GABRIELA BILO/ ESTADAO - 10 11 2020
GABRIELA BILO/ ESTADAO - 10 11 2020

Presidente da Anvisa critica recusa de imunizante: 'Vamos deixar de bobagem e vamos vacinar'

'Vejo com reserva essa flexibilização, principalmente de eventos de massa', diz Antônio Barra Torres; chefe de agência reguladora federal também defende distanciamento social

Entrevista com

Antônio Barra Torres, diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2021 | 10h00

RIO - O contra-almirante e médico Antônio Barra Torres, de 57 anos, chegou ao cargo de diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) por indicação do presidente Jair Bolsonaro. Em dezembro de 2019, alguns dias antes dos primeiros registros de covid-19 em Wuhan, na China, ele assumiu interinamente o cargo, do qual viraria titular no ano seguinte.

Alguns meses depois, participou, ao lado do presidente, de um ato público em Brasília sem máscara. Críticos temeram que, pela proximidade entre os dois, a agência tivesse uma gestão mais política do que técnica em meio à maior epidemia em um século. Aos poucos, porém, o presidente da Anvisa descolou sua imagem da de Bolsonaro, assumindo um discurso de defesa da ciência.

Desde o início da pandemia, a Anvisa autorizou mais de cem estudos clínicos de medicamentos e vacinas contra a covid-19 e teve papel importante no enfrentamento da pandemia no País. Em entrevista ao Estadão, Barra Torres defende com ênfase as vacinas contra a covid-19 , prega o uso de máscaras e pede à população que evite aglomerações desnecessárias - posturas bem diferentes daquelas adotadas por Bolsonaro. "Vejo com reserva essa flexibilização, principalmente de eventos de massa".

Ele ainda responde às críticas à sua gestão e condena o discurso negacionista e as notícias falsas. “As fake news são um inimigo desnecessário, que só somam problemas a uma situação que já é difícil”, afirma. “Estamos vivendo a maior pandemia de todos os tempos. Vamos deixar de bobagem e vamos vacinar.”

Leia a entrevista a seguir:

A OMS recomendou que a eventual dose de reforço da vacina seja aplicada apenas depois que todo mundo tiver recebido as duas doses. Alguns países ricos, no entanto, já estão aplicando dose de reforço. Como vê essa situação? Essa dose de reforço é realmente necessária? Ou apenas para algumas vacinas?

O tema, no momento, não está definido, mas existem estudos em andamento para aferir a necessidade da dose de reforço. A questão toda, e isso está muito claro desde o início da pandemia, é que não há parametrização com eventos passados. É um cenário totalmente novo, que demanda constantes ajustes e reajustes. A toda hora, a própria pesquisa científica tem de se repensar.

Ainda é cedo para dizer se vamos ter, ou se não vamos ter de maneira alguma. A OMS (Organização Mundial da Saúde), com essa recomendação, fez o papel dela, que é defender a maior amplitude vacinal possível. O mais importante é que o cidadão que acompanha as notícias tenha a tranquilidade de entender que, diferentemente de outras situações, as verdades podem sofrer modificações em um espaço muito curto de tempo. Não pode haver ansiedade. Tudo o que envolve a pandemia é um processo dinâmico e pode mudar.

Pode existir a necessidade de terceira dose? Pode. Para qual vacina? Não sabemos. Mas os estudos estão encomendados, em breve começaremos a ter respostas. Estamos diante de um evento novo, um agente patogênico que não tinha ainda se manifestado. Estamos ajustando a música conforme a toada.

Se, como o senhor apontou, temos um dinamismo inédito das pesquisas científicas, com resultados sendo revistos o tempo todo, temos também uma enxurrada de fake news. Como  fazer o público entender a diferença?

É uma questão difícil. O advento da internet e das mídias sociais é muito positivo, mas permite a quem quer que seja emitir conceitos e produzir confusão no sistema. São os dois lados da mesma moeda. A Anvisa possui, através de seu portal, que ainda é pesado, não muito amigável para o leigo, a preocupação de ter janelas de informação ao cidadão não iniciado no assunto regulatório. Nosso painel de vacinas é atualizado todos os dias. É uma maneira que a gente tem.

