Marcelo Chello/Estadão
Marcelo Chello/Estadão

Efetividade da Coronavac varia de 61,8% a 28% em idosos a partir dos 70 anos, mostra estudo

Pesquisa preliminar indica que taxa de proteção cai conforme aumento da idade e que apenas uma dose não confere imunidade; dados sobre efetividade da vacina contra hospitalizações e mortes ainda estão em análise

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2021 | 19h10

SÃO PAULO - Um estudo preliminar divulgado nesta sexta-feira, 21, indica que a efetividade da Coronavac cai conforme a idade e varia de 61,8% a 28% a partir dos 70 anos. A pesquisa foi publicada na plataforma MedRxiv e ainda está na fase pré-print, ou seja, não foi revisado por outros cientistas. O trabalho mostra também que o imunizante não confere nenhuma proteção com apenas uma dose.

Na média, a efetividade após 14 dias da segunda dose ficou em 42% no grupo de idosos analisado. O índice é inferior ao verificado nos testes clínicos da vacina no Brasil, feitos majoritariamente com voluntários mais jovens. Nesses testes, o produto teve eficácia global de 50,7%, chegando a 62,3% quando o intervalo entre as duas doses era igual ou superior a 21 dias. 

A nova pesquisa foi realizada pelo grupo Vebra Covid-19, que reúne pesquisadores brasileiros e estrangeiros de instituições como Fiocruz, Incor e Instituto Global de Saúde de Barcelona para avaliar a efetividade das vacinas em uso no Brasil. O projeto tem apoio financeiro da Organização Panamericana da Saúde (Opas).

Os testes de efetividade são considerados os “estudos de vida real”, ou seja, medem a taxa de proteção da vacina quando ela é aplicada em massa na população e fora do ambiente controlado de uma pesquisa clínica.

O trabalho avaliou o desempenho da vacina em idosos de 70 anos ou mais imunizados no Estado de São Paulo entre os dias 17 de janeiro e 29 de abril, período em que a variante P.1 já era predominante.

Os cientistas analisaram dados de 15.900 pessoas com suspeita de covid (tanto testes negativos quanto positivos) para calcular a taxa de proteção, chegando à conclusão de que há redução da efetividade conforme aumenta a idade, o que, segundo os cientistas, ocorre também com o imunizante contra a gripe “e é esperado que ocorra em outras vacinas”. De acordo com o artigo, a efetividade encontrada foi de 61,8% na faixa etária dos 70 aos 74 anos; 48,9% nas pessoas de 75 a 79 anos e de 28% acima dos 80 anos.

Em comunicado à imprensa, o grupo Vebra esclareceu que os dados de efetividade da Coronavac contra casos graves e mortes em idosos a partir de 70 anos ainda estão em análise.

Estudo do tipo feito no Chile e divulgado no mês passado apontou 80% de proteção contra mortes e 85% contra hospitalizações, considerando o período de 14 dias após a segunda dose da Coronavac. Os dados do estudo chileno, porém, não foram detalhados por faixa etária.

Para Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), o dado de queda de proteção entre idosos, apesar de ainda preliminar, confirma uma expectativa que os especialistas tinham a partir da fase 3 dos testes da Coronavac. 

“Nos estudos de fase 3, foram incluídos só 5% de idosos e a eficácia deu 50%, então a gente tinha essa expectativa de que, para idades mais avançadas, a eficácia não seria tão boa. Mas é preciso lembrar que essa é a eficácia para qualquer forma de doença, não é para hospitalizações e mortes. Para esses casos, esperamos uma eficácia superior e novos dados deverão sair nas próximas semanas”, disse.

A epidemiologista Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin declarou que, principalmente entre idosos maiores de 75 anos, todas as medidas de proteção devem ser mantidas e defendeu que, assim que vacinas de melhor efetividade para essa faixa etária tornarem-se disponíveis, a estratégia deve ser priorizar esses grupos no uso desses imunizantes. 

“Enquanto não houver outra opção para esse grupo, (deve-se) continuar com a Coronavac, contando com a proteção contra casos graves e óbitos”, disse ela em sua conta no Twitter. 

Apenas uma dose não confere proteção

O estudo sobre o cenário brasileiro mostra ainda que a Coronavac não conferiu nenhuma proteção com apenas uma dose, dado especialmente preocupante diante do imenso número de brasileiros que ainda não completaram o esquema vacinal. Como revelado pelo Estadão na última terça,  4,5 milhões de pessoas estão com a segunda aplicação da Coronavac atrasada no País. O estudo revela ainda que, entre o 1º e o 13º dia após a segunda aplicação, a proteção é de 18%.

Questionado sobre a possibilidade de mudanças no uso da Coronavac entre públicos prioritários e a eventual necessidade de aplicação de dose de reforço em idosos, o Ministério da Saúde informou que monitora os estudos de vacinas e que segue o que está na bula dos imunizantes. Como a Coronavac está indicada para idosos, a pasta afirma que manterá a estratégia de vacinação até surgirem novas evidências.

Também procurado, o Instituto Butantan afirmou que a Coronavac “se mostrou segura e eficaz, com indicação de uso para toda a população adulta, incluindo os idosos”. Disse ainda que a vacina “não é barreira para a infecção pelo vírus Sars-Cov-2, mas reduz expressivamente o risco de uma pessoa ter a doença causada pelo vírus, evitando, sobretudo, quadros graves, hospitalizações e mortes”.

Destacou que, nos testes clínicos realizados  no Brasil, a resposta imunológica e a segurança da vacina entre idosos foram semelhantes às verificadas no grupo menor de 60 anos. Vale lembrar, porém, que a resposta imune é a medição de anticorpos nos vacinados e nem sempre é  confirmada na análise de eficácia da vacina. Os dados de eficácia dos estudos brasileiros da Coronavac não foram divulgados por faixa etária.

Por fim, o Butantan ressaltou que os idosos correm maior risco de agravamento pela infecção e, por isso, devem se vacinar. “É importante que as pessoas sigam tomando a vacina, conforme os esquemas adotados pelos gestores de saúde, de modo a se prevenirem contra as complicações do novo coronavírus”, destacou o instituto

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