NIAID / Divulgação
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Droga injetável mensal evita que macacos contraiam aids

Testes em humanos começam no final do ano, inclusive no Brasil. Se derem certo, trarão alternativa para tratamentos de pré-exposição

Donald G. McNeil Jr., The New York Times

06 Março 2014 | 18h15

BOSTON - Pesquisadores constataram que injeções de medicamentos contra aids persistente protegeram macacos durante semanas contra infecções. A descoberta que poderá levar a um importante avanço na prevenção da doença em seres humanos.

Dois estudos realizados por dois laboratórios diferentes descobriram que macacos que receberam injeções mensais de drogas antirretrovirais ficaram totalmente protegidos contra a doença, e há evidências de que uma única injeção a cada três meses também poderia funcionar.

Se tais conclusões se confirmarem também em seres humanos, haverá potencial para superar um grande problema na prevenção da aids: o fato de muitas pessoas não tomarem regularmente seus comprimidos antirretrovirais.

Um teste preliminar em seres humanos deverá começar no fim deste ano, informou Wafaa El-Sadr, especialista em aids na Escola de Saúde Pública da Universidade Columbia. Entretanto, um teste de maior alcance que leve a um tratamento no homem ainda está muito longe.

Já é sabido, desde 2010, que pessoas saudáveis que tomam uma pequena dose diária de medicamentos antirretrovirais - procedimento conhecido como profilaxia de pré exposição, ou PreP - podem contar com 90% de proteção contra infecções.

Mas em vários testes clínicos realizados a partir de então em gays de sexo masculino, em usuários de drogas intravenosas e em casais em que um dos parceiros está infectado, ficou demonstrado que os únicos participantes protegidos foram os que tomaram seus comprimidos diariamente sem falhar uma só vez. Muitos não fazem isto.

A taxa de falhas no consumo da droga foi particularmente elevada entre mulheres na África. Enquanto algumas participantes de um estudo de pré exposição disseram aos pesquisadores que ficaram apavoradas com os boatos a respeito de efeitos colaterais, muitas delas informaram também que temiam guardar os comprimidos em casa porque seus parceiros sexuais ou um vizinho poderiam vê-los e imaginar equivocadamente que elas já estavam com a doença.

Uma injeção intramuscular a cada três meses poderia mudar esta situação, afirmaram vários especialistas em aids.

Na África e em outros países o mundo em desenvolvimento, muitas mulheres já recebem injeções de hormônios anticoncepcionais de longa duração por preferi-las aos comprimidos diários, que poderiam irritar maridos ou namorados se os encontrassem.

A respeito do protocolo das injeções testadas em macacos, David Ho, diretor do Centro de Pesquisas Aaron Diamond sobre aids na Universidade Rockefeller e autor de um dos estudos, disse que a popularidade dos anticoncepcionais é "um bom prenúncio de como poderia funcionar nos países em desenvolvimento".

No outro estudo, realizado pelos Centros para o Controle de Doenças e Prevenção da aids, seis macacas tomaram injeções mensais de GSK744, um medicamento experimental que é uma forma de longa duração de uma droga antirretroviral já aprovada para o tratamento do HIV pela Agência de Alimentos e Medicamentos dos EUA. Seis outros macacas tomaram um placebo.

Duas vezes por semana, um líquido contendo o vírus da imunodeficiência de humanos e símios, uma versão híbrida do vírus para humanos e macacos causador de aids, foi aplicado em suas vaginas, simulando sexo com um macaco infectado.

Nenhuma das macacas protegidas pelo GSK744 foi infectada. As seis que tomaram placebo se infectaram rapidamente.

Os pesquisadores do centro Rockefeller realizaram um experimento semelhante com 16 macacos usando o mesmo medicamentos. Eles receberam lavagens retais do vírus, imitando sexo anal.

Os resultados foram os mesmos. Todos os macacos que receberam a droga ficaram protegidos, em comparação com nenhum dos que não a receberam.

A equipe de Ho fez vários testes também para avaliar a quantidade do medicamento a ser introduzida no sangue e nos tecidos do animal para servir como preventivo. Os pesquisadores concluíram que, nos seres humanos, seria suficiente uma injeção a cada três meses.

Os estudos foram apresentados na última terça-feira, 4, na Conferência Anual sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas, em Boston.

O dr. Anthony S. Fauci, diretor do Instituto Nacional De Alergia e Doenças Infecciosas, definiu os resultados "muito significativos para o modelo animal".

Mitchell J. Warren, diretor executivo da AVAC, uma organização que se dedica ao lobby para a prevenção e tratamento da aids, disse que se deveria visar uma droga injetável de longa duração "porque a persistência no tratamento é o calcanhar de aquiles do PreP". Mas ele acrescentou que pessoas com risco de infecção por HIV precisariam de várias opções, assim como as mulheres que procuram anticoncepcionais devem poder escolher entre comprimidos e outras formas.

O teste em seres humanos que deverá começar no fim deste ano, será limitado, envolverá apenas 175 pessoas nos Estados Unidos, África do Sul, Malaui e Brasil. Segundo El-Sadr, de Columbia, o estudo deveria levar três anos antes que um teste maior permitisse constatar se o método que utiliza as injeções funciona em pessoas com a mesma eficácia do teste realizado em macacos.

Os testes em pessoas levam tempo e exigem um grande número de participantes, em parte porque é antiético realizar testes sem oferecer aos participantes todas as opções aprovadas, incluindo camisinhas e as versões da pílula PreP.

"Já sabemos de antemão que algumas pessoas irão querer a droga e depois não a usarão", disse Warren. "Mas mesmo assim teremos de oferecê-la".

Tradução de Anna Capovilla

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