Ebola: EUA isolam mulher e recebem críticas até da ONU

Ebola: EUA isolam mulher e recebem críticas até da ONU

Enfermeira ficou 3 dias em estacionamento só por ter voltado de área afetada; Casa Branca quer rever medidas de governos locais

Guga Chacra, ESPECIAL PARA O ESTADO

27 Outubro 2014 | 22h50

NOVA YORK - O isolamento por três dias de uma enfermeira que retornou do oeste da África, sem sintomas do Ebola, em uma tenda no estacionamento de um hospital de Nova Jersey provocou mais polêmica nos Estados Unidos do que o médico com o vírus internado em Nova York.

Essa quarentena de pessoas vindas de Libéria, Guiné e Serra Leoa que desembarcam nos aeroportos de Nova York e no Estado vizinho de Nova Jersey, onde há o movimentado aeroporto de Newark, dividiu as autoridades federais e estaduais. O endurecimento das medidas aconteceu depois de, na semana passada, o médico Craig Spencer ter sido diagnosticado com Ebola em Nova York. O médico circulou por vários locais, antes de desenvolver os sintomas. A Organização das Nações Unidas (ONU) e a Casa Branca, amparada pelo Centro de Controle de Doenças (CDC), consideraram exagerada a medida e pressionam para que seja revertida.

O temor é de que menos profissionais da saúde aceitem viajar para áreas atingidas na África, onde há enorme demanda por assistência médica no combate à epidemia. “Os profissionais da saúde não devem ser submetidos a restrições que não são baseadas na ciência”, disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. O porta-voz dele, Stephane Dujarric, afirmou ainda nesta segunda-feira que o secretário-geral acredita que “aqueles que foram infectados devem ser apoiados, não estigmatizados”.

Os Estados americanos, por sua vez, insistem nas restrições. “Se eles (as pessoas vindas do oeste da África) moram em Nova Jersey, terão de fazer quarentena em casa”, disse o governador, Chris Christie. Inicialmente, Nova York e Nova Jersey decidiram que as pessoas ficariam em quarentena em hospitais. Posteriormente, diante da pressão do governo Barack Obama, os Estados concordaram que as pessoas vindas do oeste da África não fiquem isoladas em centros médicos. Mas deverão permanecer em casa na quarentena de até 21 dias. 

Esse foi o caso de Kaci Hickox, colocada em quarentena na sexta-feira e só liberada nesta segunda-feira, 27, com exame de sangue negativo e sem sintomas. Ela deve seguir agora para o Maine, onde mora, “por meio de uma empresa de transporte particular, não por um meio de transporte coletivo ou em uma aeronave comercial”, conforme determinaram as autoridades.

Kaci disse que vai questionar a medida em uma ação civil, afirmando que o isolamento forçado violou direitos constitucionais. Advogados consideram difícil a vitória judicial.

Apesar da ação local, o governo federal também adotará isolamento. Havia informações de que uma dezena de soldados americanos que combateu o avanço do surto no oeste da África está isolada em uma base militar em Vicenza, na Itália. O coronel Steve Warren, porta-voz do Pentágono, alegou “monitoramento intensificado”.

Percevejo foi pior. Embora os moradores de Nova York tenham ficado impressionados, ninguém deixou de pegar metrô ou fazer suas atividades normais. A epidemia de percevejo cinco anos atrás causou uma tensão bem maior, quando muitas pessoas pararam de ir a cinemas e sentar nos metrôs.

“O Ebola não domina as conversas dos pais na escola”, afirma Paula Homor, uma advogada brasileira que mora em Manhattan. “Todos os casos foram de profissionais de saúde que cuidaram diretamente de pessoas infectadas”, diz a médica brasileira Paula Alhadeff, que trabalha no mesmo hospital onde atua Spencer.

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