Doenças mentais isoladamente não tornam as pessoas mais violentas

Maior tendência de pacientes ao abuso de drogas e álcool é motivador de crimes, diz estudo

Reuters

09 Setembro 2010 | 21h48

LONDRES - Doenças mentais como esquizofrenia ou transtorno bipolar, isoladamente, não tornam as pessoas mais violentas, mas a tendência de pessoas com problemas psiquiátricos ao abuso de drogas e álcool, segundo estudo publicado na revista científica Archives of General Psychiatry Journal.

Especialistas têm tentado há muito tempo compreender a ligação entre doenças mentais e violência, e esses resultados sugerem que a percepção generalizada da sociedade de que transtornos psiquiátricos tornam as pessoas mais propensas a crimes violentos é falha.

Pesquisadores da Grã-Bretanha e da Suécia, que estudaram as taxas de crimes violentos entre pessoas com transtornos mentais graves, disseram que a maior incidência de abuso de substâncias é o verdadeiro motivo.

Eles descobriram que, enquanto as taxas de crimes violentos é maior entre pessoas com transtorno bipolar e esquizofrenia do que na população em geral, os índices são similares entre pessoas com doença mental e aquelas que abusam de substâncias, mas não têm problemas mentais.

Quando os resultados foram reavaliados para desconsiderar a influência de álcool ou drogas ilegais, as taxas de violência entre os pacientes psiquiátricos pouco mudaram em relação aos níveis da população em geral, afirmaram os estudiosos.

"O abuso de substâncias é realmente o mediador-chave de crimes violentos. Se você ignorar esse consumo, a contribuição da doença é muito pequena", disse o especialista Seena Fazel, do departamento de psiquiatria da Universidade Oxford, que conduziu o estudo.

"É provavelmente mais perigoso andar perto de um pub de madrugada que do lado de fora de um hospital onde doentes mentais estão sendo liberados", comparou o especialista.

Pesquisas anteriores demonstraram que cerca de 20% das pessoas com transtorno bipolar e 25% dos esquizofrênicos abusam de álcool e drogas - contra 2% da população em geral.

Segundo o médico, pacientes psiquiátricos frequentemente usam drogas ilícitas e álcool para tentar combater os sintomas ou os efeitos dos medicamentos, que podem agir como sedativos.

Na Inglaterra, vários casos criminais levaram à ideia de que os doentes mentais constituem uma ameaça para a sociedade. Essa percepção foi reforçada por relatórios divulgados no início deste ano em que o "Estripador de Yorkshire" - o serial killer Peter Sutcliffe - apelou contra sua sentença ao dizer que estava sofrendo de esquizofrenia paranoide quando assassinou 13 mulheres.

Fazel disse que a percepção pública de que o doente mental é uma ameaça levou a um grande número de pacientes psiquiátricos sendo colocados em hospitais nos últimos anos. "Tem havido uma espécie de reinstitucionalização dos pacientes com doenças mentais, sob o pretexto de que eles são perigosos", disse a repórteres em coletiva.

O psiquiatra e colegas usaram registros de hospitais da Suécia para rastrear pacientes com diagnóstico de transtorno bipolar e, em seguida, procurar ligações com condenações por crimes violentos.

Visto que as taxas de doença mental e os índices de violência e de abuso de álcool e drogas são semelhantes na Suécia, no restante da Europa e nos Estados Unidos, os resultados poderiam ser aplicáveis a outros países, segundo os cientistas.

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