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É possível medir a profundidade do seu sono

Há quem acredite passar a noite acordado, quando as ondas cerebrais mostram o contrário

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2021 | 05h00

Quando alguém nos acorda podemos ter dois sentimentos: ou achamos que estávamos dormindo profundamente ou que estávamos em um sono leve. É nossa percepção subjetiva de como estávamos dormindo. Por outro lado, temos a medida objetiva da profundidade do sono.

Usando eletrodos colocados em nossa cabeça faz décadas que os cientistas descobriram que durante a noite a profundidade do sono varia. No início da noite o cérebro diminui muito sua atividade, e as ondas medidas com os equipamentos indicam pouca atividade. Nessa fase do sono não sonhamos e nossos olhos não se mexem por baixo das pálpebras. É o chamado sono NREM (non rapid eye movement). Com o passar do tempo o cérebro se torna mais ativo, nosso globo ocular se mexe sob a pálpebra, e começamos a sonhar. Esse segundo tipo de sono se chama REM (rapid eye movement). Observando uma pessoa dormindo podemos descobrir se a pessoa está em REM ou NREM, basta olhar se o globo ocular está se movendo. Além disso, existem pessoas que acreditam que passam a noite acordadas quando as medidas mostram que elas dormem normalmente. Elas sofrem de má percepção do sono (deve ser horrível).

Até agora se acreditava que a percepção subjetiva do estado em que estamos ao ser acordados correspondia às medidas de atividade do cérebro. Sono REM seria percebido como leve e sono NREM seria percebido como profundo. Mas, como é comum em ciência, quando você investiga crenças com experimentos, elas muitas vezes se mostram erradas.

Para investigar se nossa percepção da profundidade do sono corresponde à atividade cerebral, os cientistas colocaram eletrodos na cabeça de 20 pessoas que não possuíam distúrbios do sono e em 10 pessoas com má percepção do sono (aquelas que acham que estão acordadas quando estão dormindo). Durante a noite, cada uma dessas pessoas foi acordada pelos cientistas e entrevistada. Elas respondiam se achavam que estavam em sono profundo ou leve, se estavam sonhando e o que estavam sonhando. Aí as pessoas voltavam a dormir e eram acordadas novamente mais tarde. Isso foi feito 787 vezes com esses 30 voluntários. Como os cientistas estavam registrando a atividade cerebral no momento que acordavam a pessoa, foi possível relacionar o que a pessoa relatava sobre o próprio sono ao que realmente estava acontecendo no cérebro. Os resultados surpreenderam.

Nos 20 voluntários com padrão de sono normal, os cientistas descobriram que a percepção subjetiva (o que a pessoa relata) é o oposto do que os eletrodos medem. As pessoas que estavam em sono profundo (NREM) relatavam que acordaram de um sono leve e as pessoas que estavam em REM (sono leve com sonhos) relatavam que estavam dormindo profundamente. Ou seja, nossa percepção do sono que estamos desfrutando é o inverso do que as medidas objetivas da atividade cerebral indicam.

Já os 10 voluntários que sofrem de má percepção do sono sempre relatam que foram acordados de um sono leve, tanto faz o tipo de sono que estão desfrutando. E, além disso, as ondas cerebrais de seus cérebros indicam que eles têm ondas típicas do sono pesado (NREM) e elas estão espalhadas por todo o cérebro.

Esses resultados mostram como nossa percepção da realidade é falha e podem ajudar a tratar distúrbios do sono.

Mais informações: Conscious experiences and high-density EEG patterns predicting subjective sleep depth. Curr. Biol.

*É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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