Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Doze Estados têm estratégia de relaxamento da quarentena, aponta Ipea

Análise do instituto mostra tendência, a partir de junho, de medidas de abertura mesmo onde óbitos se mantêm elevados. Governos têm dificuldade de sustentar políticas rigorosas a partir de um limite de tempo

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2020 | 11h00

Doze Estados brasileiros já possuem estratégias de saída da quarentena, de acordo com estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgado nesta quarta-feira, 10. Em um tendência que surgiu a partir do início de junho, alguns Estados realizam a reabertura mesmo diante de um número crescente de mortes, como ocorre em São Paulo, no Ceará e no Pará. Isso tem ligação com consequências econômicas e desgastes políticos, aponta o Ipea.

A nota técnica do instituto é assinada pelo pesquisador Rodrigo Fracalossi de Moraes, que analisou as medidas de distanciamento social no período de 25 de maio a 7 de junho. O estudo mostra que Acre, Amazonas, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Rondônia, Santa Catarina e São Paulo possuem uma estratégia de saída da quarentena. 

Moraes escreve que essas estratégias têm por base “critérios objetivos de saúde pública, especialmente relacionados à evolução do número de casos e/ou à infraestrutura hospitalar existente”. Mas, em vários casos, pondera, “decisões por ampliar ou diminuir o rigor ocorreram em função de pressões de associações de classe ou da emulação do comportamento de outros governos”. 

O mês de junho marca a queda no rigor das medidas de distanciamento, que vinham se mantendo estáveis ao longo do mês de maio. “Os dados também indicam que há um limite temporal durante o qual governos conseguem manter políticas rigorosas. A partir de um certo ponto, passa a ser difícil sustentá-las, ainda que a epidemia se mantenha grave”, analisa o pesquisador.

Até o fim de maio, explica o estudo, havia uma associação que se impunha aos gestores: onde a epidemia havia se manifestado de forma mais grave, os governos mantiveram políticas rigorosas; onde ela havia sido menos grave, havia políticas menos rigorosas. A partir de junho, a tendência é interrompida e se começa a ver relaxamento mesmo onde a epidemia permanece grave. 

“O relaxamento de medidas em São Paulo e no município do Rio de Janeiro, por exemplo, ocorre em um contexto no qual o número de óbitos segue crescendo. Isto provavelmente decorre das consequências econômicas e políticas negativas de se manter atividades suspensas por um período longo, visto não haver evidência de que a epidemia está controlada”, analisa Moraes. 

O estudo do Ipea usa dados dos doze Estados com maior número de óbitos por 100 mil habitantes para constatar que apenas no Amazonas a curva parece estar em declínio. Em São Paulo, no Rio, no Espírito Santo, no Ceará e em Alagoas, a quantidade de novas mortes, em uma média que leva em consideração dados de um período de 7 dias, estão hoje no seu maior patamar desde o início da pandemia. No Pará, em Roraima e no Acre, a média atual não é mais elevada, mas a curva aponta uma nova alta após um período de queda. 

Ao mapear a implementação de medidas de distanciamento, o estudo concluiu que alguns Estados precisaram de maior rigor legal para atingir os mesmos níveis de isolamento social que outros. Por exemplo, São Paulo precisou adotar mais medidas do que a Bahia para alcançar o mesmo nível de isolamento. “Nesse sentido, as políticas em alguns estados foram mais 'eficientes' do que em outros”, escreve o pesquisador do Ipea.

Quanto aos demais Estados, a pesquisa diz que estratégias de saída ainda não foram adotadas por um ou mais dos seguintes motivos: “i) Estados estão em um estágio grave da epidemia ou esperam atingi-lo, levando governos a priorizar o enfrentamento da epidemia; ii) governos temem que divulgar informações sobre a saída da quarentena levaria parte da população a relaxar medidas de prevenção da doença; ou iii) governos estaduais delegaram poder de decisão às prefeituras, as quais devem adotar suas próprias políticas (a prefeitura do Rio de Janeiro, por exemplo, a adotou de forma independente).”

A pesquisa relata também Estados que aumentaram a rigidez das medidas na última semana. É o caso da Paraíba, onde um aumento da gravidade da epidemia, fez o governo estadual proibir todas as atividades não essenciais na capital e em municípios vizinhos a partir de 1º de junho. 

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