Diagnóstico genético leva 11 primos a remover o estômago

O americano Mike Slabaugh não tem estômago. Nem ele, nem seus 10 primos. Enquanto cresciam, eles assistiram ao câncer de estômago matar-lhes a avó, além de alguns dos pais, tios e tias. Determinados a enganar a doença, eles se voltaram para os exames genéticos. Ao descobrir que haviam herdado o gene assassino da vovó Golda Bradfield, viram-se diante de duas opções: contar com a sorte e enfrentar uma chance de 70% de desenvolver o tumor, ou extrair o estômago. Todos os primos optaram pela operação, que implica uma mudança de estilo de vida, exigindo a realização de mais refeições ao dia, mas com menos comida. Segundo médicos, trata-se da maior família a se submeter a uma cirurgia preventiva para escapar de câncer de estômago hereditário. "Não estamos só sobrevivendo, estamos prosperando", disse Slabaugh, 16 meses após a operação, realizada no Centro Médico da Universidade Stanford. Avanços em exames genéticos estão abrindo às famílias com genes ruins uma oportunidade para ver o futuro, às vezes com a esperança de uma ação preventiva. Slabaugh, que mora em Dallas, reuniu-se com os primos em Las Vegas, depois de o último deles ser operado. Vários deles não se viam há anos, e outros sequer se conheciam. "Em vez de viver com medo, eles encararam o destino genético", disse o médico David Huntsman, que descobriu o gene mutante na família. A mutação CDH1 foi descoberta na Nova Zelândia, em 1998. Ela matou Golda Bradfield em 1960, e Golda passou o defeito para sete de seus filhos. Seis morreram de câncer quando tinham entre 40 e 50 anos. Os 18 netos descobriram o gene depois que um deles sucumbiu à doença, em 2003. Pouco depois, os 17 sobreviventes fizeram o exame genético: 11 dos que tinham o gene ruim optaram pela cirurgia. Slabaugh, assombrado pela morte da mãe, não hesitou em se operar. "Acordo toda manhã e penso, este é um dia grátis. Um dia de bônus", disse ele, que tem 52 anos. Durante a cirurgia, os médicos removeram todo o estômago dos pacientes, e também os nódulos linfáticos adjacentes. A base do esôfago foi ligada ao intestino. Sem estômago, os pacientes em geral perdem muito peso e devem comer refeições menores, com maior freqüência. Eles ainda são capazes de digerir comida no intestino. De acordo com o médico Jeff Norton, embora todos os estômagos removidos parecessem saudáveis, uma análise dos tecidos mostrou pequenos tumores. O efeito de longo prazo da remoção do estômago não é conhecido. Pesquisadores acompanham famílias afligidas pelo câncer hereditário para descobrir como a cirurgia afeta a qualidade de vida.

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