Miguel Schincariol/AFP
Miguel Schincariol/AFP

Discurso coerente e bom senso podem convencer a maioria; leia análise

Negacionismo estruturado da pandemia, como estratégia de comunicação, só funciona por se aproveitar da inevitável tendência gregária do ser humano

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2021 | 14h00

Existem dois comportamentos principais que negam a existência da pandemia. Um é o macabro movimento estruturado, com propósitos e métodos, estratégias de comunicação, tudo para embaralhar as informações sobre a covid-19. Ele não tem um alvo fixo, uma vez que a realidade por vezes se impõe de tal forma que se torna impossível continuar negando o que é evidente.

Inicialmente tentaram negar a existência da doença; posteriormente sua gravidade; e agora negam a eficácia dos meios de preveni-la. Os agentes desse negacionismo nem precisam estar convencidos de suas crenças irracionais – embora muitos estejam. Suas motivações muitas vezes são meramente políticas.

Tal mecanismo é responsável por mais mortes do que podemos calcular, mas ele só funciona por se aproveitar da inevitável tendência gregária do ser humano. Nosso cérebro é programado para buscar a relação com os outros, para nos inserir no grupo e não nos permitir ficar isolados.

Sentir-se excluído dispara um alarme em nós já que isso era uma condenação à morte para nossos antepassados. Então, quando grupos conseguem ligar determinadas crenças a sua pretensa ideologia, há uma tendência muito forte a que todos aqueles que se identificam com o grupo acatem tais crenças. Afinal ela passa a fazer parte da identidade daquele grupo, e não aderir a elas seria pôr em risco essa sensação de pertencimento. 

Felizmente a maioria das pessoas não está nos extremos. Há os que se identificam mais com um lado ou com outro, mas não a ponto de pespegar imediata e totalmente as convicções de seu grupo como distintivos a ser exibidos. Elas se inclinarão a acreditar mais em determinadas mensagens, mas não são refratárias às evidências.

São elas o alvo de nossos esforços. Os extremistas radicais dificilmente abandonarão sua irracionalidade. Mas se insistirmos num discurso público coerente, com bom senso e sem apelar a extremos opostos, refrearemos ao menos sua influência perniciosa sobre a maioria das pessoas. O que, considerando tudo, é uma conquista e tanto.

* É psiquiatra e colunista do Estadão

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