Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Elas estão grávidas e já tomaram a vacina de Oxford contra a covid-19

Gestantes contam ao Estadão como receberam a notícia de suspensão do imunizante

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2021 | 20h00

 

SÃO PAULO - Na manhã da última segunda-feira, 10, algumas horas antes da recomendação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a suspensão da vacina de Oxford/AstraZeneca em grávidas, a ginecologista obstetra Mariana Guazzelli, de 33 anos, que está na sua terceira gestação, tomou a segunda dose do imunizante, completando o esquema vacinal contra a covid-19.

Assim como na primeira dose, Mariana, que hoje está com 34 semanas, desta vez esperando as gêmeas Maria Isabela e Maria Carolina, disse que não teve nenhum sintoma após a vacinação. "Assim como na primeira dose que tomei em 10 de fevereiro, quando estava com 20 semanas, senti somente uma leve dor no local da aplicação da vacina. Após ambas as doses, fiquei super bem", diz. "Claro que depois da imunização existe a recomendação para monitorar sintomas por até dez dias".

Ela considera que a Anvisa tenha sido cautelosa. "Houve o caso de óbito de uma gestante no Rio de Janeiro. É compreensível. Por outro lado, médicos ficam frustrados porque estavam na expectativa de que gestantes fora da área da saúde pudessem ser imunizadas. Embora ainda não haja estudos com esse grupo, sabemos dos riscos para as gestantes caso sejam infectadas pelo coronavírus", diz. "Todas as gestantes que eu acompanho e foram vacinadas estão bem. Não apresentaram nenhum efeito colateral sério. A maioria (das que são profissionais da saúde) foi vacinada com as duas doses da Coronavac".

Mariana conta que recebeu mensagens de pacientes apreensivas com a recomendação da Anvisa. "Procurei tranquilizá-las explicando que o caso do Rio é isolado e que a orientação é para que a gente aguarde. Eu mesma, confesso, não fiquei preocupada por já ter tomado as duas doses", afirma. Como paciente, a médica também considerou as orientações de seu colega, o ginecologista obstetra Igor Padovesi. "Por sabermos que o mecanismo de ação das vacinas, muito provavelmente, não daria efeitos adversos graves em gestantes, a nossa posição desde o começo foi a favor da vacinação, assim como a inclusão de gestantes nos estudos para que a gente possa ter logo mais informações científicas com embasamento".

Padovesi reforça a importância do diálogo entre gestantes e médicos para esclarecimentos de riscos e benefícios. "É uma questão de avaliar em conjunto. O risco potencial da doença é muito mais alto do que o risco possível de ter reação pela vacina", afirma. Ele acredita que a situação deve ser esclarecida em breve, com a liberação da segunda dose da vacina de Oxford/AstraZeneca. "Tem um número grande de gestantes que já tomou a primeira dose desse imunizante. Essa é uma das confusões. A gente acredita que as autoridades devam voltar atrás e informar que esse caso foi analisado e não teve relação com a vacina, mas é preciso aguardar".

O caso da farmacêutica clínica Steffany Bonifatto, de 29 anos, que está com 17 semanas de gestação, foi diferente. Por fazer parte do grupo de profissionais da saúde e trabalhar em um hospital de São Paulo, ela tomou a vacina de Oxford/AstraZeneca dois dias antes de descobrir que estava grávida, no início de fevereiro: "Eu parei de tomar a pílula em agosto do ano passado, mas controlava minha menstruação por aplicativo. No dia da vacina, disse que não estava grávida. Tomei a vacina numa quarta-feira; era para vir a menstruação na quinta. Porém, no sábado, fiz o teste e deu positivo".

Embora tenha sentido apenas uma leve dor no local da aplicação, Steffany agendou uma consulta no início da semana seguinte. O seu atual obstetra também recomendou que ela não tomasse a segunda dose do imunizante prevista para ser aplicada em abril. "Eu estava com quatro semanas. Os dois primeiros médicos que procurei disseram que não iriam me liberar para tomar a segunda dose em abril. Mas por outros motivos relacionados ao parto, não me senti segura e busquei um terceiro especialista. Eu e meu marido gostamos do meu atual médico. Ele atende minhas expectativas de parto, mas também aconselhou que eu não tomasse a segunda dose por não haver estudos sobre essa vacina em grávidas", afirma.

Steffany diz que, independentemente da suspensão da vacina de Oxford/AstraZeneca para gestantes, ela não teria tomado nenhum imunizante atualmente aplicado no Brasil se soubesse que estava grávida. "Não sabemos ainda o que vai acontecer". Por trabalhar em hospital, mantém a rotina de cuidados contra o coronavírus. "Evito entrar nos leitos de covid. Como sou farmacêutica clínica, deveria ficar no andar, mas fico em outra sala. Tenho, porém, contato com fisioterapeutas e psicólogos que atendem os pacientes. Uso máscara, álcool em gel e lavo as mãos sempre que posso". A proteção extra, no entanto, será adiada. "Eu, meu marido, minha mãe e minha avó ficamos preocupados. Há casos de pessoas que pegam covid-19, mesmo vacinadas. Mas como meu médico não liberou, vou aceitar o que ele me propuser. Está nas mãos de Deus, fé a gente tem".

Entenda o motivo da suspensão

Um dia após a recomendação da Anvisa, na noite de terça-feira, 11, o Ministério da Saúde suspendeu a aplicação da vacina em gestantes e puérperas. A relação entre o uso do imunizante e a morte de uma grávida no Rio de Janeiro, que havia sido imunizada e teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC), ainda está sendo investigada. Por enquanto, o Ministério da Saúde mantém a recomendação de uso da Coronavac e da vacina da Pfizer em gestantes com comorbidades, que são as que têm o maior risco de agravamento caso sejam infectadas pela covid-19. O ministério orienta ainda que as gestantes que tomaram a primeira dose do imunizante não tomem a segunda dose. Como não há estudos sobre intercambialidade entre as vacinas oferecidas contra a covid-19, também não é indicada a aplicação da segunda dose de imunizante de outro fabricante.

Em abril deste ano, gestantes e puérperas foram incluídas no grupo prioritário do Plano Nacional de Imunização (PNI).  Na avaliação do presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), Agnaldo Lopes, é preciso estabelecer a relação de causa e efeito. "A suspensão é a primeira medida para esclarecer e não colocar a população em risco", avalia Lopes. Em contrapartida, ele lembra que a covid está trazendo uma taxa elevada de óbitos e complicações entre gestantes no País. "À princípio, as outras vacinas (Coronavac e a vacina da Pfizer) podem ser mantidas na campanha de imunização das gestantes", avalia.

De acordo com dados da pasta divulgados na noite de terça-feira, os eventos adversos das vacinas contra o novo coronavírus são extremamente raros. Das 22.295 gestantes imunizadas contra a covid-19 no País (com as vacinas da Oxford/AstraZeneca, Pfizer e Coronavac), foram registrados 408 eventos adversos, dos quais somente 11 foram considerados graves. Oito deles já tiveram a relação com a vacina descartada.

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