Luis Robayo/AFP
Luis Robayo/AFP

Dilemas da procriação

A chegada às Américas de um vírus assustador acende o debate sobre controle da natalidade

The Economist

28 Janeiro 2016 | 19h40

Nas Américas do Sul, Central e do Norte, um surto de zika vírus, que já atingiu 22 países e territórios da região, aterroriza mulheres grávidas e seus parceiros. O vírus pode causar má-formação em bebês cujas mães foram infectadas durante a gestação. No Brasil, desde outubro foram registrados mais de 4 mil casos de microcefalia, que normalmente não chegam a 200 por ano. A resposta de vários países ao problema desencadeou um debate sobre aborto, controle de natalidade e educação sexual que é capaz de se prolongar por mais tempo que o próprio surto.

A discussão começou quando alguns governos da região recomendaram que as mulheres adiassem seus planos de gravidez. Na Colômbia, que tem o maior número de infecções depois do Brasil, as autoridades aconselharam que as mulheres esperem de seis a oito meses para engravidar. A Jamaica fez recomendação semelhante, muito embora o país ainda não tenha registrado nenhum caso da doença. Em El Salvador, o governo sugeriu que as mulheres deixem para engravidar em 2018. No Panamá, as mulheres de comunidades indígenas, em que as taxas de infecção são elevadas, foram aconselhadas a não engravidar.

Para algumas mulheres, as recomendações têm um tom um tanto quanto autoritário. Outras dizem que os governantes da região pouco fazem para ajudar no controle da natalidade. Paula Avila-Guillen, do Centre for Reproductive Rights, organização ativista com sede em Nova York, diz que os índices de violência sexual e gravidez na adolescência observados na América Latina estão entre os maiores do mundo. Segundo o Guttmacher Institute, um centro de pesquisas que promove a saúde e os direitos reprodutivos, 56% das gestações na América Latina e no Caribe são indesejadas.

Os índices de gravidez não planejada são altos porque os programas de educação sexual são inadequados e o acesso a anticoncepcionais é restrito. Os médicos relutam em prescrever métodos contraceptivos a adolescentes ou mulheres que ainda não tiveram filhos. Se a ideia é que as mulheres evitem a gravidez, dizem ativistas dos direitos femininos, as autoridades precisam informá-las melhor e ampliar o acesso a anticoncepcionais para homens e mulheres.

Há quem acredite que a crise do zika vírus levará alguns países a liberalizar a legislação sobre o aborto. Em El Salvador, onde a interrupção da gravidez é proibida mesmo nos casos em que a mulher corre risco de vida, grupos de ativistas estão reforçando a campanha para mudar a lei. 

Em vez de conclamar as mulheres a adiar a gravidez, o Brasil vem, sensatamente, concentrando seus esforços no verdadeiro culpado: o mosquito Aedes aegypti, que também transmite dengue, chikungunya e febre amarela. O País chegou a eliminar o mosquito em 1958, mas baixou a guarda e permitiu que ele voltasse. Este mês, o ministro da Saúde, Marcelo Castro, anunciou a distribuição de repelentes para 400 mil grávidas inscritas no programa Bolsa Família. Cerca de 310 mil funcionários foram mobilizados para conscientizar as pessoas e ensinar práticas que evitam a proliferação do mosquito. A partir de 13 de fevereiro, 220 mil soldados do Exército se somarão a eles. Em conformidade com diretrizes da Organização Mundial da Saúde, as autoridades brasileiras oferecem às mulheres que pretendem engravidar orientações sobre como proceder para evitar as picadas. As mulheres precisam de fatos, não de metas de natalidade.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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