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Duas mulheres adoeceram, apenas uma se recuperou

Os destinos de Deng e Xia refletem o caráter imprevisível de um vírus que afeta as pessoas de modo diferente, às vezes desafiando as médias estatísticas e a pesquisa científica

Sui-Lee Wee e Vivian Wang, The New York Times

15 de março de 2020 | 08h00

As jovens mães não contaram aos filhos que tinham o coronavírus. Mamãe estava trabalhando muito, elas disseram, para salvar pessoas doentes.

Mas Deng Danjing e Xia Sisi estavam lutando por suas vidas nos mesmos hospitais onde trabalhavam, debilitadas pela febre e respirando com dificuldade. Em questão de semanas, de profissionais médicas saudáveis na frente de combate da epidemia em Wuhan, elas se tornaram pacientes do coronavírus em situação crítica.

O mundo ainda vem lutando para entender o novo vírus, seus sintomas, propagação e fontes. Para alguns ele parece um resfriado comum. Para outros é uma infecção mortal que devasta os pulmões e coloca o sistema imunológico funcionando a todo vapor, destruindo as células saudáveis. A diferença entre vida e morte depende da saúde, idade e acesso a cuidados médicos do paciente - mas nem sempre.

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O vírus infectou mais de 132 mil pessoas no mundo. Na vasta maioria dos casos as pessoas têm sintomas leves, limitados. Mas a progressão do vírus é rápida e a uma certa altura as chances de sobrevivência despencam. Cerca de 68 mil pessoas se recuperaram, ao passo que quase cinco mil morreram.

Os destinos de Deng e Xia refletem o caráter imprevisível de um vírus que afeta as pessoas de modo diferente, às vezes desafiando as médias estatísticas e a pesquisa científica.

Quando começaram as festividades do Ano Novo na China, as duas mulheres levavam uma vida muito similar. Ambas com 29 anos de idade, casadas e cada um com um filho ainda criança que adoravam.

Deng, enfermeira, trabalhava há três anos no Hospital Nº7 de Wuhan, cidade onde cresceu e começou a pandemia de coronavírus. Sua mãe também era enfermeira daquele hospital e no seu tempo livre as duas saíam juntas para ir ao cinema ou fazer compras. A atividade predileta de Deng era brincar com seus dois gatinhos, Fat Tiger e Little White, este último ela havia resgatado três meses antes de adoecer.

Xia, gastroenterologista, também vinha de uma família de profissionais médicos. Quando criança ela acompanhava sua mãe, enfermeira, ao trabalho. Ela ingressou no Union Jiangbei Hospital de Wuhan em 2015 e era a médica mais jovem do seu departamento. Seus colegas a chamavam de "Pequena Sisi" e ela sempre sorria. Ela adorava um prato chamado Sichuan, famoso por seu molho terrivelmente apimentado.

Quando o novo e misterioso vírus atingiu a cidade, as mulheres começaram a trabalhar longas horas tratando um enorme fluxo aparentemente sem fim de pacientes. Elas adotavam precauções para se protegerem. Mas sucumbiram à infecção, com o vírus extremamente contagioso se refugiando nos seus pulmões, causando febre e pneumonia. No hospital, o estado delas piorou.

Uma se recuperou, a outra não.

Sintomas - Surgimento do vírus e hospitalização

Os sintomas surgiram repentinamente. Xia havia encerrado o turno da noite em 14 de janeiro quando foi convocada para atender a um paciente - um senhor de 76 anos com suspeita de coronavírus. Ela o visitava com frequência para checar seu estado.

Cinco dias depois começou a não se sentir bem. Exausta, tirou um cochilo de duas horas em casa, tirou sua temperatura e viu que estava com quase 39 graus de febre. Sentiu o peito apertado.

Algumas semanas mais tarde, no início de fevereiro, Deng, a enfermeira se preparava para jantar no consultório no hospital quando só ao ver a comida sentiu náuseas. Mas não deu importância, achando que estava esgotada pelo trabalho. Ela tinha passado o começo da epidemia visitando as famílias de pacientes confirmados com o vírus e orientando-as a como desinfetar suas casas.

Depois de comer à força alguma coisa, ela foi para casa, tomou um banho e então, sentindo-se atordoada, decidiu se deitar e descansar. Quando acordou estava com quase 38 graus de febre.

