Daniel Teixeira/Estadão
Eromar Azeredo Polo Boz, 55 anos, posa com seu marido Jorge Luiz Boz, 57, em sua casa em Osasco Daniel Teixeira/Estadão

Ela estava preocupada com a mãe idosa e perdeu o filho para o coronavírus

Eromar Azeredo Polo Boz viu o filho de 27 anos morrer na semana passada e faz um alerta para quem acha que a covid-19 é fatal apenas para pessoas do grupo de risco

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 05h01

Aos 55 anos, Eromar Azeredo Polo Boz estava preocupada com a mãe de 75 anos por causa do coronavírus. No entanto, ela viu o filho de 27 anos, Diogo, contrair covid-19 e morrer na semana passada. Em depoimento ao Estado, Eromar conta que o filho não pôde trabalhar de casa e faz um alerta para as pessoas que acham que o coronavírus só atinge pessoas do grupo de risco. Veja abaixo:

"Eu não estou querendo uma justificativa para a morte do meu filho. Sei que ele faleceu porque teve uma doença grave. Mas o que eu quero é mostrar para as pessoas que elas têm de tomar cuidado e as empresas não podem ser negligentes. A pessoa só vai enxergar a gravidade dessa epidemia quando perder alguém que ama.

Fazia seis meses que o Diogo tinha entrado como vendedor em uma empresa de call center em Alphaville (que fica em Barueri, na Grande São Paulo). Era esforçado. O pessoal dizia que era ‘CDF’. Depois de seis meses como temporário, ele ia ser registrado e passar para um cargo de coordenação. Estava todo contente que teve essa promoção.

Só que eu estava preocupada por causa do coronavírus. Ele tinha me contado que já tinha três casos suspeitos de coronavírus entre os funcionários e a empresa não tinha colocado ninguém para trabalhar de casa.

E o local era fechado, sem ventilação. O refeitório ficava cheio e não era arejado. Eu falava para ele tomar cuidado, mas não ia deixar de trabalhar presencialmente sem autorização da empresa.

No dia 2 de abril, ele trabalhou até as 17 horas e foi diretamente para o hospital porque estava muito ruim, tossindo muito e com febre. Ficou em isolamento em casa alguns dias, mas teve de ser internado no dia 6. Antes de ele ficar doente, minha preocupação era com a minha mãe, porque ela tem 75 anos e é do grupo de risco. Nunca imaginei que perderia meu filho de 27 anos para essa doença.

Por isso quero agora alertar as pessoas: morto não trabalha, morto não paga conta. Levem a sério essa doença e se isolem. A empresa vai continuar lá, mas eu nunca mais vou poder ter o abraço dele."

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‘Fiquem em casa, não é uma gripezinha’, postou jovem de 27 anos antes de morrer por coronavírus

Diogo Azeredo Polo Boz, com 27 anos e nenhuma doença crônica, morreu na semana passada em Osasco

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 05h00

Segunda-feira, 6 de abril. No mesmo dia que o País ficou em alerta com a crise política em Brasília entre o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e o presidente Jair Bolsonaro, um jovem desconhecido, morador de Osasco, na região metropolitana de São Paulo, esperava um leito de internação em um hospital público após ser diagnosticado com o novo coronavírus.

Já era a quarta vez que Diogo Azeredo Polo Boz, com 27 anos e nenhuma doença crônica, procurava uma unidade de saúde em cinco dias. Nas três primeiras, como tinha apenas febre e tosse, foi medicado e mandado para casa. 

Na quarta, Diogo já sentia falta de ar e teve de ser internado. Naquela mesma manhã, enquanto esperava a transferência para um hospital, postou em sua página no Facebook um relato desesperado. “É horrível, uma tosse que não para. Te impossibilita de respirar e te faz ter dores que você não imaginaria. Não aguento mais essas dores, ficar em uma sala de isolamento para poder melhorar e nada mudar. Qualquer coisa que você faça, já fica cansado, sem ar. Se cuidem, fiquem em casa, não é gripezinha. É real e está muito perto de todos.”

Foi a última mensagem de Diogo nas redes sociais, no último dia que a dona de casa Eromar Azeredo Polo Boz, de 55 anos, viu o filho. “Ele foi internado às 11 horas em um hospital que é referência para covid, então não podia receber visitas nem ficar com nada, nem celular. A única forma de receber notícias era ir ao hospital todo dia, às 15 horas, para falar com os médicos”, conta Eromar.

Até quinta-feira, 9 de abril, Diogo seguia em tratamento, consciente, com máscara de oxigênio, mas sem precisar de respirador. Na tarde daquele dia, no horário da visita, o médico informou a mãe do jovem que Diogo seria entubado. “Ele me disse que tinha explicado para o meu filho que ia colocar o tubo para ele não sofrer muito, porque, mesmo com a máscara de oxigênio, ele estava cansando muito, fazendo força para conseguir respirar, então decidiram entubar, mas nunca achei que ele não sairia de lá.”

Apenas 12 horas depois, na madrugada de sexta-feira, 10 de abril, Eromar recebeu uma ligação do hospital. Com insuficiência respiratória grave por causa da pneumonia provocada pelo coronavírus, Diogo teve uma parada cardiorrespiratória e não aguentou. Na data em que o jovem morreu, Sexta-feira Santa, Brasília também continuava em destaque por embates políticos. O presidente Bolsonaro saía às ruas da capital para visitar comércios e criticar o isolamento imposto por Estados.

Em Osasco, Eromar cuidava dos trâmites da liberação do corpo de Diogo, sem direito a velório nem enterro por causa do risco de contaminação. O jovem foi cremado. As cinzas, conta a mãe, serão entregues em 24 de abril à família, um dia depois da data que o rapaz completaria 28 anos.

Eromar continua inconformada com a perda rápida e precoce do filho, mas se revolta ainda mais ao ouvir comentários de quem defende que a abertura da economia é mais importante que a contenção do vírus. “Vou ao supermercado e vejo gente falando que quer trabalhar, que a economia não pode parar. Eu preferia ficar na miséria do que ter perdido meu filho. Dinheiro, coisas materiais, a gente conquista. Meu filho não volta mais.”

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