Dia de rever estereótipos

O clichê é criado por um processo chamado estereotipia, pois o que faz é criar um tipo com uma dimensão extra no espaço. E assim como clichê, o significado de estereotipado também se expandiu, referindo-se àquilo que se encaixa num padrão (e por fim ao próprio padrão). 

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S.Paulo

11 Março 2018 | 03h00

Um dos tios de minha mulher, o falecido tio Rôd, era dono de uma gráfica e quando fomos nos casar ele nos presenteou com a confecção dos convites. Eu achava todas as decisões que cercavam a cerimônia muito desinteressantes, mas dessa vez me surpreendi, pois ele nos levou à gráfica, mostrou todo o processo, despertando minha curiosidade. 

Foi ali que aprendi o significado original da palavra clichê: trata-se de uma espécie de carimbo, em alto relevo, feita para marcar determinada figura no papel sempre do mesmo jeito – no caso dos convites de casamento, as iniciais dos noivos. Daí o uso estendeu-se para se referir àquelas frases feitas, que ficam banalizadas de tanto serem repetidas sempre da mesma forma. 

O clichê é criado por um processo chamado estereotipia, pois o que faz é criar um tipo com uma dimensão extra no espaço. E assim como clichê, o significado de estereotipado também se expandiu, referindo-se àquilo que se encaixa num padrão (e por fim ao próprio padrão). 

Hoje, quando falamos em estereótipo, normalmente pensamos nessa postura que atribui características – positivas ou negativas – às pessoas sem conhecê-las realmente, partindo do pouco que se sabe dela. Fulano é médico? Deve ser frio, arrogante, inteligente. É jornalista? É curioso e intrometido. É carioca? Bem, deu para pegar a ideia.

O maior problema de estereotipar um grupo é tratar todos do mesmo jeito, atribuindo a sujeitos características que, nem sempre sendo positivas para a pessoa, podem prejudicá-la – e muito – na vida. Como no famoso caso das musicistas que não eram aprovadas em audições para orquestras, a não ser para instrumentos considerados de mulher, como o violino. Até que começaram a fazer audições às cegas, sem ver quem estava tocando, quando elas passaram a ser aprovadas. 

A dificuldade é que os estereótipos não surgem no vácuo. O trabalho do cérebro, afinal, é exatamente o de detectar padrões com base nas informações que recebe, padrões nos quais passamos a acreditar como verdade. Tanto que esse ano um grupo de cientistas demonstrou que pessoas mais inteligentes estereotipam os outros mais rapidamente. Voluntários foram apresentados a dois grupos de “aliens”, azuis e amarelos. Entre os azuis havia mais indivíduos com comportamentos negativos do que entre os amarelos. Quando lhes foi pedido para classificar novos indivíduos, as pessoas com QI mais alto tinham maior tendência a colocar os novos seres azuis, sobre os quais não sabiam nada, no grupo dos mal comportados. Isso é estereotipar.

A boa notícia é que as pessoas inteligentes também eram mais rápidas para reverter tais crenças na presença de mais informação – quando tinham contato com mais dados sobre os “aliens”, mais rapidamente notavam que a cor não era determinante para o comportamento. E melhor ainda: em testes com estereótipos da vida real, embora mesmo os inteligentes acreditassem em ideias pré-concebidas sobre os gêneros (mulheres são frágeis, por exemplo), a inteligência também ajudava a reverter a crença estereotipada diante de informações isentas sobre a heterogeneidade do comportamento humano. 

Claro que nem todo mundo é inteligente igual. Mas todos os cérebros trabalham continuamente na busca de padrões. Por exemplo: se vemos mais homens engenheiros e mais mulheres professoras será natural identificar um padrão. Mas não é esse o problema. O perigo é acreditar, a partir daí, que há profissões de homem e de mulher. E mais grave: usar tais crenças como justificativas para proibir mulheres de ser engenheiras, como acontecia no passado, ou desconfiar de sua competência na área, como acontece até hoje. Por isso precisamos do Dia Internacional da Mulher. Para martelar essas informações até que os cérebros, mesmo dos menos espertos, se livrem dos estereótipos.

É hora de aprendermos que, mesmo com características biologicamente diferentes, não pode haver discriminação social por causa de gênero. Todos podem ser o que quiserem. E nenhuma interdição de direitos deve existir por causa de um viés que temos embutido no cérebro.

* é psiquiatra

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