Dilma endossa o charlatanismo

Dilma teve câncer. Escolheu um dos melhores hospitais do Brasil para se tratar. Um local onde impera a prática da medicina baseada em evidência. Foi curada. Assumiu a presidência. Agora, por um punhado de votos, deu uma punhalada nos alicerces da medicina baseada em evidência que salvou sua vida. 

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2016 | 05h00

Dilma sancionou uma lei que endossa o charlatanismo no Brasil. Aprovou, sem evidência científica, o uso da fosfoetanolamina para o tratamento de câncer. Esse é um ato de desonestidade intelectual praticado por uma pessoa que vivenciou de primeira mão os benefícios da medicina baseada em evidências. 

Qualquer pessoa tem o direito e a liberdade de usar qualquer recurso para adiar ou fugir da morte. Entre esses recursos estão as crenças religiosas, os tratamentos alternativos e tantos outros. Os tratamentos baseados em evidências científicas fazem parte dessa coleção de recursos. Como todos os outros, estão disponíveis para quem optar pelo seu uso. Tratamentos baseados em evidências científicas são o que hoje chamamos de medicina. É importante entender o que separa a medicina dos outros recursos disponíveis. 

A medicina é um conjunto de conhecimentos, procedimentos, métodos de diagnóstico, equipamentos e medicamentos que foram selecionados dos últimos 150 a 200 anos com o objetivo de prevenir, retardar ou curar doenças. O que caracteriza a medicina é o método utilizado para selecionar esse conjunto de tecnologias e conhecimentos ao longo dos últimos séculos.

Esse método de seleção funciona da seguinte maneira. Cada vez que algo novo é descoberto, e se propõe seu uso para melhorar o tratamento de uma doença, essa novidade é comparada com os outros tratamentos ou tecnologias disponíveis. Se alguém propõe a utilização de um novo medicamento, seu uso é testado diretamente em um grupo de pacientes. Tipicamente metade dos pacientes recebe o novo tratamento e metade, o antigo. Se o método novo for melhor que o antigo, o antigo é substituído. Caso contrário, o método antigo é mantido. Se forem equivalentes, ambos são mantidos no rol das armas disponíveis para serem usadas pelos médicos. A essência desse sistema de seleção é simples e fácil de entender, mas sua execução prática pode ser lenta, complexa, e muitas vezes frustrante. Mas funciona e progride.

O conjunto de conhecimentos e tecnologias selecionadas dessa maneira é o que chamamos de medicina baseada em evidências. Esse nome deixa claro que nenhum procedimento ou medicamente pode ser aceito e incorporado sem que sua eficácia tenha sido comprovada por meio de uma comparação direta com o que existe de melhor. 

A sobrevivência da medicina depende do compromisso de seus praticantes em não incorporar à prática médica algo que não tenha passado por esse método de seleção. Como esse método avalia diretamente o resultado de cada novo componente, a medicina baseada em evidência melhora ao longo do tempo, curando mais doenças em mais pessoas. Foi assim que ela se tornou poderosa e eficiente. A cura do câncer de Dilma é uma demonstração do poder desse conjunto de tecnologias selecionado por esse método rigoroso.

Para garantir a integridade desse processo de seleção, os países criaram instituições que regulam e garantem a continuidade do processo e sua aplicação. São as escolas de medicina, que ensinam pessoas a usar essas tecnologias, revistas científicas e congressos, em que os resultados desse processo de seleção são divulgados e discutidos, e as agências regulatórias, como a Anvisa. Essas agências garantem que somente tecnologias que passaram por esse processo sejam incorporadas à prática médica.

Ao promulgar a lei que transforma a fosfoetanolamina em medicamento, Dilma forçou a introdução na prática médica de um medicamento que não passou pelo processo rigoroso de seleção que caracteriza a medicina. É exatamente isso que fazem os charlatões: tentam convencer a população que algo que existe fora da medicina na verdade faz parte do arsenal da medicina.

Religiosos não são charlatões pois, apesar de propagar e divulgar outros métodos de cura, não mentem para a população. Não tentam convencer a população que seus métodos ou crenças fazem parte da medicina. Respeitam a decisão de cada indivíduo de como deseja ser tratado. Os bons médicos se comportam da mesma maneira.

Enquanto charlatões usam a lábia e a propaganda, Dilma praticou o charlatanismo com a caneta da Presidência da República. É imperdoável.

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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