Diabéticos enxergam cores de forma alterada

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) descobriram que diabéticos do tipo 2 passam a ver o mundo diferente. Não é uma metáfora sobre adaptações a um novo estilo de vida - eles literalmente enxergam as cores alteradas. A variação é sutil e progressiva, então quem sofre do problema se adapta e não se dá conta da mudança. Mas ela atinge a maioria dos diabéticos estudados, 55%, especialmente na percepção do verde e do vermelho. Além disso, até 90% mostram menos sensibilidade ao contraste entre as cores. Uma equipe liderada pela psicóloga Dora Fix Ventura, do Laboratório de Visão da USP, fez testes com 36 pessoas, com idade média de 55 anos e diabéticos há pelo menos seis anos. Os pacientes também mostraram alteração na percepção do azul. Esse tipo de variação poderia estar ligada à faixa etária dos pacientes, uma vez que a acuidade visual diminui com a idade, inclusive a percepção de cores. Mas a hipótese foi refutada com facilidade: quando os dados foram comparados ao de um grupo de controle, a diferença era nítida. "Também percebemos alterações proporcionais à taxa de hemoglobina glicada (concentração de glicose nas células vermelhas dos pacientes)", diz a psicóloga. Os resultados foram apresentados na semana passada em Florianópolis (SC) durante a 58.ª reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SPBC). O trabalho foi submetido para publicação na revista especializada Visual Neuroscience. Aplicação - O estudo é mais do que uma curiosa conseqüência da doença. Dora acredita que ele pode ajudar os pacientes a evitarem a cegueira decorrente da diabete. Ela assombra os pacientes, uma vez que atinge 60% deles e não há tratamento para a evitar, a não ser o controle rigoroso da taxa de glicose no sangue. A cegueira é causada pela deterioração dos vasos que alimentam a retina. Ela é gradual e irreversível. A mudança na morfologia desses vasos pode ser observada por médicos em exames de fundo de olho, que os diabéticos precisam fazer a cada seis meses ou um ano. Porém, freqüentemente é percebida apenas quando o problema já está instalado. Por isso, Dora defende que testes para medir alterações na percepção de cores podem ser usados para avaliar perdas insuspeitas de visão em diabéticos, pois servem como um alerta. Tais exames são rápidos, com duração de três a cinco minutos, e podem ser feitos no consultório de um oftalmologista ou em instituições públicas, como universidades. O problema é o preço, por enquanto inviável para estimular sua popularização. Ele se baseia em um programa desenvolvido pela Universidade de Oxford, na Grã-Bretanha, de alta sensibilidade - e alto preço. Em uma tela, o paciente precisa identificar um semicírculo colorido formado por outros círculos de cores similares. O contraste entre a figura e o fundo diminui gradualmente, até que a pessoa não consiga distinguir um do outro. Protótipo - Dora conta que uma parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA) pode mudar o quadro. Um grupo trabalha para criar uma contrapartida barata deste programa. Um protótipo chegou a ser criado, mas baseados em equipamentos que já se tornaram obsoletos. O mesmo grupo da UFPA busca desenvolver uma maneira de aplicar o teste em crianças com menos de cinco anos, que não entendem instruções verbais. A diabete tipo 2 é o mais comum - atinge 85% a 90% dos pacientes, especialmente adultos após os 40 anos. A Organização Mundial da Saúde calcula que existam 171 milhões de pessoas com a doença em todo o mundo e quase metade não tem consciência de sua condição. A previsão para 2035 é de 366 milhões de diabéticos.

Agencia Estado,

24 de julho de 2006 | 09h57

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