Andreas Gebert/Reuters
Andreas Gebert/Reuters

Eficácia da vacina de Oxford em idosos ainda não é conhecida, mostra estudo

Insuficiência de dados sobre população de idade mais avançada pode atrapalhar cronograma de vacinação do Ministério da Saúde; dados dos testes clínicos foram publicados nesta terça no periódico The Lancet

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2020 | 13h20
Atualizado 09 de dezembro de 2020 | 18h26

SÃO PAULO - Mesmo após uma primeira análise dos dados dos testes clínicos da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a AstraZeneca, a eficácia do imunizante entre idosos, um dos grupos de maior risco para covid, não pôde ser avaliada e só será conhecida depois de novas análises, disseram os autores da pesquisa em artigo publicado nesta terça-feira, 8, no periódico científico The Lancet.

O artigo confirma os resultados de eficácia divulgados anteriormente pela AstraZeneca (de 62% entre o grupo de voluntários que recebeu duas doses completas e de 90% entre aqueles que receberam meia dose seguida de uma dose completa), mas ressalta que o número de voluntários mais velhos é muito pequeno para aferir a eficácia entre idosos. Também não traz explicações das razões para o esquema com meia dose ter apresentado melhores resultados.

Na análise de eficácia, os pesquisadores avaliaram a distribuição dos 131 voluntários infectados entre os grupos placebo e vacinado. Somente cinco desses contaminados, porém, tinham mais de 55 anos, o que tornou impossível uma análise de eficácia estatisticamente significativa entre os mais velhos. "A eficácia da vacina em grupos de idades mais avançada não pôde ser avaliada, pois havia poucos casos. Os autores afirmam que está análise será concluída no futuro", informa nota do The Lancet divulgada para a imprensa.

De acordo com Merryn Voysey, um dos autores do artigo, a insuficiência de dados entre idosos ocorreu porque o recrutamento de pessoas maiores de 55 anos começou mais tarde durante os testes clínicos.

"Para avaliar a eficácia da vacina, precisamos ter um número suficiente de casos de covid-19 entre os participantes para indicar que a vacina os está protegendo contra doenças. Como o recrutamento de adultos mais velhos começou mais tarde do que em adultos mais jovens, houve menos tempo de acompanhamento para essas coortes (grupo de voluntários) e menos tempo para acumular casos de covid-19. Isso significa que temos que esperar mais para ter dados suficientes para fornecer boas estimativas de eficácia da vacina em subgrupos menores", afirmou o cientista.

A conclusão pode atrapalhar os planos do Ministério da Saúde de iniciar a vacinação no País entre profissionais de saúde e idosos. Até esta segunda-feira, 7, a principal aposta do governo brasileiro era a vacina de Oxford por causa de um acordo já firmado com a AstraZeneca para o fornecimento de 100 milhões de doses.

Segundo o cronograma apresentado na semana passada pelo ministério, a vacinação começaria em março com profissionais de saúde e idosos a partir dos 75 anos e seria gradualmente ampliada para idosos de outras faixas etárias. A estimativa do ministério era imunizar quase 30 milhões de idosos nas primeiras fases da campanha.

Na noite de segunda-feira, o ministério informou que negocia acordo com a farmacêutica Pfizer a compra de 70 milhões de doses do imunizante americano, que demonstrou eficácia de 95%. Nesta terça, no entanto, a pasta informou que somente 8,5 milhões de doses estariam disponíveis no primeiro semestre de 2021, o suficiente para vacinar somente 4,2 milhões de pessoas, já que o imunizante é dado em duas doses. Com esse volume de doses, portanto, o ministério vacinaria menos de 15% da população idosa brasileira.

Vacina demonstra redução da infecção e proteção contra casos graves

No artigo publicado no The Lancet, os pesquisadores detalharam os dados de segurança e eficácia já apresentados à imprensa em novembro. As informações referem-se a uma análise interina do estudo, ou seja, avaliação preliminar dos resultados feita antes dos testes serem concluídos. Foram considerados 11.636 voluntários em três países: Reino Unido, Brasil e África do Sul. 

Neste grupo, foram registrados 131 casos de covid, sendo 30 entre os voluntários que efetivamente receberam o imunizante e 101 no grupo que recebeu o placebo, o que leva a uma eficácia média de 70%. Quando os pesquisadores analisaram separadamente o grupo que tomou duas doses completas, a eficácia encontrada foi de 62%. Entre os que tomaram meia dose seguida de uma dose, a eficácia chegou a 90%.

O esquema com meia dose, porém, tem sido questionado pois ele foi implementado por causa de um erro na formulação da vacina em teste. Além disso, o número de voluntários submetidos a esse esquema vacinal é menor: apenas 2,7 mil dos 11,6 mil voluntários analisados. A AstraZeneca já informou que precisará de mais estudos para avaliar se essa dosagem é a mais eficaz. 

O artigo mostra ainda que a vacina de Oxford foi capaz não só de proteger contra a doença, mas também reduzir a transmissão do vírus. Isso foi medido a partir do acompanhamento de casos assintomáticos. Foram 69 infecções sem sintomas no grupo de voluntários, das quais 29 ocorreram no grupo vacinado e 40, no grupo placebo.

Também foi demonstrado no estudo que a vacina pode ter um papel importante na redução de casos graves da doença já que não foram registradas internações entre participantes do grupo vacinado. Foram dez voluntários hospitalizados com covid e todos faziam parte do grupo placebo.

Vacina é promissora, mas há necessidade de mais dados

Em um comentário assinado por especialistas independentes e publicado no The Lancet junto com o estudo, a vacina é considerada promissora e com vantagens como baixo preço e facilidade de armazenamento, mas ainda tem questões sobre a dosagem a serem esclarecidas.

“O acordo da vacina de Oxford – AstraZeneca com a iniciativa Covax é uma boa promessa para o acesso equitativo para países de baixa e média renda em comparação com o alto custo das duas vacinas de RNA que relataram eficácia superior a 90% (Pfizer e Moderna). A vacina de Oxford também pode usar a rede de refrigeração de rotina, o que é importante, pois os freezers de temperatura ultrabaixa necessários para armazenar vacinas de RNA podem ser inacessíveis e impraticáveis ​​em muitos países e em ambientes como asilos. No entanto, outros desafios com qualquer regime de duas doses existirão. Se as duas injeções de vacina exigirem doses diferentes, isso aumentará a complexidade para os profissionais de saúde com pouco treinamento formal”, disseram Maria Deloria Knoll e Chizoba Wonodi, da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins (EUA).

A microbiologista Natália Pasternak, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC), concorda que a vacina é promissora, mas levanta algumas inconsistências no estudo.

“Eles fizeram uma análise combinada de quatro estudos independentes (dois do Reino Unido com dosagens diferentes, um no Brasil e um na África do Sul). Não é um único estudo global. Eles usam doses diferentes, o placebo varia, então não são dados padronizados, não tem a mesma robustez que teria se fosse um estudo com o mesmo protocolo”, declara.

Quanto à segurança, ela afirma que será preciso também um monitoramento de mais voluntários para entender melhor o evento adverso grave (mielite transversa) em um voluntário vacinado “Não é um problema, mas é uma preocupação porque eles vão precisar ficar de olho no restante dos voluntários para checar se aparecem outros casos de problemas neurológicos”, ressalta Natália.

“A gente conclui que é uma vacina promissora, que pode ter entre 60 a 70% de eficácia, de fácil transporte, barata, mas é uma vacina que precisa apresentar resultados mais consistentes para que a gente entenda melhor”, completa a especialista.

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