CELIO MESSIAS/ESTADAO
CELIO MESSIAS/ESTADAO

Diagnosticado com câncer, Dr. Mingal leva alegria a crianças com a doença

O ator Marcelo Marcon é especialista em divertir os pacientes, buscando reduzir o sofrimento da doença e do tratamento. No ano passado, no entanto, foi surpreendido com tumor maligno no pulmão

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2019 | 05h00

Três vezes por semana, o ator Marcelo Marcon, de 38 anos, transforma-se em especialista de uma ciência inventada para divertir e reduzir o sofrimento dos pacientes da ala infantojuvenil do Hospital de Amor, antigo Hospital de Câncer de Barretos: a “besteirologia”. Palhaço da Alegria desde 2010, ele, que encarna o Dr. Mingal, foi surpreendido com o diagnóstico de câncer de pulmão no ano passado. Após o tratamento, mudou de São Paulo para o interior paulista e continua se dedicando ao ofício de levar alegria para pessoas que lutam contra a doença.

Ser palhaço era um sonho que acompanhava Marcon desde a infância. Para falar da paixão, resgata um episódio engraçado.

“Minha família sempre me apoiou. Quando eu tinha uns 3 anos, já fazia a maquiagem branca com Hipoglós e era louco por gravata borboleta. Uma vez, achei um negócio acolchoado que tinha uma fita adesiva e falei: ‘Mãe, achei uma gravata borboleta’. Era um absorvente.”

Após a formação na escola de palhaços do Doutores da Alegria, passou a atuar em hospitais. 

No ano passado, começou a apresentar problemas respiratórios. Associou a tosse persistente a dois espetáculos que estava fazendo na época.

“Estava falando muito por causa do trabalho, mas fui piorando. Até que cuspi sangue. Fui ao pneumologista e foi detectado um nódulo no pulmão direito. Era um tumor maligno e o câncer era muito agressivo”, lembra. “Em uma das conversas, os médicos comentaram que eu perderia o pulmão. Abala muito receber uma notícia dessas, até porque eu nunca fumei e praticava atividade física.”

Por sugestão de um amigo, foi fazer o tratamento em Barretos e, para seu alívio, não foi necessário remover o órgão nem fazer radioterapia ou quimioterapia. Com o tumor eliminado, ele resolveu não voltar mais para a capital e integrar a trupe do hospital.

“Já pensava em reduzir a carga da minha rotina, porque passava duas horas no trânsito. Em março, me mudei para Barretos. Hoje, entendo meu trabalho como uma missão.” 

Quando bate na porta de um quarto, depende da aprovação da criança e de sua família para entrar.

“A todo momento, médicos, enfermeiros e técnicos precisam entrar para atender os pacientes e eles não podem recusar a entrada dessas pessoas. Quando posso entrar, construo uma relação com o que está saudável na criança. E meu trabalho também é para os profissionais de saúde e parentes.”

Os Palhaços da Alegria não atuam apenas cantando e brincando com as crianças. Após fazer a maquiagem e colocar as vestes, eles precisam conhecer a realidade e as condições de saúde dos pacientes. O Dr. Mingal sabe tocar ukulele, violão e cavaquinho. Também faz mágicas. Nos bolsos, leva cacarecos que podem ser esterilizados. Se a criança tiver de “levar uma picadinha”, ele segura sua mão.

Para Marcon, a intervenção do palhaço ajuda na aceitação do tratamento. Com as crianças, também aprendeu a lidar com o próprio diagnóstico, o tratamento e o processo de recuperação.

“Comecei a tomar os remédios que via os pacientes tomando. Mas estava andando, produzindo, raciocinando, não podia desistir. Aprendi a subverter o diagnóstico e a ideia de morte.”

Diagnosticada com leucemia linfoide aguda em junho de 2017, Lauren Righi Floripo, de 9 anos, gosta das brincadeiras dos palhaços e é uma das “pacientes” do Dr. Mingal. Ela também faz parte de um teatro do hospital.

“Quero ser veterinária, mas também estou pensando em ser atriz.” Ela nem demora para dar sua opinião sobre os palhaços. “Gosto muito, eles são muito legais.”

Mãe da garota, a enfermeira Zeliane Righi, de 44 anos, diz que a família se mudou de Boa Vista, em Roraima, para Barretos, e que o quadro da filha era grave.

“A gente veio para cá em UTI móvel. Ela chegou bem abatida, mas está indo bem. Ela ainda faz quimioterapia uma vez por semana e toma um medicamento oral, mas não aparecem sinais da doença nos exames. Está previsto terminar o tratamento em dezembro.”

Zeliane elogia os momentos de diversão oferecidos pelo hospital. “Com os palhaços, o tempo passa mais rápido e é um momento de alegria para as crianças. Todo dia tem uma brincadeira diferente. É bom tanto para as crianças quanto para nós.”

A doença

O câncer de pulmão é o segundo mais comum em homens e mulheres no Brasil e o primeiro no mundo desde 1985, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca). A estimativa é de 31.270 novos casos (2018) no País, dos quais 18.740 em homens. O tabagismo está relacionado a 85% dos casos da doença.

Embora o tabaco seja o principal fator de risco, estudos mostram que outros fatores podem estar relacionados.

“A poluição do ar é um fator que está sendo cada vez mais descrito”, explica Pedro de Marchi, coordenador do departamento de oncologia clínica cabeça, pescoço e tórax do Hospital de Amor.

Os casos em não fumantes, considerados raros, podem ocorrer entre pacientes jovens, segundo Marchi. Ele diz que os registros entre pessoas que nunca fumaram têm crescido nos últimos anos, mas que os motivos ainda estão sendo estudados. Para evitar a doença, o especialista recomenda que a população não fume.

“Não existe dose segura. Qualquer pouca exposição ao fumo aumenta o risco de desenvolvimento do câncer de pulmão.”

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