Harry Adamson / Sociedade Histórica da Pensilvânia via The New York Times
Harry Adamson / Sociedade Histórica da Pensilvânia via The New York Times

Ele iniciou uma revolução no modo como gays eram vistos na psiquiatria. E depois voltou ao anonimato

Em 1972, John Fryer declarou que gays não eram doentes mentais; seu discurso foi um divisor de águas na história dos direitos dos homossexuais

Ellen Barry, The New York Times

16 de maio de 2022 | 15h00

No segundo dia da convenção anual da Associação Americana de Psiquiatria em 1972, aconteceu algo extraordinário. Enquanto os psiquiatras ali reunidos, quase todos homens brancos de ternos escuros, se acomodavam nas cadeiras da Sala Dinamarquesa do Adolphus Hotel, em Dallas, uma figura disfarçada vinha invadindo o auditório pelos corredores dos fundos. No último minuto, passou por uma cortina lateral e tomou seu lugar no centro do palco.

A plateia respirou fundo. A aparência do homem era grotesca. Seu rosto estava coberto por uma máscara de borracha de Richard Nixon e ele vestia um smoking berrante e uma peruca assustadora. Mas a estranheza de seus trajes foi perdendo importância quando ele começou a falar.

“Sou homossexual”, começou ele. “Sou psiquiatra”.

Nos dez minutos seguintes, o Dr. Henry Anonymous – foi assim que ele pediu para ser chamado – descreveu o mundo secreto dos psiquiatras gays. Oficialmente, eles não existiam: a homossexualidade era categorizada como doença mental. Portanto, reconhecê-la resultaria na cassação da licença médica e na perda da carreira. Em 42 Estados, a sodomia era crime.

A realidade era que havia muitos gays na Associação Americana de Psiquiatria, o órgão profissional mais influente do campo, disse o médico mascarado. Mas eles viviam escondidos, ocultando dos colegas todos os vestígios de sua vida privada.

“Todos nós temos algo a perder”, disse ele. “Podemos perder a chance de concorrer a uma cátedra. O analista da rua pode parar de nos repassar pacientes. O supervisor pode nos pedir para tirar uma licença”.

Estas foram as escolhas que moldaram a vida do mascarado. Mas o custo era muito alto. E era isto que ele tinha a dizer.

“Mas estamos correndo um risco ainda maior por não vivermos plenamente nossa humanidade”, disse ele. “Esta é a maior perda, nossa genuína humanidade”.

Ele se sentou e, então, foi aplaudido de pé.

O discurso de dez minutos, que completou 50 anos no início do mês, foi um divisor de águas na história dos direitos dos homossexuais. No ano seguinte, a Associação Americana de Psiquiatria anunciou que reverteria sua posição quase centenária, declarando que a homossexualidade não era um transtorno mental.

É raro que os psiquiatras transformem a cultura que os cerca, mas foi o que aconteceu em 1973.

Ao retirar a homossexualidade do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, ou DSM, a psiquiatria removeu a base legal para uma ampla gama de práticas discriminatórias: negar aos gays o direito ao emprego, à cidadania, à moradia e à guarda dos filhos; excluí-los da igreja, das forças armadas e da instituição do casamento. Assim pôde começar o longo processo de reversão dessas práticas.

Os gays já não seriam encaminhados a psiquiatras para serem “curados” – para tomarem injeções de hormônios, se submeterem a terapias de aversão ou serem examinados por analistas –, mas sim informados de que, do ponto de vista da ciência, não havia nada intrinsecamente errado com eles.

Depois de fazer seu discurso, o homem da máscara, John Ercel Fryer, então com 34 anos, voou de Dallas para sua casa na Filadélfia e anotou em seu diário o quão aterrorizante e profunda fora a experiência.

“O dia passou, veio e se foi e ainda estou vivo. Pela primeira vez, me identifiquei com uma força semelhante à minha individualidade”, escreveu ele, em trechos incluídos em ‘Cured’, um documentário de 2020.

Ainda assim, ele não contou à mãe o que tinha feito. Não contou à irmã. Não contou ao seu amigo de infância mais próximo. Não contou a quase ninguém por vinte anos.

'Senti uma imensa liberdade'

Fryer, que morreu em 2003 aos 65 anos, se destacava por seu tamanho (ele tinha 1,95 m de altura e pesava 130 quilos), por sua inteligência brilhante e pelo fato de ser obviamente gay.

Betty Lollis, uma amiga de Winchester, Kentucky, lembrou-se dele como o menino de rosto redondo que a mãe vestira numa roupinha de marinheiro e trouxera pela mão até a porta da sala de aula na segunda série. Ele era um prodígio, disse ela, mas também “o garoto de quem os meninos riam ou tiravam sarro”.

Décadas depois, disse Lollis, alguns de seus colegas pediram desculpas a Fryer pela maneira como o tratavam. “Essas pessoas que eram cruéis com ele também eram tudo o que ele tinha”, disse ela. “Seus amigos mais queridos”.

