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Pilar Olivares/Reuters
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'É difícil trabalhar com essa política de distribuir vacina a conta-gotas', diz epidemiologista

Para os especialistas ouvidos pelo Estadão, o maior erro do governo foi não ter comprado as vacinas quando elas estavam disponíveis, ainda no ano passado

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2021 | 10h00

O cenário de incerteza e imprevisibilidade sobre quando novas doses da vacina contra covid-19 estarão disponíveis no Brasil e em quais quantidades têm deixado especialistas em imunização do País aflitos. Na semana passada, o Estadão conversou com três deles, todos envolvidos nos últimos anos com campanhas de vacinação e a posição de todos foi a mesma: é urgente que o Brasil compre vacinas e que seja transparente sobre o cronograma.

“Não sabemos de verdade com o que podemos contar. E é muito difícil trabalhar com essa política de distribuir a vacina a conta-gotas”, afirma a epidemiologista Carla Domingues, que coordenou o Programa Nacional de Imunizações (PNI) de 2011 a 2019. “A falta de um cronograma confiável impede qualquer planejamento adequado”, concorda Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações.

“As pessoas estão sendo chamadas aos pouquinhos, numa decisão a cada semana, porque não se sabe se e quanto vai de fato ter de vacina. Agora vêm os de 90, depois 89, depois 81. É triste isso. No Rio, a prefeitura tinha anunciado ao longo da semana que na sexta seria a vez das pessoas de 75. Na véspera se percebeu que não teria vacina para aplicar, e a vacinação foi suspensa”, exemplifica.

O Chile, país que já vacina 6 vezes mais que o Brasil, já está imunizando doentes crônicos da faixa dos 40 anos – em outro exemplo de sucesso na sua campanha.

À parte alguns erros pontuais já observados no País, como a vacinação de mais de cem mil pessoas que não fazem parte dos grupos prioritários ou a dificuldade de alcançar o grupo de 90+, Isabella opina que o processo está funcionando dentro do que é possível. 

“Mas as pessoas que estão na ponta têm muita dificuldade de planejar. Como é que se planeja uma vacinação sem ter em mãos a matéria-prima fundamental, que é a vacina”, questiona?

Campanhas de vacinação no Brasil costumam trabalhar com a definição de públicos-alvo e faixas etárias, mas nunca de forma tão estreita. Para a vacina da gripe, por exemplo, todos os idosos são convocados de uma vez. Agora, com a vacina anti-covid, tem gente de 90 ou mais que por uma série de questões acabou ainda não sendo vacinada - seja por dificuldade de mobilidade ou por não se convencer da importância. 

Já com o público acima de 75, ao menos no Rio, aponta a pesquisadora, acredita-se que a adesão foi maior do que a esperada, o que levou ao fim mais rápido da vacina.

Com a experiência de planejar campanhas de imunização desde 1975, José Cássio de Moraes, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e membro do Observatório Covid-19, lembra que, anualmente, são aplicadas cerca de 300 milhões de doses em 40 mil salas em todo o País.

“Mas isso tem de ser bem planejado meses antes da campanha começar. No caso da covid-19, claro que tem o fato de a doença ser nova, mas o governo não ter investido na compra antecipada de vacinas impediu esse planejamento. Não tem como o programa não caminhar lentamente”, afirma o médico.

Como as duas vacinas disponíveis no Brasil demandam duas doses, é preciso planejar para que não falte a segunda para quem tomou a primeira. “Não temos como vacinar o maior número de pessoas com a primeira dose se não temos nenhuma garantia de quando vamos ter a segunda”, comenta.

“O que deixa a gente triste é que existe estrutura para aplicar vacina no Brasil. Não precisa criar sala, comprar geladeira, treinar aplicador. Temos tudo isso, menos vacina e os insumos”, lamenta.

Para os especialistas ouvidos pelo Estadão, o maior erro do governo foi não ter comprado as vacinas quando elas estavam disponíveis, ainda no ano passado. Agora, nenhum dos novos acordos em discussão – com a Pfizer, a Covaxin e a Janssen – serão para pronta entrega. Essas doses, se de fato forem contratadas, só chegarão a partir do segundo semestre.

Mas eles criticam que neste momento ainda há muita intenção de compra, mas poucos contratos firmados, com garantia de entrega, para poder fazer de fato um planejamento. Mesmo a Sputnik, que acabou de ter o acordo firmado, ainda não teve o uso emergencial autorizado pela Anvisa.

Os pesquisadores afirmam que diante da falta de perspectiva de aumentarmos imediatamente a vacinação, é caso de adotar medidas extremas. “Nesse momento, só as vacinas que temos não vão resolver. É preciso mitigar. A única saída é o distanciamento social, é usar máscara”, diz Carla.

“Isso que estamos vivendo não aconteceu por acaso, não foi uma desgraça, um castigo de Deus aos brasileiros. É resultado de déficit de vacinas e de não termos adotado as medidas não farmacêuticas do controle da pandemia. Estamos colhendo os frutos por toda a descoordenação que vivemos. E hoje somos os campeões de produção de vírus, um título nada honroso”, lamenta Moraes.

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