A Anvisa não tem dotação orçamentária para campanhas nacionais, que é atribuição do ministério. Mas tentamos fazer a nossa parte no portal. A Anvisa é a primeira colocada no ranking da transparência e do combate às fake news entre os órgãos de Estado e governo. E quando a imprensa nos procura, tentamos sempre esclarecer a questão das fake news, que são um inimigo desnecessário, que só soma um problema a uma situação que já é difícil.

A UFMG encaminhou à Anvisa em julho a documentação para o pedido de autorização para iniciar testes clínicos em humanos com a vacina desenvolvida na instituição. A UFRJ anunciou a submissão da documentação. O Butantan já está em fase de testes clínicos de sua nova vacina. Ainda este ano teremos vacina 100% nacional pronta para ser aplicada?

Alguns processos estão em fase inicial, outros estão um pouco mais adiantados. Mas acredito que sim, que vamos ter, como já disse recentemente, uma vacina 100% nacional. Difícil dizer se será até o fim deste ano. Sou avesso a criar expectativas e ter de desdizer depois. Estamos em agosto, até o fim deste ano acho difícil dizer que alguma vacina estará pronta para ir para o braço. Mas acredito piamente que vai acontecer, talvez num horizonte temporal um pouco mais longo, entrando para o ano que vem. É uma expectativa mais realista.

E sobre as vacinas internacionais? Qual é a situação? Em julho, a Anvisa suspendeu a autorização temporária para importação e distribuição excepcional da Covaxin....Isso tem relação com as investigações da CPI?

A questão vacinal está resolvida. Algumas vacinas já têm registro definitivo, outras foram autorizadas para uso emergencial. E a Sputnik V e a Covaxin tiveram autorização temporária para importação com condicionantes, por causa da carência de informações apresentadas.

A autorização da Covaxin foi suspensa porque ela está sem representante no Brasil. Há de haver um representante nacional para a negociação. Enquanto isso não for resolvido não tem como avançar. O representante que tínhamos registrado era a Precisa, mas houve um descredenciamento. De resto, não temos nada na fila neste momento. Vale ressaltar que o Brasil está entre os três primeiros do mundo em número de vacinas já aprovadas.

Até que ponto a população deve se preocupar com possíveis efeitos colaterais das vacinas? A Anvisa já fez alertas para episódios raros da síndrome de Guillain-Barré e de alguns problemas com as grávidas.

Os efeitos colaterais possuem gradação em sua gravidade; dos mais simples, como dor no local da injeção e reação inflamatória discreta, até as reações de maior gravidade, com eventuais correlações com síndromes graves, como Guillain-Barré, e até mesmo ameaças à vida. Alguns casos de morte foram registrados no mundo entre gestantes.

O que vai sempre pesar é a análise do risco/benefício em relação ao número percentual de indivíduos vacinados. Essa conta tem sido favorável às vacinas aprovadas em todo o mundo. Mas ajustes têm de ser feitos o tempo todo. O que é dito hoje amanhã pode já não fazer sentido. O importante é termos um trabalho de monitorização que, no Brasil, está sendo feito pela Anvisa. Além disso, temos a Secretaria de Vigilância Sanitária e as vigilâncias sanitárias de Estados e municípios. No cômputo geral, essa relação de risco/benefício é francamente favorável à adesão da população à vacinação.

Três medicamentos já foram aprovados pela Anvisa para o tratamento da covid no Brasil, sendo que um já está registrado definitivamente (o Rendesevir) e os outros dois em uso emergencial. Além disso, há pedidos de autorização para uso emergencial para outros três remédios. Que balanço faz dessa questão dos medicamentos?

Até o presente momento, são treze estudos de análises de medicamentos e produtos biológicos, alguns deles já autorizados. São medicações de uso hospitalar, de custo mais elevado, mas que são importantes. Agora, a disponibilização desses medicamentos é uma atribuição do Ministério da Saúde.

E o que dizer da alteração de bulas de remédios originalmente destinados a outras doenças, mas que já estão sendo usados nos hospitais no tratamento da covid?

Alterações de bula, inclusão de nova indicação terapêutica ou exclusão, o que é mais raro, ou qualquer outro ajuste, partem de uma iniciativa do laboratório fabricante, mediante apresentação de documentação que sustente essa premissa. Essa documentação deve ser submetida para análise da agência. Só assim se pode executar uma alteração de bula. Até o momento não tivemos nenhum pedido.