A febre é o sintoma mais comum do coronavírus, observada em quase 90% dos pacientes. Um quinto das pessoas sente dificuldade para respirar, incluindo com frequência tosse e congestão nasal. Muitas sentem fadiga.

As duas mulheres rapidamente foram ao médico. Tomografias mostraram danos nos seus pulmões, um sinal revelador da presença do coronavírus em pelo menos 85% dos pacientes, de acordo com um estudo.

A tomografia de Deng, em particular, mostrou o que o médico chamou de opacidades em vidro fosco no pulmão direito - pontos difusos que indicavam fluído ou inflamação em torno das suas vias aéreas.

O hospital não tinha nenhum espaço de modo que Deng se instalou em um hotel para evitar infectar o marido e sua filha de cinco anos de idade. Ela transpirou a noite inteira. Pela manhã, foi internada. Sua garganta foi examinada e testes confirmaram que estava com o coronavírus.

Seu quarto na ala aberta recentemente do hospital era pequeno com dois leitos e um número em cada um. Deng estava no leito 28. Sua companheira de quarto era uma colega também diagnosticada com o vírus.

No Jiangbei Hospital, a menos de 30 quilômetros de distância, Xia também tinha dificuldades para respirar. Ela foi colocada em isolamento e tratadas por médicos e enfermeiros usando uniformes e óculos de proteção. A sala estava fria.

Tratamento - Dia 1, começa a hospitalização

Quando Deng foi internada no hospital tentou ser otimista. Enviou mensagem de texto para o marido, insistindo para ele usar máscara facial mesmo em casa e desinfetar todas as tigelas e utensílios com água fervente, ou jogá-los no lixo.

O marido lhe enviou uma foto de um dos seus gatos: “Esperando pela sua volta”, disse ele.

“Acho que vai levar uns dez dias, talvez 15. Cuide-se”, ela respondeu.

Não existe nenhuma cura para o COVID-19, nome oficial da doença causada pelo novo coronavírus. Os médicos usam um coquetel de outros medicamentos, especialmente antivirais para aliviar os sintomas.

O médico de Deng prescreveu um regime constando de arbidol, antiviral usado para tratar gripe na Rússia e na China; Tamiflu, outro remédio conhecido internacionalmente. E Kaletra, medicamento usado para casos de Aids, que se acreditava bloqueava a reprodução do vírus. Deng tomava pelos menos 12 comprimidos por dia, como também o recomendado pela medicina tradicional chinesa.

Apesar do seu otimismo, ela enfraqueceu. Sua mãe lhe trazia comida feita em casa, mas ela não tinha apetite. Para alimentá-la uma enfermeira tinha de vir às 8h30 para lhe aplicar uma injeção intravenosa com nutrientes e anticorpos eram injetados nas veias e mais uma dose de antiviral.

Xia, também, ficou gravemente doente, mas aos poucos parecia estar combatendo a infecção. Sua febre diminuiu depois de alguns dias e ela passou a respirar com mais facilidade com o uso de ventilador pulmonar.

No começo de fevereiro ela perguntou ao seu marido, Wu Shilei, que também é médico, se logo poderia ficar sem a terapia de oxigênio.

“Vamos com calma, não fique demais ansiosa”, ele respondeu. E disse que o ventilador pulmonar possivelmente seria removido na semana seguinte. Havia razões para acreditar que ela estava melhorando. Afinal muitos pacientes haviam se recuperado.

Xia, mais tarde, testou duas vezes negativo para o coronavírus. Ela disse à sua mãe que esperava sair do hospital em 8 de fevereiro.

Declínio - Dias 4 a 15 após a hospitalização

No quarto dia de Deng no hospital, ela não mais fingia estar animada. Estava vomitando, tendo diarreia e tremores.

Sua febre subiu para mais de 38,5 graus. No início da manhã do dia cinco de fevereiro acordou e percebeu que os remédios que foram injetados não diminuíram a temperatura. Ela gritou. A partir daí passou a ser considerada uma paciente gravemente doente.

A China define gravemente doente um paciente com insuficiência respiratória, ou falência de órgãos. Cerca de 5% das pessoas infectadas chegaram a esse estado crítico na China de acordo com um dos mais amplos estudos feitos até agora de casos de coronavírus. Desses 5%  em torno de 49% morrem.

