Felipe Rau / Estadão
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Doria promete entrega de 40 milhões de doses da Coronavac até abril e rebate Bolsonaro

Insumos para 8,6 milhões de doses chegam no dia 3 e serão distribuídos ao Ministério da Saúde 20 dias depois

João Ker, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2021 | 11h56

O governador João Doria (PSDB) anunciou na manhã desta terça-feira, 26, a entrega de 5,4 mil litros de insumos para a Coronavac, vacina contra a covid-19 desenvolvida pela Sinovac e produzida no País pelo Instituto Butantan. A previsão de entrega é na quarta-feira, 3, e equivale a 8,6 milhões de doses. Mais cedo, ele se reuniu virtualmente com Yang Wanming, embaixador da China no Brasil, que participou virtualmente da coletiva de imprensa no Palácio dos Bandeirantes. 

Dimas Covas, diretor do Butantan, afirmou que além dos 5,4 mil litros de insumos, outros 5,6 mil já estariam "em processo adiantado" de liberação. "Com esses dois lotes, regularizaremos as nossas entregas ao Ministério [da Saúde]", afirmou, dizendo que entregaria 40 milhões de doses da Coronavac ao governo federal até abril, com possibilidade de fornecimento para outras 54 milhões de doses.

Segundo Covas, as doses já prontas começarão a ser liberadas para o Ministério da Saúde na próxima sexta-feira, 29. Os 5,4 mil litros que chegarão na próxima semana serão liberados 20 dias após a entrega dos insumos. Com a entrega no dia 3, portanto, a distribuição desse terceiro lote ficaria para a última semana de fevereiro. 

No sábado, 23, a Fiocruz já havia admitido atraso na chegada de insumos para a produção da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e pela farmacêutica AstraZeneca. O órgão espera receber a matéria-prima "por volta do dia 8 de fevereiro" - a previsão inicial era de que viesse ainda este mês. Além do tempo de produção do imunizante a partir do insumo farmacêutico, as doses fabricadas nacionalmente precisam passar por testes de qualidade que demorarão quase 20 dias.

A entrega das doses ao Ministério da Saúde, conforme a Fiocruz disse ao Ministério Público Federal (MPF) na semana passada, está prevista só para março. Especialistas têm apontado o risco de que a restrição de doses disponíveis nas próximas semanas impeça a aceleração do ritmo da campanha de vacinação no País. 

Governador nega protagonismo do presidente em articulação com Pequim

Na segunda, 25, Doria e Jair Bolsonaro (sem partido) se desentenderam sobre quem teria sido o responsável pela liberação dos insumos. Momentos após o presidente ter anunciado a chegada de insumos "para os próximos dias", agradecendo o "empenho" dos ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Eduardo Pazuello (Saúde) e Tereza Cristina (Agricultura). O governador, entretanto, negou que eles sejam responsáveis pela conquista.

"Todo o processo de negociação com o governo chinês para a liberação de 5.400 litros de insumo para a vacina do Butantan foi realizado pelo Instituto e pelo governo de São Paulo, que vem negociando com os chineses a importação de vacinas e insumos desde maio do ano passado", afirmou Doria. 

Em seu pronunciamento nesta manhã, Wanming afirmou que a China mantém tradicionalmente uma relação amistosa com o Brasil e que a liberação dos insumos demorou "por questões técnicas e não políticas". "Os avanços significativos da cooperação entre a Sinovac e o Instituto Butantan evidencia a atitude científica e rigorosa dos pesquisadores científicos de ambos os países", frisou, completando que a articulação entre os países "beneficia não só os paulistas, mas todo o povo brasileiro". 

"Todo o relacionamento cultivado com a China, com a Sinovac, com o governo chinês e com as liberações sempre foram conduzidos pelo governo do Estado de São Paulo e pelo Butantan. Nunca houve nenhuma relação, principalmente para ajudar, do governo federal", reforçou Doria nesta manhã, classificando como "desvairosas" as manifestações do presidente Bolsonaro e seus filhos em relação ao país asiático.

O governador ainda disse que até o momento não recebeu "um único centavo do Ministério da Saúde". "Imagino que vão cumprir o contrato e o compromisso e pagarem por isso. Mas, até aqui, todo o investimento desde maio foi suportado pelo governo de São Paulo e pelo Butantan", frisou. Covas, por sua vez, acrescentou que o contrato entre o Estado e o governo federal foi firmado há apenas duas semanas.

 

Os 40 milhões citados por Doria são o número aproximado de doses da Coronavac que o Butantan ainda precisa entregar ao governo federal. O total da compra foi de 46 milhões, que devem ser entregues até o final de abril. O primeiro lote com os imunizantes importados da China foi enviado na segunda-feira, 18, após a Anvisa ter aprovado seu uso emergencial.

O segundo lote da Coronavac, com outras 4,1 milhões de doses, foi aprovado na quarta-feira seguinte. Desse, 900 mil já foram entregues na semana passada e outros 3,2 milhões ainda precisam passar pela inspeção de controle de qualidade. 

No total, o Butantan conseguiu 10,1 milhões de vacinas prontas para entregar, mais do que o previsto no contrato de compra pelo Ministério da Saúde, que estipula um total de 8,7 milhões de doses até 31 de janeiro. 

Com a estimativa de que os insumos da próxima semana rendam outros 8,6 milhões de doses, o Butantan já garante assim a entrega prevista de 9,3 milhões até 28 de fevereiro. Ainda assim, o País precisará importar novos lotes de insumos para chegar ao total de 46 milhões até abril. 

‘Autossuficiência’ na produção brasileira

Questionado sobre a autossuficiência do Brasil na produção da Coronavac, Doria anunciou que as obras na fábrica do Butantan começaram em 2 de novembro e a parte física deve estar pronta até o final de setembro, enquanto os equipamentos de produção devem ser instalados no mês seguinte. De acordo com Covas, ela deve funcionar apenas no início de 2022. 

O diretor do Butantan também deu a entender que “possa ter outras vacinas” e que o Instituto tem “outros projetos em andamento, que podem dar uma resposta adequada a essa epidemia no segundo semestre” deste ano. 

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