Spencer Platt/Getty Images/AFP
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Doses de reforço não irão deter a variante Delta. Aqui está a matemática para provar esse fato

Para entender o que esperar da variante Delta, precisamos considerar as vacinas, a imunidade natural e quaisquer precauções que as pessoas estejam tomando para diminuir suas chances de exposição

Eleanor Murray e Ruby Barnard-Mayers, Especial para o Washington Post

13 de agosto de 2021 | 15h00

O número de casos de coronavírus disparou por todos os Estados Unidos, levando as autoridades públicas a pedirem para que as pessoas voltem a usar máscara, independentemente de seu status de vacinação. Muitas pessoas vacinadas estão perguntando se está na hora de receber uma dose de reforço. Mas a matemática por trás da propagação de doenças infecciosas como a covid-19 pode nos ajudar a ver que não é o caso.

A mudança nas diretrizes sobre o coronavírus dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) e de algumas autoridades locais ocorreu por causa da variante Delta, que os epidemiologistas estimam ter um número reprodutivo básico entre 6 e 9. O número básico de reprodução, ou R0 (lê-se R-zero), é a medida do número médio de pessoas diretamente infectadas por uma única pessoa infecciosa em um cenário em que ninguém na população tem imunidade à doença. O vírus original que causou a covid-19 tinha um R0 de cerca de 3, o que significa que alguém infectado em abril de 2020 infectava, em média, três outras pessoas. A variante Delta é duas a três vezes mais infecciosa: em média, uma pessoa infectada pode infectar entre seis e nove pessoas se nenhuma delas tiver sido vacinada ou passado por uma infecção anterior.

Mas o número básico de reprodução sozinho não conta a história inteira. Para realmente entender o que podemos esperar da variante Delta, precisamos considerar as vacinas, a imunidade natural e quaisquer precauções que as pessoas estejam tomando para diminuir suas chances de exposição, como uso de máscaras e distanciamento social. Para fazer isso, os epidemiologistas calculam outra medida, chamada de número de reprodução efetiva, ou Re (lê-se R-e). O Re nos ajuda a estimar quanto uma doença pode se espalhar quando uma população tem alguma imunidade. Tecnicamente falando, o Re mede quantas pessoas novas uma única pessoa infecta, levando em consideração quaisquer precauções que as pessoas estejam tomando e os níveis gerais de imunidade. Quer estejamos falando sobre Re ou R0, qualquer valor maior do que 1 significa problema, porque, se cada pessoa puder infectar mais de uma pessoa, qualquer surto de doença continuará a se espalhar exponencialmente, a menos que tomemos providências.

O Re para determinado tempo e lugar pode ser calculado a partir de R0 usando uma equação bastante simples: multiplique R0 pela proporção da população que é suscetível à doença. Essa proporção pode ser expressa como 1 menos a proporção da população que está imune à doença, incorporando diferentes tipos de imunidade. Em termos matemáticos, a equação seria Re = Ro*(1 - x*v), onde x*v é a proporção da população que está imune, x é a porcentagem de pessoas que estão totalmente imunes (ou seja, vacinadas) e v é a eficácia da vacina.

A compreensão dessa fórmula fornecerá uma intuição importante sobre por que as doses de reforço ainda não são úteis, então vamos examinar um exemplo simplificado, supondo que todos na população foram vacinados.

Calcular a eficácia das vacinas contra novas variantes é um desafio, mas os epidemiologistas estimam que as vacinas de duas doses são cerca de 85% eficazes contra a variante Delta. Este será nosso valor para v, com uma advertência importante: para simplificar, estamos supondo que todas as vacinas têm a mesma eficácia, porque não temos grandes dados sobre como as vacinas diferem em relação à variante Delta. Para fins de demonstração, usaremos um R0 de 8 (embora o intervalo esteja entre 6 e 9, então tente outros valores e veja como as coisas mudam). Com base nesses números, nossa estimativa de Re ficaria em torno de 1,2 se conseguíssemos vacinar 100% da população. Ainda é um número maior do que 1, mas por pouco, e está definitivamente dentro de uma faixa em que outras medidas de controle, como testagens frequentes e rastreamento de contato, provavelmente seriam suficientes para impedir qualquer surto.

Mas não se pode esperar que todas as pessoas se vacinem. Na terça-feira, cerca de 50% da população americana estava totalmente vacinada. Levando em consideração a eficácia de 85% das vacinas, isso significa que cerca de 43% da população está protegida contra a variante Delta. O Re para este cenário seria pouco mais de 4. É um valor muito maior do que 1 e ainda mais alto do que o R0 da forma original não variante do coronavírus. Portanto, com metade da população dos Estados Unidos vacinada, a variante Delta ainda é mais infecciosa do que o vírus original do ano passado.

Com o aumento dos casos, algumas autoridades e especialistas estão pedindo doses de reforço para aqueles que estão totalmente vacinados. A Food and Drug Administration (FDA) está pensando em uma estratégia de incentivos, e o governo Biden está pressionando para disponibilizar essas doses para alguns grupos de alto risco. Israel já começou a distribuir doses de reforço para pessoas com mais de 60 anos. Os epidemiologistas, por outro lado, não estão convencidos de que esta seja a abordagem certa. Vamos ver o que acontece com o Re se dermos uma dose de reforço a todos que estão totalmente vacinados, supondo que o reforço aumente a eficácia da vacina para 95%, a eficácia original das vacinas de RNA mensageiro contra a nova forma do vírus. Com os mesmos 50% da população totalmente vacinada, isto nos dá um Re de cerca de 4 - ainda maior do que o R0 do vírus do ano passado. Então, dar uma dose de reforço para metade da população dos Estados Unidos reduziria apenas ligeiramente o Re da variante Delta.

