Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Doações a comunidades pobres despencam, apesar de lockdown e nova alta de mortes pela covid

Em Paraisópolis, número de marmitas distribuídas caiu de 10 mil para menos de 800; na São Remo, do lado da USP, e Rocinha, no Rio, viram auxílio desaparecer

Gilberto Amendola e Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2021 | 15h00

SÃO PAULO E RIO - Desde o início da pandemia, lideranças da comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo, organizaram uma distribuição diária de marmitas no horário do almoço. No ano passado, a ação chegou a distribuir 10 mil 'quentinhas' por dia. Hoje, no pior momento da covid-19 no Estado e no Brasil, varia entre 500 e 800 marmitas. "As doações caíram drasticamente. Quase desapareceram. Estamos invisíveis nesse pior momento da pandemia", conta o ativista Gilson Rodrigues.

"A fila da marmita só tem aumentado", diz ele. "Com a falta de doações, alguns dias não tem arroz ou feijão. Não tem carne, só salsicha e ovo. Tem dias que dá até briga na fila. Brigar por comida é uma coisa muito triste. A realidade aqui é muito pior. No home office, as pessoas acham que a fome está distante. Vivemos um momento de pouca solidariedade". 

A situação de Paraisópolis é semelhante à de outra comunidade importante da capital paulista: Heliópolis. A região foi alvo de pesquisa, feita pela Unifesp, a a União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (Unas) e o Observatório De Olho Na Quebrada, sobre alimentação na pandemia.

O recorte do estudo abrange até o mês de novembro. Naquele período, 62% dos moradores já tinham dificuldade de comprar alimentos. Além disso, 73% tinham dificuldade de adquirir botijão de gás; 55% já não podiam comprar produtos de higiene e 58% com dificuldades para se abastecer de álcool em gel ou líquido e água sanitária. 

Os números já eram dramáticos no ano passado -  com 81% dos entrevistados se mostrando preocupados com a possibilidade "dos alimentos acabarem antes de  possibilidade de comprar mais comida". A mesma pesquisa aponta que na casa de 22% de moradores de Heliópolis e da região faltaram alimentos em 2020 -  65% precisou diminuir a quantidade de alimentos nas refeições.

"No ano passado, entregamos 41 mil cestas básicas, que foram doadas por diversos setores. Hoje, em março, recebemos até agora 126 cestas.  É provável que a situação piore ainda mais em relação ao final do ano passado.  Acho que ninguém esperava que a pandemia fosse durar tanto. No ano passado, o setor privado e financeiro ajudou bastante. Esse ano, ainda estamos buscando saídas", falou a líder comunitária Antonia Cleide Alves.

Na comunidade São Remo, ao lado da USP, as doações praticamente não existem mais. "Caíram em 100%. Na verdade, recebemos 40 cestas básicas de uma ONG, mas foi a única vez esse ano. Estamos nos mobilizando, nos cadastrando, mas, por enquanto, não existe nada muito concreto. A comunidade não foi atendida nos últimos meses", disse  Rosângela do Nascimento Ferreira, 44 anos,  Associação Poliesportiva São Remo.

Rosângela disse que, no ano passado, a comunidade recebeu doações generosas do Instituto Butantan, e que com elas foi possível atravessar 2020.  "Mas agora, a situação piorou. Muitas famílias estão sem mistura para o almoço ou para comprar o gás. A alimentação está muito cara. As pessoas voltaram a comprar fracionado, quatro linguiças, quatro salsichas", contou. Como as doações estão rareando, Rosângela teme ficar na posição desconfortável  "de ficar escolhendo quem deve ou não receber um auxílio". 

Maria da Conceição Andrade Paganeli, líder da Comunidade Alojamento (Nova Ferraz), na Cidade Tiradentes, na zona leste, conta que o cenário dos últimos meses é o pior possível. "As pessoas chegaram a se aglomerar na sede da nossa entidade procurando cestas básicas e comida. Infelizmente, não tenho como atender. Tudo piorou muito. Precisamos que poder público e particulares venham nos ajudar com o básico", falou.

Juçara Terezinha Zottis, liderança na Associação Cantareira, contou que todo dia recebe ligações e visitas de pessoas procurando por doações e comida. "Estão todos desesperados. A gente tenta colocar em filas, procurar junto às igrejas, as iniciativas públicas ou particulares, mas não encontramos mais doações ou programas", disse.

Juçara tem uma percepção do que vem acontecendo e resultou na diminuição da solidariedade: " O pessoal parece que se acostumou. O processo da pandemia fez com que as pessoas se acomodassem em um cenário que está posto. As pessoas estão deixando de se sensibilizar com a tragédia que estamos vivendo", completou.

Governo diz apostar em distribuição de alimento e restaurante popular

A Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo afirma que, desde o início da pandemia da Covid-19, promove ações para auxiliar moradores de comunidades e favelas no enfrentamento à doença. Segundo a Secretaria,  o Programa Alimento Solidário distribuiu mais de 1,5 milhão de cestas de alimento para famílias em situação de extrema pobreza nas 6 Regiões Metropolitanas do Estado. 

Em nota, o Governo também fala sobre as iniciativas envolvendo o Bom Prato. De acordo com a nota, o Programa Bom Prato, ligado à Secretaria de Desenvolvimento Social, já serviu  mais de 33 milhões de refeições, sendo mais de 670 mil de forma gratuita para a população em situação de rua e cadastrada pelos municípios.

Já a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania, informou que o projeto Rede Cozinha Cidadã continua sendo executado durante a situação de emergência decretada na cidade. Até o momento já foram distribuídas desde 23 de abril de 2020 a 11 de março deste ano 222 mil litros de água e 2.295.035 refeições, em parceria com os restaurantes credenciados.

Ainda de acordo com a Prefeitura, o programa Cidade Solidária já doou desde o início da pandemia 2.428.976 cestas básicas para ajudar pessoas em situação de extrema vulnerabilidade. A população pode doar cestas de alimentos e de higiene e limpeza em oito pontos de drive-thru distribuídos na cidade e também doar dinheiro para um fundo que viabilizará a aquisição de cestas. Outras informações podem ser encontradas em www.spcidadesolidaria.org.

No morro carioca, ajuda também desapareceu

Considerada uma das maiores comunidades do País, a Rocinha, com pelo menos 100 mil habitantes, também enfrentou dificuldades para manter o programa de distribuição de cestas básicas. O coletivo A Rocinha Resiste distribuiu cestas básicas regularmente para 1,5 mil famílias entre março e setembro, num total de 6 toneladas de alimento. No Natal, conseguiu fazer uma distribuição extra de frangos. Desde então, mais nada.

Segundo o último boletim epidemiológico da prefeitura, a Rocinha é considerada hoje uma área administrativa de alto risco de transmissão, ao lado de Copacabana e Lagoa (que engloba Ipanema e Leblon), na zona sul. Desde março de 2020, quando a epidemia começou, foram registradas 64 mortes na comunidade.

“Quando começamos a fazer a distribuição das cestas básicas, conseguimos três meses de financiamento, cerca de R$ 350 mil”, contou Magda Gomes, coordenadora do coletivo. “Conseguimos esticar esse dinheiro até julho e depois, no fôlego, até setembro. Mas não dava mais. No Natal fizemos uma última distribuição.” Segundo ela, as doações de dinheiro foram sendo reduzidas até acabar de vez. “As pessoas não tinham segurança do rumo que a pandemia ia tomar”, explicou. “Quem doava R$ 10 mil passou a doar R$ 1 mil, não tinha como continuar.”

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