Lucas Jackson/Reuters
Lucas Jackson/Reuters

Dieta com restrição de calorias induz alterações benéficas no DNA de mulheres obesas

Após seis semanas de alimentação hipocalórica, o padrão de expressão gênica ficou mais parecido com o de mulheres magras da mesma faixa etária; genes relacionados ao desenvolvimento de tumores tornaram-se menos ativos

André Julião, Agência FAPESP

26 de agosto de 2020 | 11h00

Estudo conduzido por pesquisadores do Brasil e da Espanha mostrou que a adoção de uma dieta com restrição de calorias pode, além de reduzir o peso, induzir modificações bioquímicas no DNA de mulheres obesas capazes de reverter a propensão a certos tipos de câncer. Os resultados foram publicados no European Journal of Clinical Nutrition.

O trabalho integra um projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) cujo objetivo é avaliar em pacientes obesas submetidas a diferentes intervenções terapêuticas – cirurgia bariátrica, cirurgia bariátrica seguida de exercícios físicos ou dieta – o padrão de metilação do DNA.

Esse processo bioquímico, que corresponde à adição de um grupo metila (formado de átomos de hidrogênio e carbono) à base citosina do DNA, pode alterar a expressão de alguns genes. Desse modo, determinados padrões de metilação do DNA podem favorecer ou inibir o desenvolvimento de doenças.

“O resultado principal do estudo é mostrar que indivíduos com e sem obesidade têm um perfil diferente de metilação do DNA em alguns genes específicos e que isso pode ser modicado com a perda de peso. Dependendo da intervenção [cirurgia, cirurgia e exercício ou dieta], as vias modificadas são diferentes e o padrão não necessariamente volta a ser o de um indivíduo com peso normal”, explica Carolina Nicoletti, professora colaboradora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), uma das autoras do trabalho.

Nicoletti realizou parte das análises durante estágio de pós-doutorado, também financiado pela Fapesp, sob supervisão de Carla Barbosa Nonino, coordenadora do projeto e do Laboratório de Estudos em Nutrigenômica (LEN) da FMRP-USP.

“O aumento da prevalência e incidência de obesidade e comorbidades relacionadas é um dos principais problemas de saúde pública na atualidade. Por ser uma doença complexa e multifatorial, a melhor compreensão dos mecanismos moleculares das interações entre estilo de vida, meio ambiente e genética é fundamental para o desenvolvimento de estratégias efetivas de prevenção e tratamento”, diz Nonino.

Nesse estudo, foram avaliadas 11 voluntárias, com obesidade grave e idades entre 21 e 50 anos. Elas tiveram amostras de sangue coletadas antes e depois de uma intervenção dietética de seis semanas. As pacientes ficaram internadas durante todo o período na Unidade Metabólica do Hospital das Clínicas da FMRP-USP, onde receberam uma dieta de 1.800 e 1.500 quilocalorias diárias no primeiro e segundo dia, respectivamente, e de 1.200 quilocalorias por dia no restante do período.

As pacientes tiveram acompanhamento de uma equipe de médicos, enfermeiras e nutricionistas, que garantiram a adesão à dieta. Além disso, as voluntárias foram estimuladas a não alterar os níveis diários de atividade física que mantinham antes da intervenção.

Riscos

Após as seis semanas de intervenção, as voluntárias tiveram uma perda de peso de 1,8%, equivalente a mais ou menos um quilo por semana. “Comparado com a cirurgia bariátrica, pode parecer pouco, mas é uma perda significativa. Quando se trata de uma pessoa de 150 quilos que precisa perder 50, é preciso levar em conta que a mudança não vai acontecer em dois meses, mas provavelmente durante o ano inteiro”, diz Nicoletti.

O perfil de metilação foi estudado com uma ferramenta capaz de avaliar simultaneamente 500 mil regiões do DNA. Foram comparados os padrões das mulheres obesas antes e depois da intervenção e de um grupo controle, de mulheres sem obesidade e da mesma faixa etária.

Antes da intervenção, as mulheres com e sem obesidade apresentaram diferenças em 1.342 regiões do genoma, presentes em 953 genes, sendo que mais de 80% das regiões estavam hipermetiladas no grupo sem obesidade.

Ao comparar a metilação do DNA das mulheres com obesidade antes e depois da intervenção, foram observadas alterações em 16.064 regiões do genoma, localizadas em 9.236 genes. Os níveis de metilação foram reduzidos em cerca de 16% na maior parte das regiões analisadas. Genes como SULF2GAL e SNORD2, envolvidos em alguns tipos de tumores, como de mama e colorretal, estavam 35% menos metilados após a intervenção.

“Encontramos muitos genes envolvidos na sobrevivência da célula, os chamados pro-oncogenes, relacionados ao desenvolvimento de câncer. Eles estavam menos metilados nos obesos, o que significa que têm uma expressão maior, favorecendo a formação de tumores. A modificação ocorrida após a intervenção dietética sugere a diminuição dos riscos da ocorrência de câncer nessas pessoas”, explica Nicoletti.

As pesquisadoras ressaltam que, apesar da melhora, a intervenção não igualou o padrão de metilação das mulheres dos dois grupos. No entanto, acreditam que a continuidade na perda de peso poderia levar a isso.

O grupo agora vai analisar dados de metilação de DNA em pacientes submetidas a cirurgia bariátrica e exercícios físicos. O conjunto de estudos poderá contribuir para o entendimento da obesidade, do câncer e da relação entre os dois.

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