Polícia Militar-RJ
Polícia Militar-RJ

'Doutor Bumbum' é preso pela polícia do Rio após morte de paciente

Denis foi detido em um centro empresarial na zona oeste e foi encaminhado para a 16ª DP (Barra da Tijuca). Mãe do médico também foi presa. Em vídeo, ele diz que as acusações são injustas e fala em 'fatalidade'

Constança Rezende, Roberta Jansen e Márcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2018 | 15h39
Atualizado 20 Julho 2018 | 02h17

RIO - O médico Denis César Barros Furtado, de 45 anos, conhecido como Dr. Bumbum e a mãe, a médica Maria de Fátima, de 66, foram presos nesta quinta-feira, 19, em um centro empresarial na Barra da Tijuca, aonde tinham ido para conversar com o advogado, Marcus Braga. Eles são acusados pelo homicídio de Lilian Calixto, de 46 anos, que se submeteu a um procedimento estético com um polímero contraindicado, o PMMA, no fim de semana. Outros dois envolvidos no atendimento já estão presos.

A bancária passou no sábado por um preenchimento dos glúteos na cobertura do médico na Barra da Tijuca, o que também seria contraindicado. Lilian sentiu-se mal e foi levada por ele ao Hospital Barra D’Or, onde morreu na madrugada de domingo. Depois da morte, Furtado e Maria de Fátima (que teve o registro de médica cassado em 2015) fugiram. Localizados em um shopping, chegaram a quebrar uma cancela para escapar. 

Nesta quinta-feira, o advogado de ambos se preparava para apresentá-los à polícia - a Justiça havia decretado a prisão. Só que os acusados foram reconhecidos e a informação chegou ao Disque-Denúncia. Agentes do Serviço Reservado foram ao local checar a informação e deram voz de prisão. Os dois foram levados à 16.ª DP (Barra da Tijuca), de onde devem ser removidos nesta sexta-feira, 20, para uma unidade prisional, após depoimento.

'Fatalidade'

Antes de ser preso, o médico defendeu-se da acusação de homicídio. Em vídeo postado no Instagram, o profissional disse que a morte da paciente foi “uma fatalidade” e queixou-se de estar sofrendo injustiças. Furtado afirmou ainda que já fez mais de 9 mil procedimentos estéticos em nádegas, sem problemas.

“Como todo mundo sabe, aconteceu uma fatalidade”, diz ele, no vídeo, com  a voz embargada. “Mas uma fatalidade que acontece com qualquer médico. Uma paciente minha, no consultório, após um procedimento de bioplastia de glúteo – que eu já realizei nove mil --, saiu do consultório muito bem. Umas seis horas após eu a levei ao hospital e ela chegou a óbito algumas horas depois, por parada cardíaca.”

Defesa

Após a detenção, ele falou com a imprensa e se defendeu. “Eu mostro meu (registro no) CRM (Conselho Regional de Medicina)”, disse ele, agitado, ressaltando ser “médico em todo o Brasil”. Também afirmou que a morte de Lilian foi uma fatalidade e não haveria problema em realizar esse tipo de procedimento em casa, por ser “minimamente invasivo”. 

O CRM do Distrito Federal informou nesta quinta-feira que o processo ético-profissional ao qual ele respondia foi concluído, com decisão de cassação de registro, que deve ser submetida ao Conselho Federal de Medicina. 

“Realizamos (a intervenção) por volta de seis, sete horas da noite”, relatou o médico. “Ela (Lilian) saiu bem da maca. (Ficou) até umas dez horas. E me relatou leve enjoo e queda de pressão.” Segundo ele, a paciente não sentia dor ou falta de ar. “Absolutamente nada.”

Segundo o Dr. Bumbum, às 23h30 decidiu levar Lilian ao Hospital Barra D’Or, por causa da queda de pressão. “Ela chegou ao hospital consciente, andando”, disse. “A pressão estava 9 por 6. Estava com batimentos cardíacos a 60 (normais). Ao receber adrenalina, foi a 128 – o que é alto.” Disse ainda que questionou a colega a respeito da administração da substância. “A médica simplesmente falou: ‘É o nosso protocolo’.”

Também afirmou que não pôde ficar com Lilian na sala em que era atendida. Em resposta, o Barra D’Or informou que Lilian foi atendida por volta das 23 horas (de sábado), apresentando “quadro extremamente grave, não responsivo às manobras de recuperação e foi a óbito à 1h do dia 15”. E negou ter havido impedimento “ao acesso de qualquer profissional, familiar ou acompanhante”.

Investigação do caso

“São muitas perguntas para fazer. Como se dava a atividade, se havia autorização, como se deu a morte da paciente, por que ele não ficou no hospital?”, disse a delegada Adriana Belém. Segundo ela, só os crimes de homicídio qualificado e associação criminosa podem levar a penas de 12 a 30 anos. O assassinato teria se dado por dolo eventual, quando o acusado assume conscientemente o risco de matar, embora não seja a sua intenção. Especialistas ainda apontam outras penalizações possíveis.

