TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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É seguro fazer carnaval nas ruas? Especialistas recomendam observar infecções, variantes e vacinação

Para a folia acontecer em 2022, também é preciso levar em consideração a realidade epidemiológica de cada região e aumentar o sequenciamento genético dos novos casos

Leon Ferrari, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2021 | 17h03

A realização de festejos carnavalescos em 2022 vai depender de uma avaliação da realidade epidemiológica e da cobertura vacinal de cada localidade. A análise é de especialistas ouvidos pelo Estadão, que alertam que o evento é de difícil implementação de protocolos sanitários, como máscaras e distanciamento social

Ao menos 70 cidades do interior de São Paulo já declararam não ter condições de realizar o evento e cancelaram o carnaval de 2022 motivadas pela pandemia de covid-19. Entre os motivos, as prefeituras alegam o risco de um aumento nas infecções pelo vírus. O governo do Estado disse nesta quarta-feira, 24, que a decisão caberá aos prefeitos, mas que ainda é cedo para bater o martelo sobre o tema. 

O superintendente de Vigilância em Saúde do governo de Santa Catarina, Eduardo Macário, concorda que é muito cedo para dizer se será ou não possível realizar as tradicionais festas de carnaval em 2022. 

Ele acredita que a resposta a essa pergunta só pode ser dada na segunda quinzena de janeiro, quando será possível ter um "termômetro" do comportamento da população e da pandemia, analisando o saldo de casos e óbitos após as comemorações de final de ano.   

Para que haja liberação do carnaval de rua, aponta, será necessário que, em janeiro, as taxas de novos casos e mortes sigam em baixa e que a vacinação tenha avançado significativamente. 

Macário afirma que a realização do evento depende de se atingir uma imunidade coletiva contra a covid (mais de 80% da população com esquema vacinal completo) e de se ter aplicado dose de reforço em 80% da população idosa, com mais de 60 anos. Isso porque, na visão dele, o carnaval é uma festividade difícil de controlar.  

"O carnaval é um tipo de evento que você não consegue fazer distanciamento e é muito difícil cobrar o uso de máscaras", aponta o epidemiologista. "É um contrassenso pensar que as pessoas irão cumprir essas medidas."

Nesse sentido, para que haja carnaval, Macário incentiva a população a comemorar o Natal e o Ano Novo de forma "segura", sem aglomerações e cumprindo protocolos sanitários. 

Além disso, destaca ser necessário intensificar os esforços de vacinação. "Agora é o momento de protegermos o maior número de pessoas, pois ainda não estamos em um momento seguro. O número de casos e mortes ainda é elevado, mesmo que tenhamos médias móveis baixas", avalia. 

Decisão precisa levar em consideração realidade local

Tanto Macário quanto a coordenadora do Núcleo de Pesquisa Biomédica e professora do Departamento de Medicina da Universidade Federal de Lavras (UFLA), Joziana Barçante, apontam que a decisão sobre a realização de eventos com aglomeração, como o carnaval, precisa levar em conta a realidade local. Isso porque, explica Joziana, a realidade vacinal brasileira não é homogênea. 

"Se pegarmos só os grandes centros: Pernambuco está com 57% da população total com a cobertura vacinal completa; Rio de Janeiro, 70%; São Paulo, 73%. Vemos que o cenário não é homogêneo e, se analisarmos o exterior, é mais complicado ainda", avalia Joziana. 

Outro ponto a ser considerado, reforça, é que a vacinação, por si só, não é capaz de bloquear a transmissão da doença. 

Por isso então, aponta, a decisão precisa levar em conta, além do cenário epidemiológico local, se a cidade tem capacidade de: atender a uma demanda de saúde pública com um possível aumento de casos; fazer testagem em massa; cobrar passaporte sanitário; fazer vigilância genômica, antes e depois do evento; e intensificar a cobertura vacinal da população, para chegar a uma porcentagem razoável.

"Sem isso não é possível ter um carnaval seguro de portas abertas", frisa. Ela ainda indica que a avaliação também precisa olhar com cuidado a população mais nova. "O grupo dos mais jovens é o que mais frequenta esse tipo de evento, mas foi o último contemplado pelos protocolos vacinais." 

‘Medida mais importante é o passaporte da vacina’, diz sanitarista

O sanitarista Gonzalo Vecina acredita ser "impossível" controlar um evento das dimensões do carnaval brasileiro. Por ser "absolutamente contra" reuniões nas quais não se possa saber quem está vacinado, não crê ser possível realizar a festividade no ano que vem.  

"A medida mais importante é o passaporte de vacina", diz. "Se você fala em sambódromo, por exemplo, tem como fazer o controle, é possível. Agora, carnaval de rua, cordão, bloco, é impossível."

Mesmo acreditando que ao final do ano "teremos um cenário bem melhor", pois o País terá mais jovens com esquema vacinal completo e possivelmente atingirá 80% da população vacinada, Vecina destaca que é importante lembrar que a pandemia é um "fenômeno global". 

"Se surgir uma nova variante, dependendo das características dela, vai ser como se a pandemia estivesse recomeçando", avalia. O sanitarista teme o surgimento de uma nova cepa na Europa, que sofre com o aumento de casos, ou na África, que apresenta uma baixa cobertura vacinal.

No Brasil, onde os casos estão em tendência de queda - mas que ainda apresenta novas infecções diárias -, Vecina alerta que a testagem e a vigilância sanitária, medidas importantes para detectar variantes, estão aquém do recomendado. "Estamos fazendo uma vigilância genômica em um nível inferior ao necessário. A Inglaterra faz isso em 10% dos casos. Nós estamos fazendo em apenas 1%."

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