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E o mal-estar?

Quanto mais aceitarmos a existência do mal-estar, menor ele será. E quanto menor for, mais espaço deixará para o bem-estar

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2021 | 03h00

Na coluna de estreia deste novo caderno, conversamos sobre o que é felicidade e o que é bem-estar, além de já começarmos a refletir sobre maneiras de aumentar esses aspectos positivos da nossa vida.

Mas, e quase sempre há um mas, a vida não é só feita de coisas boas. Há uma quantidade inevitável de mal-estar no nosso dia-a-dia (e no balanço geral da nossa existência) da qual não conseguimos nos livrar. Tristezas, frustrações, decepções, ansiedades, dores físicas e emocionais nos espreitam à frente e nos perseguem lá de nosso passado, aparentemente com o único propósito de roubar nossa felicidade.

Não podemos nos deixar levar pelas aparências, contudo. O mal-estar que nos acompanha não tem objetivo de nos derrubar. Trata-se da consequência de sermos esses animais complexos, ricos em interações, plenos de expectativas, dançando numa constante ciranda de sentimentos. Se vivêssemos vidas superficiais, sem envolvimento emocional, reagindo automaticamente aos estímulos como bactérias em placas de Petri num laboratório controlado, certamente não teríamos de enfrentar momentos de angústia ou apreensão. A contrapartida, fica óbvio, é que também não experimentaríamos explosões de alegria ou mesmo meros sorrisos de satisfação.

Sendo essa uma realidade tão evidente, como podemos lidar melhor com ela? Tirando as situações em que de fato nossas emoções adoecem, saindo do controle e dominando nossa vida – ocasiões em que é preciso buscar cuidado profissional –, no mais das vezes o mal-estar nos incomoda tanto mais quanto menos aceitamos sua existência. Quando compramos a ideia de que a vida deve ser o tempo todo alegria e contentamento acabamos sofrendo muito mais com o surgimento da tristeza, por exemplo, como se ela fosse uma alienígena inesperada se intrometendo num lugar a que não pertence. Ficamos tristes por estar tristes. O que gera um círculo vicioso de insatisfação e decepção.

É preciso, portanto, compreender que uma vida que inclua felicidade, risos, amor, é necessariamente uma vida complexa do ponto de vista emocional, o que implica momentos de picos, mas também de vales. Essas quedas não são defeitos. Não são erros de programação, nem resultados de alguma falha que tenhamos cometido. São parte da vida.

Paradoxalmente, portanto, quanto mais aceitarmos a existência do mal-estar, menor ele será. E quanto menor for, mais espaço deixará para o bem-estar. Reconhecer que não é possível ficar bem o tempo inteiro é a melhor forma de estendermos esse limitado tempo.

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