FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Doença confundida com Alzheimer e Parkinson pode ser curada com cirurgia

Hidrocefalia de pressão normal (HPN) atinge apenas pessoas com mais de 65 anos e é pouco conhecida da população e até de alguns médicos

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2018 | 02h00

SÃO PAULO - O juiz aposentado Albano Giannini, de 78 anos, levava uma vida normal e ativa até, no início de 2017, começar a sentir dificuldades para andar. “Eu tentava levantar e caía. Meu filho tinha até de me dar banho. A cada dia que passava, eu só piorava. Ia a médicos e nenhum me dava um diagnóstico. Para mim, eu estava morto”, conta. Sem encontrar respostas, a família passou a desconfiar do início de um quadro de Parkinson.

No caso do aposentado Paulo Pires de Oliveira Camargo, de 79 anos, a dificuldade de locomoção veio acompanhada de incontinência urinária, perda de memória e confusão mental. Ele foi a cerca de 15 médicos e, entre os diagnósticos levantados, estava o temido Alzheimer

As duas doenças são neurodegenerativas e não têm cura, o que significa que os pacientes poderiam somente tomar medicamentos para minimizar os sintomas e retardar a progressão. Como os diagnósticos não eram precisos, Giannini e Camargo, ambos incentivados pelas famílias, decidiram procurar um neurocirurgião. Descobriram que tinham, na verdade, hidrocefalia de pressão normal (HPN), patologia que leva a um acúmulo de líquido no cérebro, provocando sintomas que podem ser confundidos com doenças comuns da velhice. Também conhecida como hidrocefalia do idoso, por atingir apenas pacientes acima de 65 anos, a HPN afeta cerca de 120 mil brasileiros, mas ainda é pouco conhecida da população e até de alguns médicos.

A maior diferença entre a HPN e doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer, é que a primeira pode ser totalmente revertida com a implantação de uma válvula no cérebro, que drena o líquido em excesso e faz o paciente recuperar todas as funcionalidades, muitas vezes logo após a cirurgia. Dados da literatura científica mostram que 75% dos pacientes submetidos à operação têm melhora significativa em até um ano.

“Dois dias depois que operei, já tive alta e saí do hospital andando bem. Não acreditei quando me levantei da cama e estava caminhando. Parecia um milagre”, conta Giannini, que teve a válvula implantada há cerca de quatro meses. “Hoje eu levanto de manhã, faço café, desço para fazer academia, ando a Avenida Paulista toda, vou aos bancos, tenho uma vida normal”, diz.

Muitos pacientes com HPN, porém, não têm a mesma sorte de ter o diagnóstico correto. Camargo, por exemplo, demorou dois anos até descobrir a doença. Chegou a ficar em uma cadeira de rodas. “Eu já estava desacreditado de tudo”, relembra.

Segundo o neurocirurgião Fernando Gomes Pinto, chefe do grupo de hidrodinâmica cerebral do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), é comum pacientes demorarem anos até terem o diagnóstico. “No HC, por exemplo, os pacientes chegam até a gente com um tempo médio de sintomas de dois a três anos”, relata ele, que apresentou palestra sobre reabilitação neurológica para pacientes com doenças como HPN na 15.ª edição do Brain Congress, evento sobre cérebro, emoções e comportamento.

Confusão

Pinto diz que a confusão de diagnósticos se dá porque alguns dos sintomas da HPN são comuns a muitas doenças do idoso. Além disso, é raro o especialista para o caso – neurocirurgião ou neurologista – ser o primeiro consultado.

Neurocirurgião do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e da clínica DFVNeuro, Eduardo Vellutini também atende pacientes que, antes de saber da HPN, receberam outros diagnósticos. “Não é uma doença tão rara, mas, na fase inicial, alguns médicos confundem, seja porque observam uma marcha [caminhar] típica do parkinsoniano, como se os pés estivessem grudados no chão, seja porque há um quadro de demência parecido com o do Alzheimer”, destaca. Outras doenças que podem confundir são depressão, neuropatia diabética e acidente vascular cerebral. 

Os especialistas ressaltam que uma diferença importante é que, ao contrário do Parkinson, a HPN não provoca tremores. Outra divergência é que o paciente com Alzheimer não tem consciência da sua confusão mental, mas o de HPN, sim. 

 

Válvula

Cientistas brasileiros estão na fase final do desenvolvimento de uma válvula nacional mais moderna para o tratamento da HPN. De acordo com o neurocirurgião Fernando Gomes Pinto, chefe do grupo de hidrodinâmica cerebral do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e professor da Faculdade de Medicina da USP, existem hoje dois tipos de válvula disponíveis no mercado: a de pressão fixa e a programável.