A variante Delta, considerada mais contagiosa, já representa 23% dos casos de covid da Grande São Paulo e 45% na cidade do Rio. A entrada da Delta em vários países está fazendo muitos governos retrocederem de flexibilizações que vinham sendo adotadas. O que a Anvisa está fazendo para impedir a disseminação da Delta no Brasil?

Temos atribuições bem específicas de vigilância sanitária de fronteira. É que quando falamos em barreira sanitária vem logo à mente a imagem de um obstáculo, um muro. Mas não é isso. É um conjunto de procedimentos, processos, atividades e ações de pessoas. Até porque, num mundo globalizado, se formos buscar a barreira antiga, o tal do muro, talvez ela só exista hoje em três ou quatro países. Com a globalização, o vírus digital vem pela internet e o vírus biológico pela velocidade da turbina do avião.

Mesmo países rigorosos, com barreiras e procedimentos restritivos não conseguem impedir a entrada. Nenhum país é uma ilha. Estamos sem cruzeiros marítimos há algum tempo, mas e os gêneros alimentícios? Os insumos medicamentosos? Vamos barrar a entrada? Então, ser hermético na fronteira é impossível.

Pelos dados disponíveis no site do Ministério da Saúde, temos hoje no País 2% de casos de Delta. Não tenho dúvida de que estamos abaixo de outros países e isso pode ser colocado nas restrições impostas pela Anvisa a Reino Unido, Índia e África do Sul. Agora, as medidas estão em constante análise e podem ser revistas.

A Delta e também a Lambda (outra variante, identificada originalmente no Peru) estão no nosso radar. Tivemos até pedidos de fechamento do espaço aéreo do País, o que é totalmente irrazoável. O País é autossuficiente? Não é possível, não é factível, fechar o espaço aéreo, mas até essas ideias surgiram. Temos de adotar medidas possíveis, similares às executadas no mundo todo. Não posso passar cadeado e dizer ‘ninguém mais pisa aqui, não entra mais nada’. Iríamos padecer de outras necessidades. Temos feito o que foi usado no mundo todo, o máximo possível a se fazer.

A situação da covid no País melhorou enormemente se comparamos os números de hoje aos de abril, ápice da pandemia. No entanto, a situação ainda é muito pior do que a registrada ao longo de todo o ano passado. Ainda assim, muitos governadores vêm anunciando a abertura total, inclusive de eventos de grande público, já no mês que vem. Como vê essa decisão?

Particularmente, vejo essa questão com bastante cautela e preocupação. Entendo a flexibilização em maior grau diante de resultados mantidos. Gosto muito do tempo verbal particípio passado. Não gosto muito do gerúndio, que indica ação em andamento. Os números da covid-19 estão caindo, a situação está melhorando, leitos estão sendo disponibilizados, várias ações estão em andamento. Vou ficar mais tranquilo quando puder dizer ‘disponibilizado’, ‘controlado’ para uma flexibilização maior.

Lógico que os impactos na economia são brutais. Quem tem salário fixo, pede comida no aplicativo e ela chega. Mas quem precisa comprar o seu sustento tem dificuldade maior. Ainda assim, vejo com reserva essa flexibilização, principalmente de eventos de massa.

Como o senhor vê os trabalhos da CPI da Covid? As descobertas reveladas têm interferido no trabalho da Anvisa?

Não, não têm atrapalhado. A CPI faz suas ações, nos solicita documentos. Não há novidade nisso. A solicitação de documentos à Anvisa é constante, uma vez que, como agentes públicos, somos regidos pela Lei de Acesso à Informação. Todo dia tem demanda por documentos. É uma ferramenta antiga, conhecida e necessária, que vai cumprindo o seu papel com bastante naturalidade e tranquilidade. Não posso dizer que seja um problema.

Já como presidente da Anvisa, o senhor acompanhou o presidente Bolsonaro num evento em que estavam todos sem máscara e aglomerados. O senhor foi indicado ao cargo pelo presidente. Muitos críticos temiam que o senhor pudesse colocar a política acima de interesses técnicos da Anvisa e, por extensão, da população. Como encara essas críticas?