Ele superou a escola e se matriculou na faculdade de medicina aos 19 anos. Mas, repetidas vezes, seus caminhos ficavam bloqueados quando os supervisores descobriam que ele era gay.

O mais esmagador desses contratempos ocorreu em 1964. Ele tinha se mudado para a atmosfera mais livre da Costa Leste e estava alguns meses em residência na Universidade da Pensilvânia quando baixou a guarda e disse a um amigo da família que era gay.

O jovem imediatamente contou ao pai, que então relatou o episódio ao chefe do departamento da Penn, disse Fryer numa entrevista ao Journal of Gay and Lesbian Psychiatry em 2002. O chefe do departamento chamou Fryer em seu gabinete e disse: “Ou você se demite, ou eu demito você”.

Fryer precisou passar anos realizando tarefas humilhantes num hospital psiquiátrico estatal, a única instituição que o aceitara, para completar sua residência. Depois disso, enfrentou um longo e incerto caminho até conseguir um cargo de professor com estabilidade. Por essas razões, sair do armário tinha pouco apelo, disse ele numa entrevista de 2001 para ‘This American Life’, grande parte da qual não fora publicada até agora.

“Era uma maneira de tirar todo o poder de quem se assumia gay”, disse ele. “E eu queria ser poderoso. Então, ser um médico heterossexual e dentro do armário me permitiu ter poder”.

Em 1970, Frank Kameny, astrônomo que havia sido demitido do exército por ser gay, liderou um pequeno grupo de ativistas dos direitos dos homossexuais para protestar contra a convenção anual da Associação Americana de Psiquiatria, exigindo que o diagnóstico fosse tirado do manual.

Fryer era um membro do Gay PA, um grupo de membros não assumidos da Associação Americana de Psiquiatria que se reunia em segredo fora da associação, e assistiu com desgosto os manifestantes invadirem mesas de debate e importunarem os palestrantes. “Fiquei com vergonha, só queria que eles calassem a boca”, disse ele.

Mas, no ano seguinte, Barbara Gittings, uma das ativistas, procurou Fryer para pedir ajuda.

Líderes mais jovens e progressistas estavam subindo nas fileiras da Associação Americana de Psiquiatria, e os ativistas viram uma janela de oportunidade. Então tiveram uma ideia: em vez de fazer piquete, eles poderiam agitar as coisas confrontando os psiquiatras com um deles, um psiquiatra gay. Só faltava encontrar alguém que topasse a ideia.

“Minha primeira reação foi: de jeito nenhum”, lembrou Fryer. “Eu não tinha segurança e não queria fazer nada que colocasse em risco a possibilidade de conseguir um cargo de professor em algum lugar. Naquele momento, não tinha como fazer uma coisa aberta”.

Mas Gittings continuou telefonando nos meses que se seguiram. Ela insistia com Fryer ao mesmo tempo em que procurava uma dúzia de seus colegas gays. Cada um deles dizia que não, o risco era muito grande.

Suas recusas incomodaram Fryer. E Gittings, disse ele, continuou “subindo a aposta”. E se ela pagasse sua passagem para Dallas? E se ele usasse um disfarce, para que ninguém soubesse que era ele?

“Ela plantou na minha cabeça a possibilidade de que eu fizesse alguma coisa”, disse ele. “De que eu poderia fazer algo que seria útil, sem arruinar minha carreira”.

O companheiro de Fryer na época era um estudante de teatro, e os dois se lançaram no projeto de inventar um disfarce que esconderia sua identidade: um smoking enorme, uma máscara de borracha derretida para distorcer suas feições e uma peruca com uma linha de cabelo bem baixa.

Ao pisar no palco naquele dia, Fryer disse, “senti uma imensa liberdade, uma grande sensação de liberdade”.

E sentiu orgulho também, pois era o único de seus colegas que tinha ousado levar a ideia adiante.

“Fazer aquilo, estar disposto a fazer aquilo, quando nenhum dos meus colegas da Gay PA estava disposto a fazê-lo, abertamente ou não”, disse ele. “Eles estavam todos na plateia. Batendo palmas”.

A visão de Fryer teve um poderoso efeito emocional nos psiquiatras reunidos no auditório, disse Saul Levin, que em 2013 se tornou o primeiro homem abertamente gay a atuar como CEO e diretor médico da Associação Americana de Psiquiatria.

“Obviamente, foi um verdadeiro abalo”, disse ele. “Ali estava um grande público para a época, vendo alguém se assumir vestindo um disfarce muito esquisito. Isso deixou todo mundo meio desorientado – que diabos está acontecendo aqui? E aí essa pessoa faz um discurso super eloquente”.

Ao deixar o palco, Fryer estava tonto, tão empolgado que, antes de retornar à Filadélfia, acabou gastando uma pequena fortuna num cravo. A compra do instrumento musical, disse ele, brincando, foi “uma das escolhas menos sábias da minha vida”.

