REUTERS/Shannon Stapleton
REUTERS/Shannon Stapleton

É preciso parar de consumir álcool para emagrecer? Não necessariamente

Impacto no peso varia de pessoa para pessoa; a dica é se pesar regularmente

Jane E. Brody, The New York Times

28 Março 2017 | 07h00

Quem está tentando emagrecer - ou pelo menos não engordar - quase sempre ouve que tem que "deixar a birita de lado". Embora organizações como a Vigilantes do Peso ofereçam sugestões de consumo consciente como parte de seus programas, a bebida alcoólica, com sete calorias por grama e sem nutrientes, geralmente é vista como vilã em praticamente todas as dietas.

Depois das festas de fim de ano, sempre ouço o pessoal culpando a bebida pelos quilinhos a mais, não só pela contribuição calórica, mas também por minar o autocontrole, estimulando o apetite e a vontade de consumir alimentos gordos.

Apesar disso, você deve conhecer alguém que todo dia toma sua tacinha de vinho ao jantar, ou um coquetel antes da refeição, e nunca ganha nenhum grama indesejado. Uma vez que os bebedores moderados vivem mais que os abstêmios, eu adoraria poder tomar um copo de vinho ou de cerveja à noite, se pudesse fazê-lo sem virar um balão; então, fui pesquisar para saber o que a ciência diz sobre a influência do álcool no peso.

Apesar de milhares de estudos realizados ao longo de várias décadas, descobri que esse continua sendo um dos tópicos mais controversos e confusos entre aqueles que querem controlar o peso.

Conferi vinte e tantos relatórios de pesquisas, muitos dos quais oferecem conclusões conflitantes, até finalmente descobrir uma análise científica minuciosa que pode ajudar o público a determinar se a bebida é compatível com um controle eficaz de peso.

Publicado em 2015 na Current Obesity Reports, a investigação foi feita por Gregory Traversy e Jean-Philippe Chaput, do Grupo de Pesquisa sobre Estilo de Vida Ativo Saudável e Obesidade do Hospital Pediátrico do Instituto de Pesquisa de Ontário Oriental, em Ottawa.

A princípio, os pesquisadores examinaram as chamadas "análises transversais", isto é, que estudam a relação entre o consumo alcoólico e o índice de massa corporal entre grupos grandes em um determinado momento. A conclusão mais comum foi que, geralmente entre os homens, a bebida não estava "associada" ao peso, enquanto que, entre as mulheres, ela ou não afetava o peso, ou estava relacionada a um peso mais baixo do que entre aquelas que não bebem.

Em resumo: a maioria das pesquisas mostrou que "o consumo frequente, de leve a moderado (no máximo dois drinques/dia para eles, um para elas), não parece estar associado ao risco de obesidade". Porém, o excesso pontual (cinco drinques ou mais em uma única ocasião) ou habitual (mais de quatro drinques diários para eles e três para elas) estava ligado a um risco maior de obesidade e aumento da linha da cintura. E ao contrário do que indica grande parte das outras análises, há indícios de que para adolescentes e (infelizmente) idosos, a bebida alcoólica, em qualquer quantidade, pode "gerar peso excedente e um porcentual de gordura corporal mais elevado".

A análise prospectiva, geralmente considerada mais rigorosa que a transversal, acompanha grupos de pessoas ao longo do tempo - neste caso, de diversos meses a vinte anos -, teve resultados variados e não gerou "um quadro claro" da relação entre bebida e peso. Várias delas ou não encontraram nenhuma ligação, ou correlação negativa, pelo menos entre as mulheres, enquanto outras concluíram que, entre os homens que bebem, a tendência de risco de se tornarem obesos era maior, principalmente se fossem consumidores de cerveja.

E a conclusão dos estudos mais recentes desse tipo foi: embora os consumidores excessivos estejam arriscados a engordar, o consumo de leve a moderado não está associado ao ganho de peso nem às mudanças na linha da cintura.

As análises que, segundo Chaput, eram "mais confiáveis" e "forneceram evidências mais fortes" foram os experimentos controlados nos quais diversas pessoas, aleatoriamente, tiveram que consumir bebidas alcoólicas sob condições monitoradas. Uma delas concluiu que beber dois copos de vinho tinto com o jantar, diariamente, durante um mês e meio, não resultou em nenhum ganho de peso nem em aumento da porcentagem de gordura corporal em 14 homens quando comparados com a mesma dieta e programa de exercícios sem álcool. Investigação semelhante entre vinte mulheres sedentárias com sobrepeso não revelou mudanças drásticas no peso após 2,5 meses de consumo de um copo de vinho, cinco vezes por semana.

Entretanto, os estudos experimentais foram pequenos e os "períodos de intervenção", curtos. Chaput observou que mesmo um aumento mínimo no peso ao longo de poucos meses pode representar um excesso considerável em cinco anos, a menos que haja uma redução de compensação no consumo alimentar ou aumento de atividade física.

Ao contrário das proteínas, gorduras e carboidratos, o álcool é uma substância tóxica não armazenada no organismo. As calorias desse tipo são usadas como "combustível", diminuindo assim o uso que o corpo faz de outras fontes, ou seja, quem bebe tem que comer menos ou se exercitar mais para manter o peso.

Chaput afirma conseguir evitar engordar e ganhar gordura corporal, apesar de consumir "uns quinze drinques por semana", com uma dieta saudável, exercícios diários e monitoramento regular do peso.

Segundo ele, as grandes diferenças nos padrões de consumo entre homens e mulheres influenciam as conclusões sobre os efeitos do álcool. "Eles têm mais tendência de beber em excesso, principalmente cerveja e destilados; já a maioria das mulheres consome mais vinho e tem tendência de compensar as calorias extras consumidas na bebida."

A genética também é um fator importante. Chaput sugere que o álcool pode ser mais que um problema entre aqueles que têm tendência para engordar. "As chances de quem já tem sobrepeso engordar com o aumento do consumo de álcool são muito maiores."

Além disso, assim como eu, inúmeras outras pessoas também descobriram que a bebida alcoólica tem um efeito "desinibidor" e pode estimular a pessoa a comer mais se houver opções disponíveis. "As calorias extras consumidas com a bebida alcoólica são armazenadas como gordura", ele alerta os beberrões.

Resumo da ópera: as pessoas são diferentes umas das outras. Os estudos citados acima fazem uma média entre os grupos e, portanto, ignoram as particularidades individuais. Mesmo que duas pessoas comecem o estudo pesando a mesma coisa e comendo, bebendo e se exercitando da mesma forma, as consequências do consumo do álcool serão diferentes entre ambas.

A solução? Autopoliciamento: pese-se regularmente, até diariamente se preferir, sempre à mesma hora e nas mesmas circunstâncias. Se você for um bebedor moderado e perceber que vem engordando aos poucos, tente diminuir o consumo ou aboli-lo durante alguns meses para ver se emagrece, engorda ou se mantém estável.

Vale também consultar uma fonte confiável para saber as diferenças no número de calorias entre drinques semelhantes, que muitas vezes podem ser surpreendentes. O Centro para Ciência no Interesse Público recentemente publicou uma lista, disponível (em inglês) no site www.nutritionaction.com. Basta digitar: "Quais as bebidas alcoólicas são mais calóricas?". Embora praticamente não haja diferença entre vinhos brancos e tintos, por exemplo, 340 ml de cerveja, dependendo da marca, podem conter de 55 a 320 calorias. /The New York Times 

 

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