico e baseado em evidências científicas", disse o ministério em nota. O decreto que criou a secretaria foi publicado no dia 10 de maio. Dois dias depois, em evento em Brasília, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, anunciou a médica como a chefe do órgão. 

O governo foi criticado por montar uma secretaria específica para combater a covid na estrutura do ministério somente 15 meses após o primeiro caso da doença no Brasil.

Segundo publicou a Revista Veja, Luana Araújo não aceitou determinações impostas pelo Palácio do Planalto e abriu mão de aceitar o cargo. Em depoimento à CPI da Covid, Queiroga afirmou que tem total autonomia para liderar o ministério e não recebe pressões do presidente Jair Bolsonaro.

Após a confirmação do recuo da médica, o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), suplente da CPI, solicitou a convocação de Luana "para que seja possível esclarecer as razões que a levaram a pedir exoneração do cargo de secretária de enfrentamento à Covid no Ministério da Saúde após apenas uma semana de trabalho".

Como mostrou o Estadão, Luana Araújo é defensora da vacinação em massa, já declarou ser favorável a medidas restritivas e contra o "kit covid", mesmo para pacientes com sintomas leves. Ela já afirmou também que "todos os estudos sérios" demonstram a ineficácia da cloroquina e que a ivermectina é "fruto da arrogância brasileira" e "mal funciona para piolho". Durante uma live com o vereador Rafael Pacheco (Podemos), de Adamantina, interior de São Paulo, sua cidade de origem, ela também criticou o uso de hidroxicloroquina contra a covid-19.

"A hidroxicloroquina a gente já sabia que não ia funcionar. E todos os estudos sérios, bem feitos, multicêntricos – quer dizer, feitos ao redor do mundo ao mesmo tempo –, cheio de recursos mostram que não funcionou. E ponto", disse Luana na live. "A ivermectina é fruto da arrogância brasileira. O brasileiro não investe em ciência, mas acha que tem a chave para resolver as coisas."

O uso desses remédios foi defendido diversas vezes por Bolsonaro, pessoas do governo e aliados políticos desde o início da pandemia. O presidente também acumula críticas da comunidade científica por ser flagrado em aglomerações sem máscara, questionar a eficácia do isolamento social e dar declarações confusas sobre vacinação.

No início da noite, em entrevista coletiva, o ministro da Saúde negou que uma pressão do Planalto tenha resultado na desistência da médica. "Não tem pressão do Palácio do Planalto. Esse é um assunto que eu considero encerrado. Dra. Luana é uma excelente médica, e nós vamos buscar um perfil semelhante ao dela para trabalhar aqui conosco", afirmou.

Questionado então sobre o motivo que fez Luana declinar do cargo, ele reafirmou que dava o assunto por encerrado e não detalhou as razões da decisão. "Esse é um assunto que nós consideramos encerrado. Eu não vou mais abordar esse assunto."

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