Embora XIA parecia se recuperar, ela tinha um medo terrível de morrer. Os testes podem ser falhos e resultados negativos não significam necessariamente que os pacientes estão curados.

Pediu à mãe que lhe prometesse cuidar do seu bebê de dois anos no caso de ela morrer.

Esperando acalmar o nervosismo dela com humor, sua mãe, Jiang Wenyan, brincou: “O filho é seu. Não quer educá-lo você mesma?”

Xia também se preocupava com seu marido. Num bate-papo por vídeo, insistiu para ele usar equipamento de proteção no hospital onde trabalhava. “Ela disse que esperaria por mim para retornar em segurança e voltar à linha de frente comigo quando se recuperasse”.

Mas repentinamente o estado de saúde dela deteriorou. Nas primeiras horas de sete de fevereiro, seu marido seguiu às pressas para a sala de emergência. O coração de Xia parou de bater.

Recuperação - Dia 17 após a hospitalização

Em muitos casos o corpo reage sozinho. O sistema imunológico produz anticorpos suficientes para matar o vírus e os pacientes se recuperam.

No final da primeira semana de Deng no hospital, sua febre cedeu. Ela conseguia comer o que sua mãe lhe trazia de casa. Em 10 de fevereiro seu apetite retornou, ela olhava fotos de espetinhos de carne online e as postava na mídia social.

Em 15 de fevereiro testes deram negativo para o vírus. Três dias novamente foram negativos. Ela poderia voltar para casa.

Deng se encontrou com sua mãe rapidamente na entrada do hospital. Então, como Wuhan continuava em isolamento, sem táxis ou transporte público, ela foi a pé para casa.

“Eu me senti como um passarinho”, ela lembra. “Minha liberdade havia retornado”.

O governo chinês tem insistido para pacientes que se recuperam para doarem plasma, que segundo especialistas, contêm anticorpos que podem ser usados para tratar a doença. Deng contatou o banco de sangue local logo depois de voltar para casa.

Ela planeja voltar logo mais ao trabalho. “Foi a nação que me salvou. E acho que devo reembolsar a nação por isso”, disse ela.

Morte - Dia 35 após a hospitalização

Foi depois das três horas da madrugada do dia 7 de fevereiro que Xia foi levada às pressas para a UTI. Os médicos a entubaram. Depois o presidente do hospital convocou vários especialistas de toda a cidade, incluindo o Dr. Peng Zhiyong, chefe do departamento de urgências do Hospital Zhongnan.

Telefonaram a todos os grandes hospitais em Wuhan para pedir emprestado um aparelho de oxigenação de membrana extracorporal, para fazer funcionar o coração e os pulmões.

O coração de Xia voltou a bater. Mas a infecção dos pulmões era muito grave. Seu cérebro carecia de oxigênio, causando danos irreversíveis. Logo seus rins pararam de funcionar o os médicos a submeteram a diálise.

“O cérebro atua como centro de controle. Ela não conseguia comandar seus outros órgãos e assim eles não respondiam. Era apenas uma questão de tempo”, disse o Dr. Peng.

Xia entrou em coma e faleceu em 23 de fevereiro.

O Dr. Peng continua perplexo com o fato de Xia morrer quando parecia estar melhorando. Seu sistema imunológico, como o de muitos funcionários na área da saúde, podia estar comprometido pela exposição constante à doença. Talvez ela sofresse com a chamada “tempestade de citocinas”, em que a reação do sistema imunológico a um novo vírus inunda os pulmões com células brancas e fluído. Talvez ela tenha morrido porque seus órgãos estavam com falta de oxigênio.

O filho de Xia, Jiabao, ainda acha que sua mãe está trabalhando. Quando o telefone toca, ele tenta pegá-lo das mãos da sua avó, gritando “Mamãe, mamãe”.

Seu marido não sabe o que dizer ao filho. Ele ainda não se convenceu da morte dela. Os dois se conheceram na faculdade de medicina. E planejavam envelhecer juntos.

“Eu a amava muito”, disse ele. “Agora ela partiu. Não sei o que fazer no futuro. Só tenho apenas que perseverar”. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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