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'É muito ruim pensar que posso adoecer e não vou querer meus pais por perto'

Médica relata rotina difícil em UTI de hospital público de São Paulo e conta os desafios que enfrenta para se proteger e tratar pacientes com suspeita de coronavírus

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2020 | 05h00

Correções: 02/04/2020 | 10h22

SÃO PAULO - "Hoje eu até agradeço por morar sozinha, porque se tivesse de trabalhar de frente com esse coronavírus morando com os meus pais, acho que eu já teria mudado de casa para não ficar perto deles. Mas é muito mais difícil, porque não sei quando vou poder vê-los de novo. E o medo de adoecer sozinha é também muito angustiante."

A declaração é da médica intensivista Amanda Veiga, de 31 anos, no momento em que mais ficou emocionada ao contar ao Estado como tem sido sua rotina nas últimas semanas após a chegada ao Brasil da pandemia de covid-19

De voz serena, ela relata que vem atuando diariamente, em plantões de 12 horas na UTI de um hospital público de São Paulo, com a dor causada pelas máscaras mais rígidas, lutando para deixar vivos pacientes que não seguem a lógica exposta nos estatísticas de outros países. É uma epidemia dinâmica, que faz com que os médicos tenham de correr sobre um terreno desconhecido.

“A gente sabe como tratar as complicações, mas o que vem no dia seguinte, nas próximas horas é tudo muito novo. Cada paciente se comporta de uma forma”, afirma. “Tinha a história de que só os idosos seriam a população de risco. Realmente é pior neles, mas temos pacientes jovens internados. E eles apresentam a mesma gravidade dos idosos. Esse desconhecido é o que assusta a gente. E o medo de perder as pessoas. Além do medo de se contaminar.”

Amanda diz que mesmo jovens sem comorbidade estão sendo internados. “Eu tenho pacientes de 29, 31 anos, com asma. Mas também tenho alguns com 40, 45 anos, que não tinham nada, mas ficaram tão graves quanto os idosos. Essa história de que jovens não apresentam quadros graves a não ser que tenham alguma doença associada ainda é um território bem desconhecido para a gente afirmar”, diz.

“Por isso não concordo em acabar com a quarentena agora. Porque não sabemos. Não dá para correr o risco de pegar e esperar que seja uma forma leve”, afirma a médica que conta já ter perdidos nas últimas semanas pacientes jovens e idosos com suspeita de covid-19, mas que ainda não foram confirmados como a doença.

Máscara tem, mas não dá para trocar

Mineira de Barbacena, Amanda está há um ano em São Paulo atuando como intensivista no Hospital Geral do Grajaú, zona sul da cidade. Ela diz que ainda há equipamentos de segurança para trabalhar, mas o temor constante é de que eles acabem se a epidemia se prolongar. 

“Em nenhum momento eu tive de atender sem equipamento. Não são iguais aos da Itália, da Espanha, mas temos avental, luva, máscara, óculos, touca. O mínimo de equipamento pra trabalhar, para não se contaminar, a gente tem, mas não posso trocar de máscara várias vezes ao dia. Não tem como fazer isso, ou vai acabar”, afirma.

Ela permanece paramentada o tempo todo, ao longo das 12 horas do plantão, e conta sentir muita dor. No último fim de semana, ela postou nas redes sociais uma foto com seu rosto profundamente marcado.

“A máscara é cheia de ferro, porque tem de vedar o rosto todo, para não passar nem um pouco de ar. Então machuca muito. A touca também machuca. E dói o tempo inteiro. Mas a gente fica tão atarefado com os pacientes graves que não percebe. No momento da adrenalina, você não sente o quanto que está machucando, até que tira e vê o estrago. E aí está tudo marcado mesmo” nariz, rosto. É muito doloroso. Mas é proteção que não é dispensável”, conta.

Enquanto isso, os pacientes vão chegando aos montes. O hospital, que funciona no regime de portas abertas, separou uma UTI, com dez leitos, só para pacientes graves que chegam com suspeita de covid-10. Amanda estima que o atendimento a esses casos triplicou nas últimas semanas. 

Para poder atender o maior número de pessoas, logo que elas passam pelo atendimento intensivista, quando há condições são transferidas para outros hospitais, de modo que seja possível girar os leitos e atender mais pacientes.

“A gente não fica com leito vago nem na UTI respiratória nem nas outras. O que mais angustia é que estamos fechando UTIs para o coronavírus, mas as outras doenças não param. Existem mil outros pacientes também precisando de UTI”, relata a médica, voltando a defender que as pessoas permaneçam em casa. 

“É o que queremos evitar: esse colapso que está por vir. Ele vai acontecer, a previsão é que os casos aumentem muito nesta semana e na próxima. Já estamos percebendo que estão aumentando e nossa preocupação é não ter leito principalmente para quem não é de coronavírus e precise de leito para outras coisas”, diz.

Nesse momento, ela volta a pensar nos pais. “É muito ruim pensar que eu posso adoecer e não vou querer ter meus pais por perto. Jamais deixaria eles virem, mesmo que eu esteja morrendo. É muito ruim trabalhar com essa incerteza, mas… a gente fez terapia intensiva para isso.” 

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Correções
02/04/2020 | 10h22

Nota da reportagem: Por uma dessas falhas lamentáveis que só podem ser justificadas pela correria da produção jornalítisca em meio à pandemia, o sobrenome de Amanda Veiga saiu errado na primeira versão desse texto. Perdão, Amanda. Fique bem!

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