Diretor do Inca é exonerado sem aviso

Luís Fernando Bouzas prestou serviço ao instituto durante 33 anos e soube de exoneração por meio de um funcionário; associação critica nomeação de nova diretora sem consulta ao corpo técnico

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

03 Outubro 2016 | 12h54
Atualizado 03 Outubro 2016 | 21h17

RIO -Em um ano e quatro meses, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) teve a terceira troca de comando e quatro diretores. Na quinta-feira passada, o então diretor-geral, Luís Fernando Bouzas, foi exonerado, após ocupar o cargo por 11 meses. Com 33 anos de serviços prestados ao Inca, ele não recebeu nenhum comunicado sobre a demissão. Trabalhava normalmente quando um funcionário avisou que sua substituição havia sido publicada no Diário Oficial, em portaria assinada pelo ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha. 

Dividido em 18 endereços e com cerca de 10 mil pacientes matriculados, o Inca, além de prestar assistência e fazer pesquisas, é responsável pela formulação de políticas públicas de combate ao câncer. Nos últimos anos, começou a perder esse protagonismo. Em 2014, a instituição deixou de ter representante no colegiado gestor do Ministério da Saúde. No ano seguinte, por determinação do Tribunal de Contas da União (TCU), teve de demitir cerca de 600 funcionários contratados pela Fundação Ary Frauzino, prestadora de serviços ao Inca.

Verbas. No ano passado, por causa do atraso na aprovação do orçamento da União, o Inca ficou sem verbas para compras trimestrais. Sumiram do almoxarifado insumos básicos como gaze e algodão. Cirurgias foram adiadas e exames, suspensos. 

O então diretor de Assistência, Reinaldo Rondinelli, assumiu a direção-geral do Inca para curta gestão de seis meses. Foi substituído em dezembro por Bouzas, que também vinha enfrentando crises. Em julho, técnicos ameaçaram entrar em greve porque a redação do Projeto de Lei da Câmara 33/2016 provocaria cortes de 40% nos salários. A atuação de Bouzas para evitar os descontos recebeu críticas de associações de servidores. Recentemente, a troca do sistema de aquecimento de água deixou pacientes e acompanhantes sem banho quente nos meses de inverno.

Indicação. Para seu lugar, foi nomeada a médica Ana Cristina Pinho Mendes Pereira, funcionária de carreira do Inca. A indicação dela é atribuída ao PP, ao qual é filiado o ministro da Saúde, Ricardo Barros.

Ana Cristina é formada em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com especialização em anestesiologia. Trabalha no Inca há 19 anos e estava à frente da Residência em Anestesiologia da instituição. Ela presidiu a Sociedade de Anestesiologia do Estado do Rio (Saerj) e foi médica do Hospital Municipal Miguel Couto. Procurada, não quis falar.

A exoneração de Bouzas e a escolha de Ana Cristina foram classificadas como arbitrárias pela Associação dos Funcionários do Inca (Afinca), em nota. “Além da deselegância com que a mudança foi feita, ela é surpreendente porque Luiz Fernando tinha menos de um ano no cargo. Pior de tudo é assistir a uma exoneração e a uma nomeação para a direção do Inca sem que o corpo técnico fosse nem sequer consultado. Como ficam as metas e os acordos previamente estabelecidos com os servidores? A Afinca lamenta o ocorrido e reafirma o compromisso de seguir lutando em defesa do Inca e de seus funcionários, com democracia e transparência”, diz o texto.

Seis perguntas para Luís Fernando Bouzas, ex-diretor-geral do Instituto Nacional do Câncer (Inca)

1. Como o senhor recebeu a notícia da sua exoneração?

Foi logo cedo. Funcionários encarregados de ler o Diário Oficial viram a decisão, antes das 8 da manhã. Daí a notícia se espalhou. Antes das 8h30, liguei para o secretário de Atenção à Saúde (Francisco de Assis Figueiredo), que disse estar tão surpreso quanto eu. Liguei então para o ministro Ricardo Barros, que disse não saber o motivo. No início da tarde, a chefia de gabinete enviou a resposta. Seria para acomodar a bancada do PP. E o nome escolhido pelo governador interino, Francisco Dornelles, seria da colega anestesista que me substituiu.

2. O senhor ficou 10 meses no cargo. Seu antecessor também ficou pouco...

Isso é ruim para a instituição, que é referência na área de câncer no País. O instituto não pode ser vulnerável às mudanças de governos, às necessidades de aliados. Sem querer desmerecer minha sucessora, ela não tem nenhuma experiência de gestão. O Inca é um grande complexo: 19 endereços, cinco hospitais. Um centro de referência para tratamento, treinamento e pesquisa sobre câncer.

3. Nos últimos dois anos, houve vários relatos de problemas no Inca. Havia dificuldades de atendimento, por exemplo...

O Inca enfrentou dois problemas grandes. Quando assumimos, havia problemas no abastecimento, dificuldades de orçamento. Conseguimos evitar novos cortes de verbas e, aos poucos, retomar as compras, que estavam paralisadas.

4. Com a saída do ex-ministro Marcelo Castro, que o nomeou, o senhor não imaginava que seria exonerado?

Claro. Mas desde então passaram-se cinco meses, nenhum sinal de descontentamento foi enviado. Ao contrário.

5. O instituto é referência para pesquisa de uma das doenças que mais matam no Brasil.

O câncer é a segunda causa de morte. A estimativa é de que, a partir de 2020, ela seja a primeira, superando as doenças cardiovasculares. 

6. O senhor fica no Inca?

Sou servidor público. Retorno ao meu posto, no Centro de Transplante de Medula Óssea. / LÍGIA FORMENTI

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