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Dia dos Pais

Quer conquista mais relevante do que reconhecer e poder expressar seu afeto?

Rosely Sayão, O Estado de S. Paulo

09 de agosto de 2020 | 05h00

No dia dedicado aos pais, não é pequeno o número de famílias brasileiras que tem muito a comemorar. Nelas, o papel do pai mudou bastante, e isso contribuiu de modo positivo tanto para o desenvolvimento da família quanto – e principalmente – para a saúde e o bem-estar dos filhos.

Tradicionalmente, o papel do homem – e, portanto, do pai – estava muito mais voltado ao espaço público do que ao ambiente privado familiar. Como ele era, em geral, o único provedor da casa, e o mais importante, seu trabalho o mantinha distante da residência, das questões domésticas e, principalmente, dos filhos.

Em relação a estes, o pai tinha, em casa, um papel rígido e quase sempre punitivo. Quem não conhece a frase dita aos filhos, pela mãe: “Se você fizer isso vou contar a seu pai quando ele chegar”? Muitos dos adultos de hoje ouviram a frase, e outros pelo menos sabem que ela já foi muito usada, o que mostra que havia um temor dos filhos do castigo – que poderia ser uma bronca – do pai. Por isso que a frase tinha potencial de funcionar: porque o pai tinha, sobre todos da família, papel de poder. Sim: era considerado a figura de maior destaque da casa, a quem todos deveriam atender e obedecer. 

Uma das consequências diretas dessas características do papel do homem na família foi a de provocar um tipo de relacionamento com os filhos em que não havia diálogo, tampouco escuta. E o pai teve de se resignar a amar seus filhos a distância.

Nenhum dos cuidados necessários à manutenção da saúde dos filhos tinha a participação do pai. O máximo que podia ocorrer era o homem acompanhar ou levar a esposa ao local em que cuidados médicos estavam disponíveis, por exemplo.

Foi em meados do século 20 que o papel do pai começou a sofrer mudanças mais radicais, embalado pelas transformações sociais, culturais, econômicas e pessoais que assolaram o mundo. Primeiramente, ele deixou de ser o único e o mais importante provedor da família. Com a maior quantidade de mulheres no mercado de trabalho, fruto tanto de conquistas sociais quanto de necessidades familiares, a família passa a ser sustentada também pela mãe que, em alguns casos, oferece uma contribuição financeira até maior do que a conseguida pelo pai.

Não foi fácil para o homem perder esse lugar relevante na família, que ele ocupava sozinho, e passar a compartilhá-lo com a mulher. Mas, na esteira dessa mudança, timidamente se iniciaram outras: uma maior proximidade do pai com seus filhos, um maior envolvimento dele com as questões domésticas, e o estabelecimento de vínculos afetivos mais estreitos com todos os integrantes da família, em especial com os filhos, é claro.

O pai deixa, então, de ser tão temido e passa a ser mais admirado. Fazer a passagem do papel de domínio que antes tinha sobre os filhos para o de uma autoridade firme, mas amorosa, tem sido, até hoje, uma grande batalha para os homens, batalha essa que tem o poder de oferecer a eles grandes conquistas. Quer conquista mais relevante do que reconhecer e poder expressar seu afeto amoroso aos filhos?

Precisamos lembrar que mudanças pessoais podem ocorrer antes das sociais. Assim, mesmo que muitos homens já desejassem há tempos participar ativamente da vida do filho desde o dia de seu nascimento, foi só a partir de 2005, com a Lei Federal 11.108, que os serviços de saúde foram obrigados a permitir um acompanhante na hora do parto. Constatamos que é recente, bem recente, a garantia do direito de o pai de estar presente na hora do nascimento de seu filho.

Vale lembrar que na mesma época em que mudanças ocorrem no papel do pai na vida familiar, aumenta consideravelmente o número de casamentos desfeitos. Para os homens que conseguiram absorver as mudanças no seu papel junto aos filhos, a separação do casal não tem sido empecilho para a manutenção da proximidade com os filhos. A guarda compartilhada, só tornada obrigatória por lei em 2014, e a alienação parental prevista em lei somente há cerca de dez anos, vieram contribuir, no âmbito social, para garantir ao pai o efetivo exercício dos direitos e dos deveres junto aos filhos.

O rompimento do casamento, para muitas famílias, já assumiu ares bem civilizados e a mostra disso surgiu exatamente na situação de isolamento social imposta pela pandemia para quem teve o privilégio de poder ficar em casa. Pais e mães conseguiram acordar uma maneira segura de manter o convívio do pai com seus filhos na guarda compartilhada, evitando maiores riscos. Muito promissor!

Os filhos só têm a ganhar com a maior e mais efetiva participação do pai em seu crescimento, em sua vida. Por isso, em nome dos filhos, homenageio os pais e os agradeço!

ROSELY SAYÃO É PSICÓLOGA

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