O agente público é vidraça, não pedra. O gestor público que espera que sua vidraça permaneça intacta tem uma expectativa pueril. A crítica sempre vem. Nessa questão específica que você citou, da máscara, não havia ainda um  estudo conclusivo, um posicionamento sólido da OMS sobre isso. Naquele evento, nem eu nem ninguém usava a tal da máscara. Mas, de lá para cá, no avançar natural dos conceitos sanitários de prevenção da pandemia, toda a diretoria tem atuado de acordo com esses conceitos de uso de máscara, distanciamento social.

Deixei bastante claro na CPI que eu e o presidente temos posicionamentos e opiniões divergentes. Mas ainda que eu fosse uma pessoa disposta a impor tendência ou conduta, eu não conseguiria por uma razão muito simples: servidores concursados são eminentemente técnicos, e são eles os responsáveis pelos posicionamentos técnicos. Sobre o servidor da casa não é possível haver pressão porque, com toda razão, ele se recusaria a assinar um parecer que fosse contra a boa técnica. Todas as decisões são afinadas com a ciência, não tem como bloquear ou aprovar algo sem estribo na área científica. Na esfera dos diretores, a diretoria é colegiada, cada um vota como entende.

Os diretores são indicados pelo presidente que está sentado na cadeira naquele momento. Quando cheguei, há exatamente dois anos, todos os diretores tinham sido indicados por Dilma (Rousseff), (Michel) Temer e (Luiz Inácio) Lula. Teríamos que inferir que eles vão impor a forma de pensar daqueles presidentes? Claro que não. O diretor-presidente é o último a votar, quando o resultado já está definido.

O quanto o posicionamento negacionista do presidente Jair Bolsonaro e também a divulgação de fake news pelo governo interferem na Anvisa?

Falei antes do desafio das fake news, do quanto é ruim, de como representa um problema para quem está no combate à pandemia. Óbvio que qualquer posicionamento contra o que a ciência vem comprovando representa no mínimo uma criação de dúvida. ‘Poxa, eu confio tanto naquela pessoa, fiquei na dúvida.” Tenho buscado não fazer comentários sobre agentes políticos, prefeitos, governadores, presidente. Primeiro porque estaria tentando tomar o emprego dos analistas políticos e dos jornalistas, e esses profissionais não podem fazer o meu trabalho. Segundo porque considero antiético e acho que soma confusão ao sistema. Mas não vou fugir da pergunta. Repito o que disse na CPI: acredito no convencimento, na pessoa ser convencida através da argumentação, da lisura, da transparência, da constância. Sem cavalo de pau, assinando o que escreve e escrevendo o que fala. Ainda que agentes políticos tenham discursos e posicionamentos diferentes, o que a gente vê nas ruas são as pessoas de máscara, o álcool gel em cada mesa de restaurante. Vemos que isso convenceu as pessoas. Nosso estribo é a ciência.

Muitos negacionistas são contrários à vacina. O argumento mais frequente é de que não poderia haver vacinas seguras desenvolvidas em tão pouco tempo. Como responde a essa argumentação?

As vacinas não tiveram um desenvolvimento rápido, do zero. São plataformas vacinais que já vinham sendo desenvolvidas de forma acelerada e foram ajustadas ao novo coronavírus. Estamos vivendo a maior pandemia de todos os tempos, não é razoável usar este argumento para denegrir as vacinas. Vamos deixar de bobagem e vamos vacinar. Sem shopping de vacina. A vacina boa é a que está no posto de saúde e vai para o seu braço. Todas elas estão aprovadas pela Anvisa em consonância com a OMS.

Temos de vacinar e contagiar amigos e parentes com informação sobre a vacina, convencer outras pessoas a se vacinarem. Agora, isso não quer dizer que o problema esteja resolvido. Nenhuma vacina, nem hoje nem nunca, tem uma eficácia de 100%. A infecção pode ocorrer. Não dá ainda para abrir mão da máscara, precisamos manter o distanciamento social, fugir das aglomerações evitáveis, manter os hábitos de higiene. A guerra está melhor, mas ainda não está vencida. Vamos guardar a comemoração. A hora não é agora.

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