Mas e se aumentássemos o número de pessoas totalmente vacinadas nos Estados Unidos? Suponha que tenhamos 75% da população totalmente vacinada, o que provavelmente exigiria a aprovação de vacinas para crianças menores de 12 anos e uma quantidade significativa de campanhas para aumentar a vacinação. Usando a estimativa de 85% de eficácia da vacina contra a Delta, calculamos um Re pouco abaixo de 3. Isto significa que, ao aplicar recursos para vacinar outros 25% da população americana, podemos reduzir a propagação da variante Delta mais do que se déssemos uma terceira dose para 50% da população que já está vacinada. Se você brincar um pouco com esses números, descobrirá que vacinar mais pessoas é quase sempre melhor estratégia para diminuir o Re - e, portanto, desacelerar a propagação - do que dar doses de reforço.

Até o momento, essas estimativas não levaram em consideração as pessoas que têm imunidade natural por infecção anterior de coronavírus, nem aquelas que receberam apenas uma dose de uma vacina de RNA mensageiro (as pessoas que receberam uma dose da vacina Johnson & Johnson estão totalmente vacinadas). Vamos ver o que acontece se levarmos isto em consideração (aviso: aqui vai um pouco mais de matemática).

Cerca de 9% da população recebeu uma, mas não duas, doses de uma vacina de RNA mensageiro. De acordo com um estudo da Grã-Bretanha, uma dose da vacina Pfizer provou ser 60% a 70% eficaz contra o vírus original, então vamos supor, para o propósito deste exemplo, que uma dose seja 60% eficaz contra a variante Delta. Com 50% da população totalmente vacinada e 9% parcialmente vacinada, temos cerca de 48% da população imune à variante Delta (0,5*0,85 + 0,09*0,6 = 0,48). O valor de R0 não muda, então nossa estimativa de Re levando em consideração aqueles que estão total e parcialmente vacinados é cerca de 4.

Não há muita informação sobre quanta imunidade natural proporcionam as infecções anteriores por coronavírus, ou quanto tempo essa imunidade pode durar. E é difícil estimar qual proporção daqueles que se recuperaram da infecção permaneceram não vacinados. (Também é difícil estimar com precisão quantas pessoas tiveram infecções assintomáticas e nunca souberam disso). O CDC estima que cerca de 35 milhões de pessoas foram infectadas. Vamos supor que cerca de metade dessas pessoas agora também estão totalmente vacinadas. Isto nos dá uma estimativa (imperfeita) de cerca de 5% da população dos Estados Unidos com imunidade natural, mas sem vacinação. Vamos supor que a eficácia da imunidade natural seja de 30% - mais uma vez, há poucas informações sobre a imunidade natural, então esse número é puramente teórico. Levando em consideração a imunidade natural e aquelas pessoas que têm pelo menos uma dose da vacina, ainda resta cerca de 50% da população suscetível à variante Delta. O Re para este cenário é 4. Isto significa que contabilizar as pessoas que têm imunidade parcial ou natural melhora um pouco nossa situação, mas não tanto quanto a vacinação completa de mais pessoas.

Dada essa matemática, por que alguns países decidiram dar doses de reforço? Principalmente porque as decisões políticas não consideram apenas a ciência. Em Israel, todas as restrições ao coronavírus foram suspensas no início deste verão, quando metade da população estava vacinada, mas o uso de máscaras em ambientes fechados foi reinstaurado apenas 10 dias depois, por causa do aumento dos casos. Desde então, a maioria das infecções ocorreu entre adultos com mais de 50 anos, e a campanha de reforço pode ser uma tentativa de controlar o aumento antes dos feriados judaicos em setembro.

A matemática dos surtos nos ajuda a entender que não conseguiremos controlar a variante Delta maximizando a imunidade de apenas um segmento da população. Se você já foi vacinado, a melhor medida para reduzir o risco de uma infecção repentina é ajudar seus amigos, familiares e vizinhos a decidirem se vacinar. Uma dose de reforço não ajudará muito, a menos que você seja imunocomprometido - neste caso, converse com seu médico.

Vacinar todas as pessoas que podem ser vacinadas é uma meta ambiciosa, mas vale a pena almejá-la. As vacinas têm sido uma ferramenta de saúde pública fundamental desde que a primeira vacina contra a varíola foi desenvolvida em 1796. Campanhas de vacinação generalizadas impediram surtos de poliomielite, sarampo, catapora e muitas outras doenças infecciosas. Podemos garantir que a covid-19 seja a próxima trabalhando para vacinar todas as pessoas, não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo. Em 10 de agosto, pouco menos de 16% da população mundial estava totalmente vacinada. Nosso Re global ainda está muito alto e será necessária cooperação global para levá-lo abaixo de 1, mas temos as ferramentas e o conhecimento para fazer isso. Tudo o que resta é agir. / Tradução de Renato Prelorentzou.  


Eleanor Murray é epidemiologista e professora assistente da Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston.

Ruby Barnard-Mayers é epidemiologista e estudante de doutorado na Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston.

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