A hipótese mais aceita é a de que a substância PMMA teria sido injetada acidentalmente em um vaso sanguíneo. Assim, teria entrado na corrente sanguínea, alcançando o pulmão e provocado uma embolia. Na casa do médico, a polícia achou recipientes de PMMA, o polímero usado para preenchimento. A substância só é liberada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em casos muito específicos.

Quem é o Dr. Bumbum

De Doutor Bumbum com endereço em cobertura na Barra da Tijuca a preso acusado pela morte de uma paciente. A vida mudou muito rapidamente para o médico Denis Cesar Barros Furtado. Desde o último domingo, ele era caçado pela Polícia Civil do Rio sob acusação de ter matado a bancária Lilian Calixto, de 46 anos, em procedimento estético proibido.

Loquaz, presença frequente nas redes sociais, onde se gabava de seus feitos, ele teve desativado seu perfil no Instagram. Antes do crime de que é acusado – homicídio com dolo eventual, por ter provocado a morte da vítima ao injetar polimetilmetacrilato, conhecido como PMMA, nos glúteos da paciente – Furtado demonstrava desembaraço na propaganda de seu trabalho.

De jaleco, dirigia-se em vídeos a 655 mil seguidores no Instagram e 45 mil no Facebook. Falava de doenças, citava Sigmund Freud e Charles Chaplin e criticava os conselhos de medicina. Acusava as entidades de “cerceamento” de certos procedimentos que realizava.

“Médicos como eu, que buscam inovar, são tão perseguidos que pensam em desistir e deixar pra lá (as práticas de) estudar e se atualizar, e se render ao sistema (sic)”, escreveu, em janeiro.  “Na minha  opinião, (o sistema) lucra mais com doença que com saúde, perseguindo e vetando qualquer novidade que ameace a indústria e as mentiras já impostas como fatos.”

Método proibido

A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), porém, informou que o método utilizado por Furtado – e que teria resultado na morte da bancária –  é vetado. Desde 2006, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) só permite o uso do PMMA em casos excepcionais e em pequenas quantidades. 

Segundo a SBCP, Furtado não tem formação em cirurgia plástica, portanto não está apto a realizar procedimentos como aquele a que submeteu a bancária. Sem registro no Conselho Regional de Medicina do Rio – é registrado em Goiás e Distrito Federal – ele não poderia atuar em território fluminense.

Mesmo assim, Furtado se sentia à vontade para divulgar seu trabalho, quase sempre com fotos no estilo “antes e depois” – prática proibida pelo Código de Ética da sua profissão. As imagens eram postadas principalmente no Facebook, quase sempre acompanhadas do número de celular da “secretária Renata”. Renata Cirne, que também seria namorada de Furtado, está presa acusada de participação no crime. Nesta quarta-feira, 18, foi transferida para a Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica, na zona norte.

A última postagem do médico no Facebook foi no sábado, 14, mesmo dia em que realizou o procedimento estético em Lilian Calixto, à noite. O assunto: as “maiores mentiras e causas relacionadas à doença cardíaca”. A bancária morreu de parada cardiorrespiratória horas mais tarde. Ela saiu da capital mato-grossense no sábado para ser submetida ao procedimento no Rio. O Cremerj abriu sindicância sigilosa para apurar o caso.

Relato de médico

Um médico que atende em um hospital privado na Barra da Tijuca  contou ao Estado ter atendido outra paciente de Furtado. Ela fora submetida ao mesmo procedimento que matou Lilian - preenchimento das nádegas com polímero. Seu estado era grave. “Ela estava em insuficiência respiratória grave, mas conseguimos salvá-la”, contou o profissional, sob anonimato.

Até o início da noite dessa quarta, a página de Furtado no Facebook permanecia ativa. Nela, centenas de pessoas faziam comentários. A maioria criticava o trabalho do médico. As publicações se misturam a outras, mais antigas, de pessoas que demonstravam interesse nos procedimentos oferecidos pelo médico.  Algumas falavam no “sonho” de serem atendidas por ele.

Duas pessoas, contudo, acusavam o médico de erros. Uma delas afirmou que se calou “diante de todas as ameaças” que ele teria feito e afirmou que perdeu “tempo, dinheiro e, principalmente, saúde”. Outra declarou que Furtado “destruiu” seus glúteos. O Estado tentou contato com ambas, mas não teve sucesso.

Habeas corpus

O desembargador Luciano Rinaldi, no Plantão Judiciário na terça-feira, rejeitou pedido de habeas corpus ajuizado por Furtado e Maria de Fátima. Segundo o magistrado, os acusados não se apresentaram à polícia após a decretação da prisão temporária. 

 

Mais conteúdo sobre:
Denis FurtadoCirurgia Plástica

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.