ARI FERREIRA | ESTADAO CONTEUDO
ARI FERREIRA | ESTADAO CONTEUDO

Do orfanato para 15 anos com o crack

Auxiliar de limpeza relata uma vida ligada à Cracolândia, com tentativas de saída e recaída; após reencontrar a família, ele ainda busca outro destino

Fabiana Cambricoli, Impresso

10 Junho 2017 | 16h37

Aos 32 anos, o auxiliar de limpeza Fernando José Mendes Junior pode dizer que teve quase metade da vida consumida pelo crack. Passou a viver na rua aos 17, após deixar o orfanato onde morava em Sorocaba, no interior de São Paulo. O abrigo para menores havia sido seu lar desde os cinco anos, quando os pais o abandonaram.

Ao sair do orfanato no interior, o jovem se mudou para as ruas da capital e logo se estabeleceu na região da Cracolândia. Ao contrário de outros dependentes químicos, que costumam iniciar o consumo de drogas com substâncias “menos pesadas”, como álcool ou cigarro, Mendes Junior de cara já experimentou o mesclado, mistura de crack com maconha.

A queda foi rápida. O rapaz passou a traficar pequenas quantidades de droga para alimentar o próprio vício. Em uma das vezes, foi pego pela polícia. Ficou um ano e oito meses preso. Foi o único período dos últimos 15 anos que ficou longe da Cracolândia.

“Saí da cadeia sem nada e voltei a usar. Tem gente que pensa que quem vende droga tem dinheiro para ostentar. Isso é para quem é traficante de verdade. Quem é usuário não tem outro objetivo na vida: usa tudo que ganha para consumir mais”, conta.

Em mais de uma década nas ruas, ele aprendeu a baixar a cabeça para os chefes do tráfico, apanhou da polícia e teve de fugir de brigas com outros usuários. “Uma vez estava com quatro pedras na mão e teve um grupo que me cercou querendo me bater para pegar o crack. O cara quando está na fissura pode até matar para conseguir a pedra.”

Oportunidade. Em maio do ano passado, depois de uma sequência de tragédias e abandonos, ele se agarrou a uma esperança: uma equipe de assistentes sociais da Prefeitura que faz atendimento de dependentes da região da Cracolândia conseguiu localizar, no Jabaquara, zona sul, a família de Mendes Junior.

Um encontro entre mãe e filho foi marcado na tenda do extinto Programa De Braços Abertos, na Rua Helvétia, onde, até o mês passado, se concentrava o fluxo de usuários. “Eram 8 horas da manhã e eu já estava lá esperando, ansioso. Ela chegou às 15 horas. Veio ela e minhas três irmãs, uma delas eu nem sabia que existia porque nasceu depois de mim”, conta ele.

Apesar da mágoa por ter sido abandonado, Mendes Junior decidiu voltar a morar com a família, após a mãe explicar que havia sido o pai, já morto, o responsável pela decisão de deixar o menino no orfanato. “Ele chegava em casa fora de si e violento”, disse a mãe a ele.

A euforia por retomar o contato com a família e a esperança de uma vida diferente, porém, duraram pouco. Com crises de abstinência pelo crack após mais de uma década de dependência, Mendes Junior deixou a casa da mãe em janeiro de 2017 e voltou para a Cracolândia em busca da droga.

Em 22 de maio, um dia depois da última operação policial na região, o rapaz cansou novamente do sofrimento das ruas e decidiu se internar. Foi encaminhado para a comunidade terapêutica Santa Carlota, pertencente ao Instituto Bairral, em Itapira. “Pensar em desistir (do tratamento), eu penso todo dia. Mas aí converso com os colegas que passam ou já passaram pelo mesmo que eu estou passando, e um vai dando força para o outro”, diz.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.