Reuters
Reuters

Dono de empresa francesa admite que adulterou gel de próteses desde 1993

Jean-Claude Mas disse à polícia que ludibriava autoridades, escondendo vestígios do produto durante fiscalizações, e classificou vítimas como ‘pessoas frágeis’

Andrei Netto, Correspondente em PARIS,

06 de janeiro de 2012 | 22h30

O silêncio em torno do escândalo na fabricação de próteses mamárias de silicone da Poly Implant Protheses (PIP) na França foi, enfim, rompido. Trechos de depoimento prestado em outubro pelo proprietário da empresa, Jean-Claude Mas, vieram a público ontem. Ele disse ter adulterado seus produtos a partir de 1993, usando uma fórmula de gel em lugar de silicone médico.

A revelação foi feita pela Agência France Presse (AFP) e dá uma pista importante para as autoridades públicas da França e de outros países envolvidos, entre eles o Brasil. A partir desse dado, as mulheres que portam as próteses da marca podem avaliar melhor o risco ao qual estão sujeitas.

De acordo com Mas, em 1993, ele, o diretor técnico da companhia, Thierry Brinon, e um médico consultor passaram a substituir o silicone médico das próteses por um gel de fabricação própria. Uma mistura era feita com 75% de Géo Trouvetou, como o produto era chamado por seus criadores, e 25% de silicone de verdade, produzido pela companhia americana NuSil.

“Eu sabia que o gel não era homologado, mas eu o usei conscientemente, porque o gel PIP era mais barato e de bem melhor qualidade”, afirmou o empresário aos investigadores.

Além disso, Mas reconheceu que passou a fabricar os produtos com “envelopes” - o invólucro do silicone - de qualidade inferior. O “único objetivo”, conforme Brinon confirmou à polícia, era reduzir os custos e “aumentar sensivelmente a rentabilidade da empresa”.

De acordo com o depoimento do diretor técnico, o “gel PIP” custava em 2009 um sétimo do valor de outra marca de silicone, a NuSil. Ao fim de um ano, o lucro com a fraude podia chegar a € 1 milhão, considerando a produção de cerca de 100 mil implantes por ano.

Dissimulação. Durante os anos de estelionato, a PIP ludibriou os técnicos da Associação de Monitoramento Técnico (TÜV, na sigla em alemão), órgão responsável pela verificação da qualidade dos implantes na Europa, escondendo todos os vestígios do gel PIP não homologado.

Com o passar do tempo, o fato de a empresa produzir próteses mais baratas ganhou outra proporção, com a aparecimento das denúncias de rompimento. Em vez de parar de fabricá-las, entretanto, Mas ofereceu uma viagem a químicos que elaborassem uma segunda geração do produto, que ele chamou de gel PIP2.

Com as denúncias feitas por médicos e pacientes, a empresa constatou que entre 30% e 40% das próteses apresentavam ruptura. Entre 2009 e 2010, entre 100 e 150 pacientes foram indenizadas com valores que oscilavam entre € 60 mil e € 70 mil. Em abril de 2010, a empresa entrou em concordata.

Questionado sobre o que pensava do escândalo, o empresário afirmou aos investigadores que as próteses que produzia não representavam “nenhum risco à saúde”. Para ele, as mulheres que prestam queixa do produto são “pessoas frágeis ou que o fazem pelo dinheiro”. Na França, 20 vítimas da PIP dizem ter sofrido de câncer após terem constatado o vazamento das próteses.

Sem formação médica. O empresário francês, de 72 anos, não tinha instrução médica e era fabricante de linguiças e presuntos antes de fundar a PIP, nos anos 1980, e se tornar o dono da empresa número 3 dos implantes de silicone no mundo. A área de atuação escolhida surpreendeu seus próximos, pela guinada radical. Entretanto, seus dotes de “grande vendedor”, como Mas foi descrito por ex-funcionários, aliados a práticas comerciais ilegais, fizeram com que a empresa prosperasse, até que os defeitos no produto surgissem.

PARA LEMBRAR: Venda parou em 2010

Em 2010, a venda e a utilização de implantes mamários de silicone da empresa francesa Poly Implant Protheses (PIP) foram proibidas na França. A Agência de Segurança Sanitária dos Produtos de Saúde do país descobriu que o fabricante utilizava nos implantes um gel de silicone que não era autorizado para fins médicos. As investigações foram desencadeadas pela taxa anormal de reações inflamatórias e de rompimento das próteses. Em 2011, a empresa, que era a terceira maior fabricante mundial dessas próteses, sofreu liquidação judicial e foi acusada de fraude. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária brasileira (Anvisa) proibiu a venda e utilização dessas próteses no País em abril de 2010.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.