Ao retornar ao seu quarto de hotel para tirar o disfarce, ele cruzou com o diretor do departamento de psiquiatria da Universidade da Pensilvânia, o mesmo que o havia demitido de sua residência. Ele não demonstrou qualquer sinal de que o havia reconhecido.

'Agora estava tudo acabado para mim'

Fryer voltou para a casa vitoriana onde morava em Germantown com seus Dobermans e os estudantes de medicina que acolhia como inquilinos.

Ele continuou sendo ele mesmo – às vezes generoso e carismático, às vezes arrogante e amargo, escondendo o sotaque de Kentucky quando lhe convinha.

Ele ainda não tinha estabilidade profissional e sua carreira estava frágil como sempre. Em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria votou para tirar a homossexualidade do manual de diagnósticos. E Fryer perdeu outro emprego, desta vez no Friends Hospital.

Uma vez mais, o gerente o chamara na sua sala. “Se você fosse gay, mas não espalhafatoso, nós deixaríamos você ficar aqui”, Fryer se lembrou de ter ouvido. “Se você fosse espalhafatoso, mas não gay, nós deixaríamos você ficar aqui. Mas, como você é gay e espalhafatoso, não podemos deixar”.

Fryer viu seus colegas serem promovidos e conquistarem cargos estáveis. A Gay PA desapareceu e foi surgindo uma nova geração de ativistas como uma força aberta dentro da psiquiatria, formando a Associação de Psiquiatras Gays e Lésbicas. Mas Fryer não participou desse movimento.

“Eu fugi de novo”, disse ele. “Não ia às reuniões. Era como se tivesse meio que desaparecido”. Era como se, disse ele, “eu tivesse feito a minha parte e agora estava tudo acabado para mim”.

De vez em quando, ele contava a alguém sobre o que tinha feito.

Karen Kelly, 67 anos, que alugava um quarto de Fryer na época em que era estudante de medicina, disse que ele contou o episódio a ela durante o jantar em algum momento no final dos anos 1970, mas nunca mais tocou no assunto.

Lollis, 85 anos, disse que ela e Fryer foram amigos muito próximos e confidentes mais tarde na vida, às vezes falando ao telefone várias vezes por semana. Mas ela só descobriu que ele era o Dr. Anonymous em 2002, quando ele lhe enviou o episódio de ‘This American Life’ que descrevia o discurso.

“Ele simplesmente não compartilhava com ninguém”, disse ela. “Nem a mãe, nem a irmã”.

Fryer acabaria por conseguir uma cátedra na Temple University, onde se tornou especialista em perdas emocionais e foi um dos pioneiros no movimento em prol dos cuidados paliativos. Depois de dar aulas o dia todo e jantar, ele costumava atender pacientes até às onze da noite, lembrou Kelly. E acompanhou muitos de seus pacientes nos seus processos de morte.

Ele dava grandes festas onde às vezes apareciam seus amigos famosos, como a antropóloga Margaret Mead e a escritora Gail Sheehy. Certa vez, durante a viagem para uma conferência, “ele acabou num restaurante tiki com meus primos, dançando com a dançarina de hula-hula”, disse Kelly.

Mas o ressentimento se apoderou dele, disse David Scasta, que conheceu Fryer ainda como residente médico na Temple University e o entrevistou sobre sua vida em 2002.

Ele se sentia isolado da comunidade gay, disse Scasta, ex-presidente da Associação de Psiquiatras Gays e Lésbicas. Nunca teve um relacionamento de longo. E sempre sentiu que sua carreira não era o que poderia ter sido.

“Sempre havia ali uma sensação de tristeza por não ser totalmente aceito”, disse ele. “John sempre sentiu que estava à margem”.

Passaram-se décadas até que os historiadores dos direitos dos homossexuais entendessem completamente o significado do discurso do Dr. Anonymous, que teve “um impacto como o das rebeliões de Stonewall”, acrescentou Scasta. Nesse caso, também, a onda de progresso foi impulsionada por pessoas improváveis.

“Nem sempre são as pessoas legais e cumpridoras da lei que fazem as coisas, são as que estão na periferia que podem fazer a mudança”, disse ele.

O 50.º aniversário do discurso do Dr. Anonymous foi comemorado com discursos e proclamações na Filadélfia, que declarou 2 de maio o Dia de John Fryer.

A celebração pública de seu ato já havia começado nos anos anteriores à morte de Fryer e, em 2001, ele comentou o assunto de maneira um tanto cáustica, dizendo que “ele meio que era exibido toda vez que alguém queria uma exposição”.

Na época, porém, foi o segredo que deu poder ao seu ato, disse ele.

“Como aquela pessoa disfarçada, eu pude dizer o que queria”, disse ele, acrescentando: “Fiz esse evento isolado, que mudou minha vida, que ajudou a mudar a cultura da minha profissão, e depois desapareci”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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