Michael Kirby Smith for The New York Times
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Diretriz de agência dos EUA reforça que não há droga comprovada no tratamento contra coronavírus

Conclusão basicamente reforça posição contrária à promoção pelo presidente Donald Trump de determinados remédios sem evidências que apoiem seu uso

Denise Grady, The New York Times

22 de abril de 2020 | 11h09

A agência federal dirigida pelo Dr. Anthony Fauci expediu diretrizes na terça-feira, 21, informando não existir nenhuma droga comprovada para tratamento de pacientes de coronavírus, conclusão que basicamente reforça posição contrária à promoção pelo presidente Donald Trump de determinados remédios sem evidências que apoiam o seu uso.

O informe repercute o que os médicos frustrados já sabem: não existe um conhecimento suficiente sobre esse vírus extremamente infeccioso e nem como combatê-lo.

Um painel de especialistas reunidos pelo centro de pesquisa dirigido pelo Dr. Fauci, o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, concluiu que quando possível, um tratamento com remédios deve ser oferecido como parte de um ensaio clínico de modo que dados possam ser coletados para determinar se o tratamento funcional.

Num briefing na Casa Branca, Trump disse não ter examinado as diretrizes emitidas pelo painel. Fauci que com frequência participa desses briefings, não estava presente na terça-feira.

O médico tem resistido ao entusiasmo do presidente com a hidroxicloroquina e a cloroquina, remédios para malária, tendo algumas vezes discordado do presidente publicamente.

Há semanas ele vem reafirmando que inexistem evidências científicas apoiando qualquer tratamento potencial e o novo documento, que inclui conclusões especializadas de mais de uma dezena de agências federais e grupos profissionais, enfatiza a posição do médico.

Numa entrevista em separado antes das novas diretrizes serem divulgadas, Fauci disse que há muitos ensaios clínicos em curso. “No momento é prematuro dizer que algo será um sucesso. Nada que seja impactante”.

Ensaios clínicos são monitorados por comissões de segurança que podem interromper um teste já no início no caso do tratamento mostrar um efeito poderoso. Até agora nenhum dos ensaios foi interrompido, disse Fauci.

Especialistas coletaram dados insuficientes para recomendar o uso ou não de qualquer droga ou medicação antiviral que afete o sistema imunológico em pacientes com covid-19 com sintomas leves, moderados, graves ou críticos, de acordo com as diretrizes expedidas pelo Dr. Fauci.

A decisão do National Institutes of Health, quanto a recomendar ou não um tratamento, incluiu o antiviral Rendesivir, que vem sendo objeto de vários ensaios clínicos nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. Dados também faltam quanto ao uso do chamado plasma convalescente doado por sobreviventes do coronavírus para oferecer anticorpos que ajudam os pacientes a combaterem a doença.

Mas o painel de especialistas se manifestou especificamente contra diversos tratamentos, salvo se forem objeto de um ensaio clínico. Um deles é a combinação da hidroxicloroquina com o antibiótico azitromicina, que Trump tem promovido apesar da falta de evidências de que funcionem.

Essas drogas devem ser usadas somente em ensaios clínicos “por causa do seu potencial de toxicidade”, afirmam os especialistas.

O painel também alertou para o caso da hidroxicloroquina e a cloroquina, mesmo oferecida sem a azitromicina, afirmando que os pacientes tratados com esses medicamentos devem ser monitorados quanto aos efeitos adversos, particularmente alterações do ritmo cardíaco, chamado intervalo QTC prolongado.

Um estudo com 368 pacientes a cargo do Departamento de Assuntos de Veteranos, divulgado na terça-feira, mas ainda não revisto por pares, conclui que a hidroxicloroquina, com ou sem a azitromicina, não evitou a necessidade de uso de ventiladores pelos pacientes. E a hidroxicloroquina sozinha foi associada a um risco aumentado de morte.

Mas este não foi um teste controlado e os pacientes que receberam os medicamentos estavam em estado mais adiantado da doença. Segundo os autores do estudo, “estas conclusões ressaltam a importância de se aguardar os resultados de estudos randomizados e controlados em curso, antes de uma adoção ampla dessas drogas.

Na terça-feira, na Casa Branca, o Dr. Stephen Han, comissário da FDA - Food and Drug Administration (agência reguladora de alimentos e medicamentos), descreveu o estudo como pequeno e retrospectivo, afirmando que “A FDA vai exigir dados de ensaios clínicos randomizados”.

Mesmo assim, “é algo que um médico necessitará considerar ao decidir prescrever a hidroxicloroquina”.

O painel do National Institutes of Health também opinou que a combinação do lopinavir e ritonavir, para Aids (comercializada com o nome Kaletra) e outras drogas conhecidas como inibidoras da protease da Aids, não deve ser oferecida fora dos ensaios clínicos porque os dados até agora não têm mostrado nenhum benefício e em alguns casos surgem efeitos desfavoráveis.

Drogas conhecidas como Interferon também não devem ser usadas fora dos testes, afirmou o grupo que assessora o instituto de doenças infecciosas, porque não ajudaram pacientes com outras doenças de coronavírus, como a síndrome respiratória aguda grave (SARS) e a síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS). A mesma recomendação se aplica a uma classe de drogas chamada inibidores de Janus Kinase porque são imunodepressores.

As diretrizes baixadas ainda trazem orientação detalhada para os provedores de tratamento médico sobre o cuidado com crianças e grávidas com a infecção e o uso de oxigênio, ventiladores e drogas esteroides em pacientes muito graves.

Todas as recomendações serão atualizadas à medida que novos dados surgirem. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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