Zoom Dosso/AFP
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Ebola dá trégua na Libéria, mas não é comemorada

Metade dos leitos está vago e laboratórios fazem menos testes; período de incubação pode explicar 'onda' de aparente tranquilidade

O Estado de S. Paulo

29 Outubro 2014 | 09h15

MONRÓVIA - O vírus Ebola parece ter dado uma trégua no país com o maior número de infectados e mortos pela doença, a Libéria. Ao menos essa é a conclusão a que chegou profissionais de saúde que trabalham na busca de suspeitos de infecção e no tratamento inicial. Dias após dia neste mês, eles retornaram para centros de isolamento com ambulâncias vazias ou com apenas um ou dois pacientes.

As informações foram publicadas pelo jornal norte-americano The New York Times. Enquanto uns já encorpam as críticas contras as estimativas que falavam em crescimento vertiginoso de infectados, especialistas dizem que é muito cedo para comemorar. Uma análise da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a situação deve ser divulgada nos próximos dias.

Entre os motivos para que não se esteja achando infectados nas ruas está o costume de manter os entes doentes sendo tratados em casa e uma "onda" do período de incubação. A prática de manter os doentes longe dos centros de isolamento parece ter ganhado força com rumores de tratamentos inadequados e que a doença esteja sendo espalhada de forma proposital.

Ao redor do país, centros de tratamento, laboratórios que identificam o vírus e equipes nacionais e internacionais de medicina estão notando um padrão inesperado: há muito menos pessoas sendo tratadas para o Ebola do que o esperado. Até o domingo, 26, menos da metade dos 649 leitos estavam sendo ocupados, uma surpreendente mudança diante de cenários anteriores onde pacientes eram mandados para casa por falta de espaço.

Agora, admissões nos centros estão caindo, assim como o número de amostras de sangue testadas para o vírus. "Os números estão caindo, mas não sabemos o porquê", disse ao The New York Times a porta-voz do Médicos Sem Fronteiras, Malin Lager. "É muito cedo para comemorar", ponderou.

A Libéria é o centro da epidemia desde seu início, em março desye ano. O país responde pela metade dos infectados, que atinge outros cinco países do continente africano, além de casos isolados nos Estados Unidos e na Espanha. São 6.267 que contraíram o vírus em um total de 12.222; o número de mortos é de 2.106 entre 4.516.

Alguns discutem se os avisos da OMS sobre a epidemia, que chegou a falar que as infecções poderiam aumentar para 10 mil novos casos por semana na África até dezembro, foram grosseiramente inflados. 

Os leitos vazios na Libéria surgem em um contexto de intensa campanha sobre saúde pública para educar a nação sobre os perigos da doença e a forma de combatê-la.

Há também a possibilidade de que muitos estão morrendo escondidos das autoridades, como aconteceu durante o período mais grave da epidemia. Muitas partes do país não são bem monitoradas e autoridades já admitiram que algumas estatísticas não passam de estimativas em muitas localidades.

Laboratórios e leitos estão concentrados prioritariamente na capital, Monróvia. Grandes povoados do país estão há horas da capital em áreas com estradas e sinais de telefone ruins. 

Especialistas, que também estão concentrados em Monróvia, admitem a necessidade de irem ao interior para testar se a realidade deles se repete em pontos mais distantes. 

Anna Halford, coordenadora de campo dos Médicos Sem Fronteiras, disse que instituições de caridade possuem uma rede de contatos ampla e que o posicionamentos deles é diferente. "Nenhum dos supervisores acreditam que haja uma significante queda nos casos", disse.

Além disso, a coordenadora explicou que "é uma doença que vem em ondas por causa da variação do período de incubação e por causa da mobilidade do povo".

Tropas. O Secretário de Defesa americano, Chuck Hagel, recebeu a orientação de manter em quarentena os homens das Forças Armadas que estão em serviço em países com casos de Ebola quando eles retornarem aos Estados Unidos. O Pentágono disse que Hagel anunciará em breve que ele seguirá a recomendação. 

O assunto surge no mesmo dia em que o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês) lançou novos guias sobre como Estados devem tratar profissionais de saúde civis quando eles retornarem da África ao continente norte-americano.

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