A segunda permite que o médico acompanhe e regule a pressão da válvula definindo, assim, o quanto de líquido deve ser drenado. No caso da válvula de pressão fixa, se o volume de líquido drenado é superior ou inferior ao necessário, a única forma de reparar é realizando uma nova cirurgia. "A válvula programável é muito melhor para o paciente, mas, como todos os fabricantes do produto são de fora do País, o custo é de R$ 10 mil e ela não é coberta pelo SUS. Somente a válvula de pressão fixa, que custa R$ 1 mil, é oferecida na rede pública", relata o neurocirurgião.

Diante do cenário, Pinto e outros pesquisadores do HC estão desenvolvendo, em parceria com a empresa HPBio, uma válvula programável de fabricação nacional. "Já a utilizamos em alguns pacientes e ela tem apresentado bons resultados. Pode ser que já esteja disponível no mercado neste ano", conta o médico. 

Relato

"Foi no final de 2014 que começaram os sintomas. Primeiro eu andava bem devagarzinho. A impressão, quando levantava, era de que eu ia cair. Os primeiros médicos falaram que era labirintite. Alguns colocavam na conta da diabete: diziam que eram sintomas de neuropatia diabética.

Fui piorando e passei a usar bengala. Na sequência, fui para a cadeira de rodas. Fiquei mais de dois anos assim. Comecei a ter incontinência urinária também. Quando eu viajava da minha casa, em São Paulo, para Peruíbe (litoral do Estado), tinha de parar cinco ou seis vezes no caminho para trocar a fralda. Era horrível. Com o passar do tempo, fui ficando meio aéreo também. Não conversava, não sorria, estava um moribundo.

Continuei indo nos médicos. Foram mais de 15. Fiz uma pancada de exames, mas ninguém me dava um diagnóstico preciso. Um deles falou para a minha família que podia ser Alzheimer. Outros disseram que era depressão. Cheguei a tomar antidepressivo, mas também não melhorava. Já estava desacreditado de tudo. Achava que não adiantava fazer mais nada comigo. Já estava no “bico do corvo”.

Minha geriatra, então, botou gás para eu procurar o doutor Fernando [Gomes Pinto, neurocirurgião]. Foi ele que me falou da hidrocefalia [de pressão normal] e do tratamento por meio da colocação da válvula.

Me internei no dia 13 de julho de 2017. Lembro que dois dias depois da cirurgia era meu aniversário, e foi como se tivesse surgido uma nova pessoa. Saí do hospital três dias depois da internação, já andando sem bengala. Eu olhava e não acreditava naquilo.

Agora, voltou tudo ao normal. Eu vou daqui para Peruíbe sem precisar usar fralda, voltei a dirigir, tenho personal trainer três vezes por semana, faço compras, levo o cachorro no veterinário – tudo sou eu."

Paulo Pires de Oliveira Camargo, de 79 anos, aposentado

​Perguntas e Respostas

1. O que é a hidrocefalia de pressão normal (HPN)?

A doença caracteriza-se por um acúmulo de líquido cefalorraquidiano na cavidade craniana, acompanhado de aumento dos ventrículos cerebrais. Ela atinge sobretudo pessoas acima dos 65 anos.

2. Quais são as causas?

Cerca de metade dos casos está associada a traumas ou infecções na cabeça. A outra metade não tem causa definida.

3. Quais são os principais sintomas?

Dificuldade para andar (o paciente perde o equilíbrio e tem dificuldades para se manter em pé e dar a passada, como se os pés estivessem colados ao chão), incontinência urinária e demência (perda de memória e confusão mental).

4. Quais são as diferenças entre a HPN e hidrocefalia na criança?

 

Na criança, a doença causa um aumento da pressão intracraniana e um consequente crescimento da cabeça, o que não acontece no adulto.

5. Como é feito o diagnóstico?

É feito por avaliação clínica e exames de imagem que mostram os ventrículos aumentados por causa do acúmulo de líquido. Para a confirmação do diagnóstico e da possibilidade de sucesso da cirurgia de implantação da válvula, é realizado ainda um exame chamado TAP teste, um tipo de punção lombar por meio do qual um volume de líquido cefalorraquidiano é retirado. Se o paciente apresentar melhora nos sintomas de HPN três horas após o teste, ele é forte candidato à cirurgia.

6. Como é o tratamento?

Os sintomas podem ser revertidos com a implantação de uma válvula na parte de trás da cabeça que drena o líquido acumulado. A operação dura de 40 minutos a 1 hora.

 

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