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Jean Chiozini/Arquivo pessoal
Jean Chiozini/Arquivo pessoal

‘Mando para hospital, não tem vaga e voltam piores. É enxugar gelo’, diz médico de posto de saúde

No interior de São Paulo, unidade básica de saúde é exemplo do colapso e da dificuldade de tratar da explosão dos casos de covid-19

Júia Marques, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2021 | 05h00

* Depoimento de Jean Chiozini, que trabalha em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) em Cabrália Paulista, no interior de São Paulo

"Trabalho em uma UBS (Unidade Básica de Saúde) em Cabrália Paulista, no interior de São Paulo, com 4 mil habitantes. Aqui não tem hospital, nem UPA. Agora, a UBS virou uma 'upinha'. Quando alguém precisa de hospital, eu mando para Duartina (município a 15 km), mas lá está sempre cheio e acabam dispensando. Estou fazendo aqui oxigenoterapia, controlando saturação, coisas que deveria mandar para o hospital, mas sei que, se eu mandar, vão devolver o paciente para casa.

De fevereiro para cá, tanta gente ficou doente que não tinha como dar assistência para todo mundo, muitos precisavam de atendimento hospitalar. Foi aí que pegou fogo. Tem coisas que vão além do que um posto pode oferecer. Tem paciente que precisa fazer radiografia e no postinho eu não tenho nem bisturi. É para mim que retornam. Mando para o hospital, não tem vaga e voltam piores do que estavam. É enxugar gelo.

Se vejo que o paciente está saturando abaixo de 95% deixo um tempo no oxigênio no postinho. Coloco um cateter nasal e ligo o oxigênio. Já pedi cateter nasal e oxigênio de reserva porque sabemos que vamos ter de ser um pouco de hospital neste momento. Nunca vi isso na minha vida.

O problema é que a UBS fecha às 16 horas e o paciente tem de ir embora. Oriento a comprar um oxímetro e ficar observando em casa e, se vir que está ruim, ir para Bauru, tentar a sorte em um hospital. Já teve caso de eu levar no meu carro uma paciente que estava mal porque o hospital mandava embora. Ela veio aqui saturando a 89%. Levei para a UPA de Bauru. Lá não sabiam como ainda estava viva. Ela foi internada e infelizmente faleceu, tinha 29 anos. Ia morrer em casa, faltando ar.

Agora está um caos porque as outras doenças não pararam. Temos paciente com dengue chegando ao postinho e só um quarto. Como colocar um paciente que tem de receber soro para dengue com paciente exalando covid para a sala inteira? Tive esgotamento emocional, estou tomando medicação que nunca precisei tomar na vida. Cheguei a atender 55 pessoas por dia em 8 horas sendo que o recomendado é 30.

Desde março, só vão para a UBS as gestantes, pacientes para ver exames alterados e quem precisa muito agendar uma consulta. Passamos carro de som na cidade para as pessoas não procurarem o posto se não estiver precisando. Isso piora o atendimento porque tem paciente diabético e hipertenso que eu não vejo há um tempo."

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